Enquanto desprezo por voto cresce, protestos aumentam no mundo

Cada vez mais cidadãos rejeitam partidos e sindicatos em favor de sistema menos hierárquico e mais participativo modelado na web

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Espanhóis participam da assembleia geral semanal do movimento 15-M, grupo insatisfeito com o manejo econômico do governo, na Puerta del Sol, em Madrid
Centenas de milhares de indianos desiludidos aclamaram um ativista rural em greve de fome. Israel enfrenta a maior manifestação de rua de sua história. Jovens enfurecidos na Espanha e na Grécia tomaram as praças públicas de seus países. Suas queixas vão desde a corrupção à falta de habitação acessível e o desemprego, queixas comuns em todo o mundo. Mas do sul da Ásia até o coração da Europa, e agora até mesmo em Wall Street, esses manifestantes partilham algo mais: uma cautela, ou até mesmo desprezo, pelos políticos tradicionais e pelo processo político democrático que eles governam. Eles estão tomando as ruas, em parte, porque têm pouca fé nas urnas.

"Nossos pais são gratos porque podem votar", disse Marta Solanas, 27, referindo-se às décadas que os espanhóis mais velhos passaram sob a ditadura de Franco. "Somos a primeira geração a dizer que o voto é inútil."

A economia tem sido uma força motriz, com a crescente desigualdade de renda, a taxa de desemprego elevada e os cortes nos gastos sociais causados pela recessão ampliando o mal-estar generalizado. A alienação é especialmente profunda na Europa, com boicotes e greves que em Londres e Atenas acabaram em violência.

Mas mesmo na Índia e em Israel, onde o crescimento permanece robusto, os manifestantes dizem que a desconfiança em relação à classe política de seu país e seu vínculo com grupos de interesses estabelecidos fazem parecer que apenas um ataque ao sistema em si pode trazer mudanças reais.

Jovens organizadores israelenses repetidamente mostraram a multidões gigantescas que seus líderes políticos, independentemente de qual seja o seu partido, foram completamente capturados por questões de segurança, por grupos ultraortodoxos e outros de interesses especiais, o que faz com que já não sejam capazes de responder à classe média do país.

Na maior democracia do mundo, Anna Hazare, um ativista, passou fome publicamente por 12 dias até que o Parlamento indiano se rendeu a algumas de suas exigências centrais em uma medida anticorrupção proposta para responsabilizar funcionários públicos por seus atos.

"Elegemos representantes do povo para que eles possam resolver os nossos problemas", disse Singh Sarita, 25, entre os milhares que se reuniram todos os dias em Ramlila Maidan, onde as chuvas de monção transformaram o local num lamaçal, mas mesmo assim os manifestantes agitaram bandeiras indianas e cantaram canções patrióticas. "Mas isso não está acontecendo. A corrupção governa nosso país."

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Ativista anticorrupção Anna Hazare deita em frente a retrato de Gandhi, em Nova Délhi, em seu nono dia de greve de fome (24/8)
Cada vez mais, cidadãos de todas as idades, mas especialmente os jovens, rejeitam as estruturas convencionais, como partidos e sindicatos, em favor de um sistema menos hierárquico e mais participativo modelado em muitos aspectos na cultura da web.

Nesse sentido, os movimentos de protesto nas democracias não são completamente contrários àqueles que abalaram governos autoritários neste ano, derrubando líderes de longa data na Tunísia , Egito e Líbia . Os manifestantes criaram seu próprio espaço político online que muitas vezes é abertamente hostil em relação às instituições tradicionais da elite.

A massa crítica de wikis e ferramentas de mapeamento, vídeos e sites de redes sociais, a agência de notícias comunal que é o Twitter e a facilidade de doações oferecidas por sites como PayPal, possibilitam a união de pessoas semelhantes.

"Você está olhando para uma geração de 20 a 30 anos que está acostumada a se organizar", disse Yochai Benkler, um diretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade da Universidade de Harvard. "Eles acreditam que a vida pode ser mais participativa, mais descentralizada e menos dependente dos modelos tradicionais de organização, seja no Estado ou na grande empresa. Essas foram as formas dominantes de fazer as coisas na economia industrial e eles já não acreditam nelas."

