Encurralados em Gaza, palestinos vivem em desespero

Bloqueio israelense e rivalidade entre facções palestinas dificultam situação de um povo que há décadas vive em meio a conflito

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As mulheres tinham os olhos turvos, a voz fraca, mãos calejadas e vermelhas. Como podem esperar que elas cozinhem e limpem sem água ou eletricidade? O que podem fazer em casas que são escuras e quentes durante todo o dia? Como podem lidar com maridos desempregados há anos e crianças irritadas e sem rumo?

Sentada com outras oito mulheres em uma clínica de combate ao estresse, Jamalat Wadi, 28, tentava ouvir os conselhos da agente de saúde mental. Mas ela não se conteve. Ela tem oito filhos, o marido está desempregado e passa os dias sob efeito de sedativos.

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Jamalat Wadi, 28 anos, é vista em sua casa de um quarto ao lado de alguns de seus oito filhos

"Nossos maridos não trabalham, os meus filhos não estão na escola, eu fico nervosa, eu grito, eu choro, eu brigo com o meu marido", desabafou ela. "Meu marido começa a brigar com a gente e, em seguida, ele grita: 'O que eu vou fazer? O que posso fazer?'"

As demais mulheres sabiam exatamente o que ela queria dizer.

Os palestinos de Gaza, a maioria deles descendentes de refugiados da guerra de 1948 que criou Israel, viveram décadas de conflito e confronto. Suas cicatrizes acumularam como camadas de rochas sedimentares, cada uma marcando uma crise diferente - a falta de teto, a ocupação, a guerra, a dependência.

Hoje, no entanto, dois acontecimentos conspiraram para transformar uma vida difícil em um tormento: o bloqueio de três anos por Israel e Egito, que os têm encurralado no pequeno enclave e esmagado o que havia de uma economia formal local, e a rivalidade entre as facções palestinas, que minou a identidade e finalidade de seu povo, dividiu famílias e provocou uma grave escassez de eletricidade no meio do verão local.

Há uma abundância de coisas para se comprar em Gaza; mercadorias são trazidas através da fronteira ou contrabandeadas através dos túneis com o Egito. Esse não é o problema.

Na verdade, fale sobre comida e as pessoas aqui ficam irritadas, porque isso implica que a sua luta é pela própria subsistência ao invés de ser pela qualidade de vida. A questão não é a fome. É a inércia, a insegurança e o desespero.

Qualquer discussão sobre as dificuldades de Gaza é parte de um debate político carregado. Nenhuma crise humanitária? Esse é um argumento de Israel, segundo as pessoas aqui, que visa fazer com que o mundo esqueça os crimes do país. Palestinos encurralados sem futuro? As pessoas estão em uma situação pior no Líbano, dizem outros, onde os seus "irmãos árabes" as impedem de comprar propriedades e de trabalhar na maioria das profissões.

Mas a situação é certamente terrível. Dezenas de entrevistas e horas passadas nas casas de pessoas ao longo de uma dezena de dias consecutivos aqui criaram um retrato de uma sociedade fraturada e desanimada, incapaz de imaginar um futuro digno para si mesma conforme mergulha em apatia e radicalização.

Parece ainda mais improvável que um Estado palestino ou qualquer tipo de paz no Oriente Médio possa surgir sem mudanças substanciais. Gaza, em quase todos os níveis, está travada.

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Partidários do Hamas seguram faixa do primeiro-ministro palestino Salam Fayyad em um protesto contra a falta de eletricidade
Uma estrada principal estava bloqueada e um palco havia sido montado para uma manifestação contra a falta de eletricidade. Oradores sacudiam as janelas próximas ao entoar os hinos do Hamas, o partido islâmico no poder nos últimos três anos. Meninos usando roupas roupas camufladas marchavam. Jovens carregavam cartazes de um homem com dentes de vampiro mordendo um bebê ensanguentado.

O vampiro não era Benyamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, mas Salam Fayyad, o primeiro-ministro da Autoridade Palestina na Cisjordânia.

Como se o povo palestino não tivesse problemas o suficiente, eles têm dois governos: o Fatah, na cidade de Ramallah, Cisjordânia, e o Hamas aqui. O antagonismo entre eles gera uma profunda rivalidade e raiva que não mostram sinais de diminuir.

Sua vítima mais recente é a eletricidade em Gaza, parte da qual é fornecida por Israel e paga pelo governo da Cisjordânia, que é parcialmente reembolsada pelo Hamas. Mas, a Cisjordânia diz que o Hamas não está pagando o suficiente e por isso decidiu não pagar Israel, que suspendeu o fornecimento.

