Enchentes alimentam disputa de classe no Paquistão

Desastre ambiental para alguns, chuvas beneficiaram pescadores cujos meios de subsistência haviam diminuído por causa da seca

The New York Times |

Apesar de as águas terem enchido suas casas e forçado-os a acampar em aterros, membros de uma comunidade paquistanesa estão satisfeitos com as piores enchentes na história do seu país. Eles são os pescadores do delta do rio Indo, cujos meios de subsistência haviam diminuído ao longo dos anos por causa da seca e que agradecem a abundância repentina.

"É uma bênção", disse Ali Yar Mallah, 21 anos, que vem de uma longa linhagem de pescadores que vivem no delta, no extremo sul do Paquistão. "Com a chegada da água potável, nossa vida vai melhorar, os peixes virão", ele disse.

Ainda assim, mesmo que os pescadores tenham se alegrado com as águas das enchentes, outras figuras mais poderosas estão pedindo mais barragens e projetos de irrigação para conter o fluxo da água e evitar esse tipo de destruição em larga escala no futuro.

A "superenchente" reabriu disputas de longa data sobre a gestão da água ao longo do rio Indo, que percorre toda a extensão do Paquistão, e muitas das vítimas mais pobres temem que voltarão a ser ignoradas em favor dos interesses dos ricos e poderosos.

O governo do Paquistão terá de lidar não apenas com as necessidades de milhões de pessoas que de repente perderam casas, plantações e meios de subsistência, mas também com a repercussão política explosiva a respeito da distribuição de água e como gastar a ajuda recebida para a reconstrução de forma justa.

Os danos causados ao delta do Indo por quase 100 anos de irrigação extensiva – talvez a maior do mundo – estão bem documentados. O projeto fez do Paquistão um exportador de alimentos e algodão e ajudou a enriquecer os proprietários de terras que cercam o rio. Mas tanta água é utilizada que o Indo, um dos maiores rios da Ásia, chega quase seco ao delta, onde desagua no Mar Arábico.

A falta de água do rio permitiu que a água do mar inundasse cerca de 2 milhões de hectares do delta, destruindo arrozais antes férteis e matando os mangues costeiros, que são o terreno natural para peixes, dizem os líderes do Fórum de Pescadores do Paquistão, uma organização não-governamental que trabalha para apoiar os direitos das comunidades de pescadores.

Os pescadores estão preocupados com uma melhor regulação do rio, que permitiria o ciclo natural de cheias para a reconstituição do delta. "A solução definitiva é a descida contínua da água do Indo para que desague no mar", disse Mallah, o pescador que saudou as enchentes.

No entanto, os pescadores têm fortes concorrentes pela água, que dizem que as enchentes mostram que o Paquistão deve construir mais barragens para recolher as chuvas de monção e produzir a eletricidade muito necessária ao país.

*Por Carlotta Gall

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