Enchentes fazem de Bangcoc uma cidade de desabrigados

Três semanas após enchentes invadirem capital tailandesa, moradores se dizem resignados a passar semanas em abrigos temporários

The New York Times |

Em um Aeroporto Don Muang devastado pela inundação, crianças brincam com carrinhos de bagagem, enquanto seus pais penduram roupa lavada acima dos balcões de check in. Placas indicam o locam de "Partida", mas as famílias acampadas no aeroporto não devem deixar o local tão cedo.

Três semanas após enchentes invadirem a capital da Tailândia, a água suja persiste em amplas áreas do norte de Bangcoc, uma catástrofe lenta sem nenhum sinal de resolução. Moradores de uma capital inundada dizem que estão resignados a passar semanas em abrigos temporários antes que possam voltar para casa.

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Roupas secam em varal improvisado no Aeroporto Don Mueang em Bangcoc, na Tailândia (26/10)

"Perdi a capacidade de ter raiva", disse Orn Perdpring, 49, dono de uma lavanderia operada por moedas que passou quase um mês dormindo em uma barraca perto dos balcões de check in das companhias aéreas no Don Muang – que literalmente significa "cidade em terrenos altos" – o menor dos dois aeroportos da capital tailandesa. "A raiva vai apenas me deixar mais estressado”.

Os distritos centrais de negócios de Bangcoc permanecem secos,e o principal aeroporto internacional, Suvarnabhumi, que é protegido por um dique de cerca de 12 metros de altura, está funcionando normalmente.

Anond Snidvongs, um especialista em enchentes que assessora o governo da Tailândia, disse que bombas, sacos de areia e diques estão impedindo a entrada da água no interior de Bangcoc. Mas as barreiras tiveram o efeito perverso de prolongar a crise. "A água não sabe para onde ir", disse Anond.

Além de Bangcoc, um quarto das 76 províncias da Tailândia ainda estão sendo afetadas pelas inundações. O número de mortos das mais de três meses de enchentes passa de 500.

A colocação de sacos de areia e diques continua a gerar tensões em Bangcoc, com pessoas em áreas inundadas reclamando que foram sacrificadas para manter as partes mais ricas da capital secas. Mas a água em si não tem discriminado entre os poderosos e os pobres.

Na terça-feira, a imprensa tailandesa informou que a água estava borbulhando dos esgotos em frente da residência privada da primeira-ministra Yingluck Shinawatra. Seu escritório temporário está cercado pelas enchentes.

A inundação parece ter custado muito a Yingluck, que subiu ao poder em agosto, no momento em que o alagamento se tornava particularmente grave no norte do país. Ela chegou perto das lágrimas durante aparições públicas recentes. Na terça-feira, ela anunciou o cancelamento de planos para participar de uma cúpula de líderes da Ásia-Pacífico no Havaí neste fim de semana.

De certa forma, a Tailândia está trabalhando com metade da sua velocidade normal. As inundações fecharam mais de mil fábricas e o governo anunciou na terça-feira que a reabertura das escolas públicas seria adiada por uma semana, para o dia 21 de novembro. As lojas de Bangcoc ainda estão sem suprimentos, incluindo água potável.

As cheias têm nocauteado a produção de grandes fornecedores de água engarrafada do país, incluindo Singha, Chang e Nestlé.

"Estamos tentando recuperar nossa fábrica", disse Bongkod Paebunyong, um porta-voz da Nestlé, que produz duas populares marcas de água potável, incluindo a água mineral mais vendida do país, a Minere. Nesse intervalo, a empresa tem importado água engarrafada de suas representantes no exterior.

Para as dezenas de milhares de moradores de Bangcoc que têm procurado resistir em casas inundadas, conseguir suprimentos tem envolvido viagens em barcos ou caminhões militares.

Uma mulher em um subúrbio de Bangcoc ligou para um programa de televisão para apelar por leite em pó para seu bebê. A equipe de reportagem viajou nove horas por estradas inundadas para entregar o pó para a mulher, que chorou de gratidão.

O governo diz que 2,9 milhão de pessoas foram afetadas pelas enchentes em um país de 65 milhões.

AP
Mulher passa por área inundada com seus cachoros em Bangcoc, na Tailândia (10/11)

Os refugiados da inundação no Aeroporto Don Muang, que está cercado por água até a altura do pescoço, dizem ter um fornecimento adequado, em grande parte graças a doações particulares. A comida é entregue várias vezes ao dia e um médico realiza visitas duas vezes por semana e distribui medicamentos aos doentes. Mas o ar-condicionado não funciona, não há água corrente e os mosquitos invadiram o local.

Duas semanas atrás, quando o sistema elétrico do aeroporto foi inundado e a energia cortada, as autoridades tentaram forçar os refugiados a deixar o local. Milhares foram levados para outros abrigos, mas centenas se recusaram a partir.

Entre aqueles acampados ali na terça-feira estava um americano aposentado, Willis Webster, e sua esposa tailandesa, Amornrat.

"Decidimos resistir aqui", disse Webster, 65, que dorme ao lado da escada rolante. O casal chegou no dia 31 de outubro e espera as águas baixarem para que possam retornar ao seu apartamento nas proximidades. Webster disse que mediu o nível da água olhando para uma rua onde um táxi amarelo estava preso na enchente. “Ele ainda está totalmente submerso", disse ele.

Um visitante frequente da Tailândia antes de se aposentar no país, Webster disse estar muito familiarizado com o aeroporto. "Mas nunca pensei que iria passar uma semana aqui", disse ele.

Por Thomas Fuller

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