Empreendedores do Egito olham para além da revolução

Jovens com nível de educação acima da média buscam impulsionar criação de empregos em setores relativamente novos, como a internet

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Como tantos outros jovens do Cairo, Yasmine el-Mehairy não via futuro no Egito. O que ela via era um beco sem saída. Até ocorrerem os episódios na Praça Tahrir.

Seis meses depois que uma revolta liderada por pessoas como ela derrubou Hosni Mubarak e a ordem estabelecida do mundo árabe, El-Mehairy aderiu às fileiras da mais nova classe de negócios do país: os empreendedores da revolução. Em vez de deixar o Egito como ela havia planejado, ela resolveu ficar para criar um projeto chamado SuperMama, site em língua árabe para mulheres que já conta com 10 funcionários.

"A revolução realmente fez a minha geração acreditar em si mesma", disse El-Mehairy, 30 anos. Se os egípcios podem derrubar Mubarak, ela questiona, o que mais poderiam fazer?

Essa é uma questão preocupante para os muitos egípcios educados como El-Mehairy - pessoas que, ao contrário da maioria dos habitantes do país, têm outras opções. Ela possui um mestrado em mídia interativa pela Universidade de Westminster, de Londres, e planejava morar na Inglaterra ou no Canadá.

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Yamine el-Mehairy (E) e Zeinab Samir foram as idealizadoras do projeto SuperMama, cujo público são mulheres no Egito
A revolta agora conhecida como a Primavera Árabe colocou o Egito em um curso incerto. Depois de anos de corrupção, sua economia está em ruínas. O turismo e os investimentos caíram. O desemprego em massa - que alimenta a raiva dos egípcios - piorou e os protestos na Praça Tahrir continuam. A nação elegerá um novo governo em setembro e ninguém sabe o que vai acontecer depois disso.

No entanto, apesar de todas as incertezas, alguns dos que abraçaram o Facebook e o Twitter durante os dias de glória na Praça Tahrir estão agora ocupados tentando iniciar ou dar continuidade ao trabalho em sites e aplicativos da web que esperam usar para gerar lucros e empregos.

"Essa é uma revolução incomum pois foi liderada por um grupo de pessoas muito educado e economicamente saudável em busca de um futuro melhor para as pessoas", diz Khush Choksy, diretor executivo do Conselho Comercial Egito-Estados Unidos, que faz parte da Câmara de Comércio americana. “Mas para garantir aquilo pelo que lutaram na Praça Tahrir é necessário que haja crescimento econômico, um pensamento e uma economia mais diversificada".

El-Mehairy quer aproveitar o momento. Ela e Zeinab Samir, a cofundadora da SuperMama, estão agindo para isso.

Programa

Em junho, a dupla se inscreveu no NextGen TI Boot Camp, que aconteceu no Cairo. O encontro foi patrocinado pelo Programa Global de Empreendedorismo, uma colaboração entre o Departamento de Estado e a Agência dos EUA de Desenvolvimento Internacional.

Durante o programa de cinco dias, que também foi patrocinado pelos governos da Dinamarca e do Egito, seis empresários americanos - incluindo Jeff Hoffman, cofundadora da Priceline.com, Ryan Allis, chefe-executivo do site de iContact; Shama Kabani, diretora do Marketing Zen; e Scott Gerber, fundador do Conselho do Jovem Empreendedor - ajudaram 38 empresários egípcios a aprimorar seus planos de negócios. No último dia, quatro equipes vencedoras foram escolhidas. Duas vão para a Carolina do Norte para um estágio de três semanas no iContact, e duas outras participarão de um programa de treinamento de três meses na Dinamarca, como El-Mehairy e Samir.

A maioria dos empresários no programa é bem educada, têm emprego e pertence a famílias de classe média e classe média alta. Mas eles ainda enfrentam muitas incertezas. "Todo mundo está preocupado com o que vai acontecer a seguir", disse Marwan Roushdy, 20 anos, um estudante da Universidade Americana do Cairo que está desenvolvendo um aplicativo chamado Inkezny para localizar hospitais em qualquer lugar do mundo. O nome remete à palavra que significa "resgate" em árabe.