John Ging, chefe do escritório em Gaza da Agência das Nações Unidas e Socorro aos Refugiados da Palestina, conhecida como UNRWA, diz que o problema da eletricidade "é o mais recente e triste reflexo da divisão entre os palestino".

Ele acrescentou: "Eles não têm credibilidade para exigir nada de ninguém quando mostram como desconsideram a situação de seu próprio povo".

Hoje, o Hamas não tem rival aqui. O grupo coordena as escolas, hospitais, tribunais, serviços de segurança e - através de túneis de contrabando com o Egito - a economia.

Na verdade, há um paradoxo em Gaza: ainda que o Hamas não tenha nenhuma concorrência pelo poder, o grupo também possui poucos seguidores.

Em dezenas de entrevistas, foi difícil encontrar pessoas dispostas a elogiar o seu governo ou o de seu concorrente. "Eles são dois mentirosos", disse Waleed Hassouna, padeiro da Cidade de Gaza.

As pessoas aqui parecem cada vez mais incapazes de imaginar uma solução política para os seus males. Pergunte aos moradores de Gaza como resolver o conflito palestino-israelense - Dois Estados? Um Estado? - e a resposta é uma reação reflexiva para expulsar Israel.

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Homem é visto em túnel por onde são transportadas mercadorias do Egito para Gaza

"O Hamas e o Fatah são duas faces da mesma moeda", disse Ramzi, professor da cidade de Rafah, revelando um sentimento amplamente aceito. "Toda a terra é nossa. Devemos transformar os judeus em refugiados e, em seguida, deixar a comunidade internacional cuidar deles".

Hamza e Muhammad Ju'bas são irmãos, com idades entre 11 e 13 anos. Eles vendem chocolates e gomas nas ruas depois da aula para ajudar na renda familiar. Quando conseguem 20 shekels, cerca de US$ 5, eles vão para casa brincar. 

Em uma tarde quente eles se refugiaram em um centro de serviços de telefonia celular. O centro - onde os clientes esperam até que sua senha apareça em mostradores digitais em um ambiente com ar condicionado - parece quase glamoroso.

Os meninos foram questionados sobre as suas esperanças. "Meu sonho é ser como esses caras e trabalhar em um lugar que é legal", disse Muhammad. "Meu sonho é ser um trabalhador," disse Hamza.

Eles ouvem histórias sobre os "bons tempos" dos anos 1990, quando seu pai trabalhava em Israel como um pintor de casas ganhando US$ 85 por dia. Mais tarde, seu pai, Emad Ju'bas, 45, disse: "Meus filhos não têm muita ambição".

A família é típica. Eles vivem em Shujaiya, um bairro do leste com 70.000 habitantes esprimidos em um labirinto de ruelas estreitas e pequenas lojas.

O ar está pesado, com poeira e fumaça de carros, motocicletas e carroças puxadas por cavalos. Cada loja possui um pequeno gerador do lado de fora - presos com correntes. O barulho de geradores e crianças formam a trilha sonora de Shujaiya.

As famílias são grandes. De 1997 a 2007, a população aumentou quase 40%, chegando a 1,5 milhões. Os palestinos dizem que as famílias numerosas vão ajudá-los a lidar com o envelhecimento da população e mais filhos significa mais lutadores para sua causa.

Olhando para fora

As ondas banhavam a praia. Era noite. Mahmoud Mesalem, 20, e alguns de seus amigos estavam sentados em um restaurante.

Estudantes universitários ou recém-formados, que foram colocados em um mundo circunscrito por limites estreitos estabelecidos por política e geografia.

Mesalem apontou para um navio israelense no horizonte, em seguida, fez uma arma com a mão e apontou para sua cabeça. "Se a gente tentar sair, eles atiram", disse.

Israel nunca está longe das mentes das pessoas aqui. Seus navios controlam as águas, seus aviões controlam os céus. Seus caprichos, acreditam os moradores de Gaza, controlam o seu destino.

E ainda que Israel seja visto como o inimigo, eles querem manter laços comerciais e trabalhar no país.

Economistas locais afirmam que não é necessário a entrada de mais mercadoria, como a flexibilização do bloqueio tem permitido, mas a saída de pessoas e de exportações.

Isso não vai acontecer em breve.

"Nossa posição contra o movimento de pessoas é a mesma", disse o major-general Eitan Dangot, israelense encarregado da política para civis de Gaza. "Quanto às exportações, não agora. A segurança é primordial, de modo que isso terá que esperar".

Por Michael Slackman e Ethan Bronner

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