Yonatan Levi, 26, chamou o acampamento que surgiu em Israel de "uma bonita anarquia". Havia círculos de discussão sem líder, como salas de chat na internet, coordenados, disse ele, por "emoticons" feitos com gestos das mãos como antebraços cruzados para sinalizar desacordo com o orador do momento, mãos dadas para cima e balançando no ar para simbolizar acordo – os mesmos sinais utilizados em assembleias públicas na Espanha. Havia alimentos e cursos de graça, com base na convicção da internet de que tudo deve ser disponibilizado sem nenhum custo.

Alguém tinha de intervir, disse Levi, porque "o sistema político abandonou os seus cidadãos". A desilusão crescente vem 20 anos depois do que foi comemorado como a vitória final do capitalismo democrático sobre o comunismo e a ditadura.

Após o colapso da União Soviética em 1991, emergiu um consenso de que a economia liberal combinada com as instituições democráticas representavam o único caminho a ser seguido. Aquele consenso, defendido por estudiosos como Francis Fukuyama em seu livro "O Fim da História e o Último Homem", tem sido abalado, se abandonado, por uma sucessão aparentemente interminável de crises – o colapso financeiro asiático de 1997, a bolha da internet em 2000, a crise do subprime de 2007 a 2008 e a atual crise da dívida europeia e americana – e a aparente incapacidade dos políticos para lidar com elas ou proteger seu povo de seus resultados.

Os eleitores frustrados não estão pleiteando que um ditador assuma o poder. Mas eles dizem que não sabem para onde correr num momento em que as opções políticas da era da Guerra Fria parecem ocas. "Mesmo quando o capitalismo entrou em sua pior crise desde os anos 1920, não havia uma alternativa viável", disse o autor britânico de esquerda Owen Jones.

Protestos no Reino Unido rapidamente se transformaram em ilegalidade em agosto . Jovens enfurecidos quebraram vitrines de lojas e incendiaram Londres e outras cidades, usando sistemas de comunicação, como o BlackBerry Messenger , para fugir da polícia. Eles tinham mais experiência e tecnologia, disse Jones, mas careciam de uma crença de que o sistema político representa seus interesses. Eles também não tinham esperança.

"Os jovens que participaram dos motins não sentiam que tinham um futuro que poderia ser colocado em risco com suas ações", disse Jones.

Na Espanha, país atingido pela maior taxa de desemprego do mundo desenvolvido - 21% -, muitos perderam a confiança de que os políticos de qualquer partido possam encontrar uma solução. Suas demandas são vagas, mas o seu clamor por ajuda é melancólico e determinado. Conhecidos como “os indignados”, eles bloqueiam o tráfego, ocupam praças e se reúnem para aulas ao ar livre.

Solanas, uma jornalista online desempregada, fazia parte do núcleo de manifestantes que ocupou a Puerta del Sol, uma praça pública em Madrid, a capital do país, desencadeando um protesto nacional. Naquela noite, ela e alguns amigos abriram e começaram a alimentar a conta no Twitter @acampadasol, que agora tem quase 70 mil seguidores.

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Homem passa por pneus incendiados na região de Toxteth, Liverpool (10/08)
Embora as manifestações espanhola e israelense tenham sido pacíficas, os críticos levantaram preocupações sobre o seu desejo de contornar as instituições representativas. Na Índia, a cruzada de Hazare de "jejum até a morte" a menos que o Parlamento promulgasse sua lei anticorrupção foi vista por alguns partidários como um sacrifício próprio. No entanto, muitos oponentes viram suas táticas como uma chantagem antidemocrática.

Milhares apareceram em Nova Délhi no mês passado para desabafar uma revolta visceral contra o estado da política indiana. Uma faixa dizia: "Se o seu sangue não está fervendo agora, então o seu sangue não é sangue!"

A campanha de Hazare, 74, foi destinada a forçar o Parlamento a considerar a sua legislação anticorrupção em vez de um alternativa mais fraca apresentada pelo governo.