Apesar da situação política, Roushdy, que participou do boot camp e ganhou um estágio na iContact, está trabalhando em seu aplicativo. Ele está tentando não pensar nas preocupações sobre o futuro e se concentrar em seu negócio. Afinal, o que mais ele pode fazer?

"Parte de ser um empreendedor é ser otimista", diz Steven R. Koltai, consultor sênior para o Empreendedorismo Global do Departamento de Estado, que visitou o Egito uma dúzia de vezes no último ano. "Os empresários são como a erva daninha que cresce na cidade: eles precisam crescer através das rachaduras na calçada".

Burocracia

Ainda assim, esses jovens empresários eventualmente terão de navegar pelos obstáculos burocráticos de registrar sua empresa com o governo egípcio, um passo notoriamente difícil que El-Mehairy diz que não tomar até que um parceiro de negócios ou cliente insista. "A papelada é um pesadelo", disse ela. "Antes da revolução, você precisava de suborno para obter a sua documentação".

No entanto, El-Mehairy ouviu algumas histórias encorajadoras. "Meu amigo terminou o registro de sua empresa em um dia e meio porque a pessoa que realizou o processo está alimentada com os ‘valores da revolução’, como dizemos”, ela lembrou.

Mohamed Rafea, 30 anos, e seu primo Ali Rafea, 23 anos, também são otimistas. Eles, juntamente com outros três jovens parentes cofundaram o Bey2ollak, aplicativo que permite que os usuários alertem uns aos outros sobre rotas de tráfego congestionadas. "Temos sorte de não precisarmos do apoio de nada, exceto uma boa potência, ao contrário de bens manufaturados ou da abertura de uma loja. Esses tipos de empresas precisam do apoio do governo", explicou Ali Rafea.

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Marwa Elnasher conversa sobre seu software com americanos e dinamarqueses durante o encontro NextGen TI Boot Camp, no Cairo (28/6)
Em uma cidade onde o tráfego médio é de duas horas em cada sentido, seu aplicativo encontrou uma audiência instantânea. Neste mês, ele tinha mais de 50 mil assinantes e um marketing estratégico de parceria com a Vodafone, uma das maiores operadoras de telefonia móvel no Egito.

Como muitos, Mohammed e Ali Rafea, que venceram um dos estágios na iContact, estão tentando resolver alguns dos problemas do Egito através da tecnologia - e esperam lucrar com isso. Depois da revolução, eles disseram, os egípcios passaram a usar o Bey2ollak para obter informações sobre segurança das estradas. "Nós adicionamos um novo status para dizer que uma rua está em uma zona de perigo onde há protestos e bandidos", disse Mohamed Rafea.

Roushdy está tentando resolver um outro problema com o seu aplicativo: denunciar serviços médicos não confiáveis. "No Egito, mesmo se você discar o número 123 de emergência, nem sempre é garantia de que uma ambulância virá", explicou Roushdy. "Então eu pensei que um aplicativo que mostrasse o hospital mais próximo e seu telefone seria um serviço útil".

Movimento

Para alguns dos seis empresários americanos que visitaram o Cairo, em junho, foi uma surpresa que houvesse uma comunidade tão vibrante de empreendedorismo no Egito. "Lendo os jornais e vendo as notícias não era possível perceber que havia uma cultura de empreendedorismo aqui", disse Kevin Langley, que fez parte da delegação americana e é presidente mundial da Organização dos Empreendedores, uma rede de donos de empresas.

O objetivo do Programa Global de Empreendedorismo é pragmático, explicou Koltai, que teve a ideia. "A questão principal é a criação de empregos", disse ele. "O trabalho é a base mais importante da sociedade civil e do crescimento econômico, e isso é verdade se você está em Ohio ou no Egito. O maior motor da geração de empregos é o empreendedorismo".

