Encontro entre Índia e Paquistão demonstra sinal de aproximação

NOVA DELHI ¿ Foi um encontro que durou menos de uma hora de tensão e risadas forçadas em uma reunião entre os importantes governadores na Rússia, que atraiu dezenas de jornalistas. Mas por ser a primeira vez que o primeiro-ministro, Manmohan Singh, e o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, se veem desde os ataques terroristas em Mumbai, no ano passado, a breve sessão foi carregada de expectativas de uma nova abertura entre os dois países.

The New York Times |

Zardari apareceu com seu costumeiro riso forçado para as câmeras, mas Singh tinha apenas seu sorriso forçado habitual e poucas palavras para oferecer.

Estou feliz em encontrá-lo e tenho permissão para dizê-lo que o território do Paquistão não deve ser usado para terrorismo, disse Singh a Zardari quando se encontraram antes da reunião, na Organização de Cooperação de Xangai, em Yekaterinberg, na Rússia, de acordo com a agência de notícias Reuters.

Ainda assim, por trás da superfície dura e bem além das brincadeiras para as câmeras, uma pequena, mas perceptível aproximação entre os dois países pareceu acontecer.

Ex-diplomatas seniores próximos à instituição de política externa aqui dizem que as negociações confidenciais em Kashmir ¿ a concorrida fronteira do território, que é a disputa central entre as duas nações ¿ devem começar novamente, algo que os EUA têm pedido silenciosamente.

Tais conversas nos bastidores ficaram próximas de alcançar um plano de acordo em disputas de décadas passadas, quando o general Pervez Musharraf era presidente do Paquistão, mas que foram suspendidas no ano passado devido ao fim da contenção do general no poder.

Em seu primeiro discurso ao parlamento desde que foi renomeado primeiro-ministro, seguido da grande vitória eleitoral de seu partido em maio, Singh pareceu abrir as portas para um novo diálogo, dizendo à Índia que encontrariam um Paquistão mais decidido, ao seguir passos sólidos para combater grupos militantes operando em seu território.

Além disso, ele e Zardari disseram que se encontrariam novamente para outras conversas no Egito, no próximo mês, para falar sobre os resultados de um encontro entre os secretários do Exterior de ambos os países sobre terrorismo.

Considerando esses avanços em conjunto, eles apontam para um recomeço de algumas conversas entre os dois países, que tem mais probabilidade de ser em breve. Tais conversas poderiam ajudar a diminuir as tensões e garantir estabilidade na região ¿ algo que satisfaria os interesses tanto da Índia e dos EUA como os do frágil governo civil do Paquistão ao lutar contra o renascimento do Taleban.

É um interesse da Índia continuar com o diálogo, disse Dipankar Banerjee, importante general aposentado do exército indiano, que agora dirige o Instituto de Estudo de Paz e Conflitos, uma instituição de pesquisa com base em Delhi. A Índia pode contribuir com a desestabilização e destruição do Paquistão em cinco ou dez anos. Mas se você quiser um Paquistão seguro e estável, você terá que seguir um curso diferente.

De acordo com analistas e ex-oficiais seniores do governo aqui, a Índia tem observado cada vez mais suas aspirações por um status de grande poder prejudicado pela sua inabilidade de resolver os problemas com seu vizinho do oeste.

As brigas com o Paquistão limitam o entendimento da Índia no exterior, disse Salman Haidar, diplomata indiano aposentado e ex-secretário do Exterior, posto de serviço civil mais alto do serviço diplomático. Faz parecer que a Índia está paralisada. E não avançando.

Os indianos perceberam uma coisa: não houve grandes ataques terroristas desde novembro passado. Se tivesse havido algum, nenhum diálogo, nem mesmo breve, poderia ter começado.

Mas a Índia pouco satisfeita com os esforços feitos pelo Paquistão até agora, em acabar com o grupo que os EUA e a Índia acusam de financiar e executar os ataques em Mumbai, o Lashkar-e-Taiba com base no Paquistão.

Islamabad se recusou a entregar os suspeitos para o julgamento na Índia. Ao invés disso, disse que conduziria sua própria investigação, mas até agora fez pouco mais do que confirmar que paquistaneses estavam envolvidos. Uma corte paquistanesa recentemente liberou Hafeez Saeed, o fundador do Lashkar-e-Taiba, citando falta de evidências.

A falta de energia por trás da investigação paquistanesa revive velhas questões sobre o compromisso do Paquistão em eliminar grupos militantes como o Lashkar, que foi construído com a ajuda do exército e dos serviços de inteligência paquistanês nos anos 1980, para pressionar a Índia por Kashmir. Alguns analistas não estão otimistas de que a conversa atual render muita coisa.

Mesmo com a retomada das conversas haverá um momento bem difícil, disse Lalit Mansingh, ex-secretário do Exterior e embaixador indiano nos EUA. Com a autoridade civil frágil e o exército do Paquistão sendo liderado por generais que a Índia não confia, de acordo com Mansingh, é difícil saber com quem falar.

Ainda assim, outros estão desconfiados de que isso fará a Índia como se estivesse aceitando a pressão americana. O enviado americano para a região, Richard C. Holbrooke, em suas visitas pelo local, reagiu publicamente sobre o assunto dizendo que a administração de Obama não pediu à Índia para falar com o Paquistão, quanto mais para discutir sobre Kashmir.

Na semana passada, William Burns abordou New Delhi, ao ressuscitar o assunto sobre Kashmir em suas observações públicas, dizendo desejar que as pessoas do local fossem levadas em consideração quanto às decisões. Essa tem sido a política dos EUA por muito tempo, mas qualquer sinal de interferência por partes externas no que a Índia vê como um assunto interno tende a aumentar o sentimento de raiva por aqui.

Shamshad Ahmad, ex-diplomata importante paquistanês, disse que o encontro quebrou o gelo, e acrescentou que isso só está acontecendo por causa de certa pressão de Washigton.

Embora a Índia esteja fortalecendo laços com os EUA, não há acordo no país sobre o compromisso da administração de Obama com o Paquistão. Alguns temem que ao mesmo tempo em que os EUA estão bem preparados para derrotar o Taleban na fronteira oeste do Paquistão, ele pode não estar pronto o suficiente para parar o Lashkar-e-Taiba e outros grupos com base no Paquistão, especializados em ataques anti-indianos.

Shashi Tharoor, logo após sua vitória nas eleições, mas antes de ser nomeado como ministro secundário do Exterior, disse que a Índia precisava não se preocupar com a relação entre EUA e Paquistão, mas reconhecer que há interesses compartilhados na região.

Isso explica, de acordo com Tharoor, que o que ele chama de contenção da Índia diante o Paquistão, posterior aos ataques terroristas em Mumbai. A Índia está mostrando um comedimento para facilitar a guerra americana e, em retorno, os EUA poderiam ajudar a garantir que a Índia não tivesse uma guerra para lutar.

Kapil Sibal, ministro da Educação do novo governo e um dos membros mais visíveis do gabinete, colocou isso mais diretamente. Ele disse que não estar preocupado com a relação entre os EUA e o Paquistão, nem com a pressão americana sobre a Índia. Ele disse que estava confiante da importância crescente da Índia no mundo, incluindo para Washington, por causa de sua economia próspera.

No aumento do poder, o Paquistão não está em nenhum lugar, disse Sibal. A história da Índia é seguir adiante e ser uma das grandes potências do mundo. É o destino. E não pode ser mudado.

Por LYDIA POLGREEN e SOMINI SENGUPTA


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