O Parlamento aprovou por unanimidade uma resolução de apoio a peças centrais de sua proposta e parlamentares devem aprovar uma medida anticorrupção na próxima sessão. A campanha anticorrupção de Hazare tocou profundamente o público precisamente porque ele não é um político. Muitos eleitores sentem que a democracia indiana, e em particular os grandes partidos, o Partido do Congresso e o Partido Bharatiya Janata, tornaram-se insensíveis e cativos de grupos de interesse. Por quase um ano, a mídia indiana e auditores do governo expuseram escândalos envolvendo os bilhões de dólares em suborno ao governo.

Muitos dos manifestantes seguidores do homem do boné branco conhecido como topi eram jovens da classe média, elegantemente vestidos e carregando os mais novos smartphones. Singh nasceu em uma aldeia e agora frequenta uma universidade em Nova Délhi. No entanto, ela está ansiosa sobre seu futuro e quer saber por que seus pais passam dias sem energia elétrica.

"Não temos eletricidade por 18 horas por dia", disse Singh. "Isso é a corrupção. A eletricidade é a nossa necessidade básica. Aonde vai o dinheiro?"

Responder às mudanças nas necessidades dos eleitores deve ser a principal força da democracia. Esses movimentos emergentes, como muitos no passado, poderiam acabar por ser absorvidos por partidos políticos tradicionais, assim como o Partido Republicano nos EUA busca se beneficiar do sentimento anti-establishment do movimento Tea Party. No entanto, os puristas envolvidos em muitos dos movimentos dizem que pretendem evitar os canais da velha política.

A esquerda política, que pode parecer o destino natural para os movimentos agora emergentes ao redor do globo, foi comprometida aos olhos dos ativistas pelo centrismo neoliberal de Bill Clinton e Tony Blair. A velha esquerda permanece apegada aos sindicatos, mesmo quando eles representam uma fatia cada vez menor da força de trabalho. Mais recentemente, a participação da centro-esquerda no resgate de instituições financeiras alienou antigos simpatizantes que dizem que o dinheiro deveria ter ido para as pessoas em vez de para os bancos.

Os operadores políticos da velha guarda pós-Guerra Fria estão em dificuldades. No Japão, seis primeiros-ministros renunciaram em cinco anos , conforme se aprofunda a paralisia política. Os dois maiores partidos da Alemanha, os democratas-cristãos e os social-democratas, sofreram grandes declínios na associação de novos membros enquanto os Verdes ganharam espaço. Ao mesmo tempo, a chanceler Angela Merkel viu sua autoridade erodir com os impopulares resgates .

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Manifestante usa o computador em protesto convocado pelo Facebook em Tel Aviv, Israel (18/07)
Em muitos países europeus, a decepção é dupla: com governos federais muito endividados que optaram por diminuir os gastos sociais e com uma União Europeia vista como distante e pouco democrática. Os líderes europeus têm ditado duras medidas de austeridade em nome da estabilidade do euro , moeda comum da região, autorizadas por políticos nacionais corruptos, segundo os manifestantes.

"A maior crise é uma crise de legitimidade", disse Solanas. "Não achamos que estejam fazendo nada por nós."

Ao contrário da Europa, a economia de Israel é uma história de sucesso incomum. Ela cresceu de um lento sistema estatal para um sistema de mercado e uma potência de alta tecnologia. Mas com a riqueza veio a desigualdade. Os organizadores do protesto dizem que a mesma pequena classe de pessoas que lucrou com as privatizações do governo também domina os principais partidos políticos. O resto do país foi excluído da política.

Levi, nascido em Degania, primeiro kibbutz de Israel, disse que os protestos não foram atos de raiva, mas de recuperação de uma sociedade invadida por uma classe conhecida em hebraico como "hon veshilton", que significa uma conexão entre dinheiro e política. O aumento das forças de mercado produziu um sentimento de desengajamento público, disse ele, uma sensação de que o papel do cidadão é limitado a ocasionalmente colocar uma cédula em uma urna.

"O sistema político abandonou seus cidadãos", disse Levi. "Perdemos o senso de responsabilidade pelo próximo."

*Por Nicholas Kulish

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