O Egito certamente não desconhece a relação entre distúrbios civis e desemprego. O desemprego entre os jovens, que ainda paira em dois dígitos, mas é um problema maior para aqueles sem um diploma universitário, foi uma das forças subjacentes que levaram à revolução.

Para alguns dos empreendedores já existem algumas histórias de sucesso. Em janeiro, através de uma delegação organizada pelo Programa Global de Empreendedorismo, um grupo de investidores e empresários americanos viajou ao Cairo para se reunir com empresários egípcios. Durante essa visita, organizações como a Câmara de Comércio, a Universidade Americana no Cairo e a Sawari Ventures, uma empresa de investimento com sede no Cairo, sediaram uma competição empresarial que premiou duas empresas com US$ 20 mil. Um dos vencedores foi o site Kngine, um motor de busca iniciado por dois irmãos, Ashraf el-Fadeel, 30 anos, e Haytham el-Fadeel, 23 anos.

A competição ajudou a convencer Ahmed el-Alfi, o fundador da Ventures Sawari, a bancar o Kngine. Ele fez contato com os fundadores do Twitter. "Ter oito pessoas de fora analisando a empresa, e o fato de que ganharam, ajudou na minha decisão", disse Alfi. O site Kngine agora tem 12 funcionários. A empresa recentemente se encontrou com investidores do Vale do Silício.

Cenário

Para os investidores, há certamente necessidade de se olhar para essa nova safra de empresas: há uma oportunidade de entrar em um mercado de internet iniciante e muito menos saturada, porque apenas um terço dos egípcios utilizam a internet em casa, de acordo com o Ministério da Informação e Tecnologia. Em outras palavras, esses jovens empreendedores têm a vantagem de atuar em um cenário que na maioria dos países já está lotado.

Vendo o potencial do Egito, El-Alfi deixou o sul da Califórnia em 2006 e se mudou para o Cairo. "A maioria dos meus amigos questionou a minha sanidade mental por fazer essa mudança", disse El-Alfi. "Mas eu estava muito animado com o que vi”.

No site SuperMama, El-Mehairy e Samir, 29 anos, financiaram sua joint venture com poupanças pessoais e estão se posicionando para ser um dos primeiros sites de língua árabe focado nas mães. O site, além de um aplicativo para smartphone, será lançado em setembro e oferecerá informações sobre cuidados infantis, gravidez, nutrição, culinária e saúde. Elas esperam capitalizar devido ao fato de as mulheres constituírem quase metade dos usuários de internet no Egito.

Aqueles nas trincheiras empresariais são certamente consciente dos desafios de se estar na vanguarda de um movimento. Nem mesmo o léxico tem acompanhado os tempos. "Nós fomos a um campo de treinamento e eles nos chamavam de ‘homens de negócios’. Nós não somos empresários, somos empreendedores", disse El-Mehairy.

A esperança é que com um pouco de dinheiro e muito trabalho o Egito possa alavancar sua enorme população de jovens - mais da metade da população tem menos de 29 anos - com um forte talento técnico. Os baixos custos para se estabelecer uma empresa de internet podem transformar o Egito em um polo empreendedor na região.

Pelo menos esse é o sonho. Mas Allis, o cofundador do iContact e investidor em empresas de tecnologia do leste da África, disse ser encorajador o que se vê no Cairo. "Esses empresários estão pensando grande e no mundo, e eles estão criando aplicativos para a web que você poderia ver em Dumbo ou Palo Alto", disse ele a regiões do Brooklyn, em Nova York. "Eles estão construindo empresas e produtos que podem ser muito influentes. Eu investiria US$ 30 mil, US$ 40 mil ou US$ 50 mil nesses jovens empreendedores”.

E, na verdade, é exatamente isso que ele vai fazer. No final do boot camp, os seis empresários americanos e um membro da delegação dinamarquesa decidiram criar um fundo de US$ 125 mil de seu próprio dinheiro para investir em empresas de tecnologia egípcias. Como Gerber, um dos delegados americanos, colocou: "Ficamos muito impressionados com a visão de negócios que encontramos no Egito."

*Por Hannah Seligson

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