Enclave capitalista da Coreia do Norte parece imune à crise

Complexo industrial de Kaesong resiste à tensão diplomática entre as Coreias

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Todos os dias, centenas de gerentes e engenheiros sul-coreanos se reúnem em um terminal de ônibus feito de aço e vidro para percorrer um trajeto inusitado, através de campos minados e armadilhas para tanques da zona desmilitarizada até um parque industrial que fica do outro lado da fronteira, na Coreia do Norte.

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Pessoas esperam para cruzar a fronteira entre as Coreias em posto alfandegário de Dorasan, na Coreia do Sul

E enquanto as tensões na península coreana estão em seu ponto mais alto em anos, por causa do naufrágio de um navio de guerra da Coreia do Sul, o Norte continua a permitir que os sulistas entrem no parque, o Complexo Industrial de Kaesong, onde 121 empresas - a maioria sul-coreana - empregam 44 mil trabalhadores norte-coreanos.

Em um momento no qual as Coreias trocam ameaças de confronto militar e cortam a maioria dos laços econômicos e diplomáticos, o complexo de Kaesong mantém-se uma exceção notável.

O complexo, o maior vínculo econômico criado durante um relaxamento das tensões entre as duas Coreias há quase uma década, continuou a funcionar mesmo após o naufrágio do navio de guerra, o Cheonan, em março e o encerramento recente de outros projetos conjuntos.

Até agora, as duas Coreias parecem relutantes em interferir muito com o parque industrial, mesmo que não mostrem nenhum escrúpulo em outros lugares.

O Sul está pedindo ao Conselho de Segurança da ONU que repreenda o Norte pelo naufrágio, que atribui a um torpedo norte-coreano. A Coreia do Norte nega veementemente a acusação e prometeu retaliar se houver novas sanções.

Os especialistas políticos dizem que o parque permanece aberto por enquanto porque nenhum lado acredita que pode se dar ao luxo de fechá-lo.

Para o isolado Norte, ele é uma fonte de empregos e verba desesperadamente necessários, injetando US$ 50 milhões por mês na difícil economia do país.

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Veículos passam por posto de controle na fronteira em Dorasan, Coreia do Sul
Observadores dizem também que a região é um dos poucos sucessos econômicos que o governo da Coreia do Norte tem para mostrar a seu povo.

Para a economia vibrante do sul, os US$ 250 milhões que o parque gera anualmente representam apenas uma gota. Kaesong tem um significado mais emocional, como um símbolo de que as duas Coreias podem um dia se reunificar pacificamente.

Especialistas e dirigentes de empresas com negócios no Norte dizem que o crescimento econômico da China também torna o parque importante para as duas Coreias.

Empresas sul-coreanas esperam que a Coreia do Norte se torne uma fonte de mão de obra barata para ajudá-los a competir com a máquina de exportação chinesa, enquanto o Norte parece preocupado com a sua excessiva dependência econômica em relação à China.

O Sul reduziu o número de sul-coreanos que podem viver no complexo para cerca de 500 pessoas agora.

O Norte tem ameaçado fechar o parque, mais recentemente dizendo que iria fazê-lo se o Sul retomasse as transmissões de propagandas de cunho político por alto-falantes em toda a zona desmilitarizada.

Retomar as transmissões ao estilo Guerra Fria é uma das formas pelas quais o Sul prometeu retaliar o naufrágio do Cheonan.

Ainda que discernir as intenções da Coreia do Norte seja sempre um desafio, os funcionários sul-coreanos dizem que o país já deixou claro que pretende manter o complexo aberto.

Por Martin Fackler

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