Enigmático no poder, Kadafi se mostra difícil de capturar

Enquanto rebeldes tomam controle da Líbia e Otan ajuda missão de busca, paradeiro de excêntrico líder continua um mistério

The New York Times |

Talvez seja apropriado que Muamar Kadafi se comporte de maneira tão imprevisível em sua fuga quanto se comportou durante os 42 excêntricos anos em que esteve no poder.

Na Praça Verde de Trípoli, agora rebatizada de Praça dos Mártires, os jovens que limpavam o asfalto previram que ele estava sob seus pés. Em Bab al-Aziziya, que já foi o bastião do poder de Kadafi na capital líbia, moradores sugeriram a vizinha Argélia, sua cidade natal de Sirte ou algum local distante no deserto, um ambiente no qual Kadafi dizia se sentir em casa. Rebeldes disparando salvas de comemoração apenas deram de ombros.

"Esta é a grande pergunta – onde está Kadafi? – e ninguém sabe a resposta", disse Suleiman Abu Milyana, um rebelde das montanhas Nafusah. "Ele tem uma mente muito peculiar e muitas personalidades. Se tivesse só uma, você poderia imaginar. Mas como ele tem três ou quatro, ninguém tem como saber."

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Imagem encontrada no quartel-general de Kadafi mostra o líder foragido com a mulher, Safia Farkash (ao centro) e outros integrantes da família

Enquanto os rebeldes tomavam a capital líbia , Kadafi e sua família sumiram. Mesmo a filha adotiva, que ele alegou ter sido morta em um ataque aéreo americano em 1986 – erroneamente, ao que agora parece – desapareceu da cidade de 2 milhões de habitantes deixando para trás seu consultório em um hospital de Trípoli. Desde então, ele divulgou alguns breves mensagens de áudio com insultos antiquados. Em uma delas, convocou os compatriotas a limpar a capital dos ratos, traidores e infiéis. "Que as massas rastejem até Trípoli", declarou ele em outro áudio. "Em frente! Em frente! Em frente!", gritou.

No domingo, os apoiadores de Kadafi até se ofereceram para negociar, uma proposta que Mahmoud Shammam, o ministro da Informação no governo de transição, classificou como " delírio ". "Vamos prendê-los muito em breve", disse ele, embora esse tenha sido o refrão das previsões ruins da semana passada quando os rebeldes consolidaram seu controle da capital.

"Realmente não sabemos onde ele está agora", reconheceu um oficial sênior de contraterrorismo dos Estados Unidos, falando sob condição de anonimato.

Tropas britânicas e francesas de operações especiais, auxiliadas por imagens de reconhecimento oferecidas pelos americanos, bem como agentes da Agência Central de Inteligência (CIA), têm ajudado os rebeldes na busca por Kadafi em toda a capital, segundo autoridades dos Estados Unidos.

"Não temos motivo para acreditar que Kadafi deixou Tripoli," disse um oficial militar americano, observando que o líder líbio provavelmente tem uma série de túneis e casas seguras, apoiadas por uma rede de assessores de confiança, que ele poderia usar para escapar de seus perseguidores.

Mas outras autoridades americanas disseram que ele poderia ter saído da capital para cidades do leste, e a especulação – em Trípoli e em outros lugares – é que ele de alguma forma seguiu para a Argélia, o único país vizinho que ainda tem de reconhecer ou apoiar a liderança dos rebeldes. Na segunda-feira, a Argélia admitiu ter dado abrigo a parentes de Kadafi , mas não deu informações sobre seu paradeiro.

Na realidade, a liderança rebelde parece mais sobrecarregada com a tarefa principal: retomar o fornecimento de energia elétrica, água e assistência médica para a capital, bem como fazer algo sobre as centenas de combatentes que percorrem as ruas com o prestígio que um novo fuzil de assalto pode trazer.

Enquanto reconhecem que o controle da capital pode acabar com a resistência em lugares como Sirte, na costa, e Sabha, no sul, eles acreditam já ter cumprido o maior de seus desafios: acabar com o reinado do líder do mundo árabe que permaneceu por mais tempo no poder.

"Eu não me importo com ele ou com onde ele está", disse Mazigh Buzakhar, um ativista de 29 anos de idade. "Ele se foi desde 17 de fevereiro", afirmou, citando a data em que a revolta começou. "Ele perdeu a legitimidade e ficou sem nada. Ele não significa nada para a Líbia ou para os líbios".

Mas em momentos menos empolgados, alguns reconhecem a sombra de Kadafi em um país onde dois terços dos líbios nunca conheceram outro líder.

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Kadafi (blusa vermelha) e a mulher passeiam com familiares em foto encontrada no quartel-general do líder foragido em Trípoli

"É o mesmo efeito de quando você está tentando conseguir uma confortável noite de sono e não há mais aquele mosquito irritante zumbindo ao redor da sala", disse Aref Nayed, que lidera o Comitê de Estabilização da liderança rebelde. "Estou absolutamente convencido de que ele está acabado, mas ainda é um incômodo."

As comparações com Saddam Hussein são inevitáveis. Como Kadafi, o ditador iraquiano fugiu com seus filhos quando sua capital caiu em 2003. Ele evitou a captura por sete meses, passando por uma série de casas seguras e esconderijos subterrâneos. Tropas americanas realizaram mais de uma dúzia de ataques tentando capturá-lo antes de um colaborador próximo finalmente o entregar.

"Kadafi é como um rato vivendo no subsolo", disse Mohammed Zarzah, um rebelde de 25 anos que comemorava a conquista da capital em Bab al-Aziziya. "Ele nos chamou de ratos e agora o rato é ele."

Por Anthony Shadid

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