Embargo da UE força Síria a procurar novos clientes para petróleo

Após proibição da União Europeia, governo de Assad tenta achar compradores para produto que é fonte vital de recursos para o país

The New York Times |

Por causa de um embargo da União Europeia , a Síria está em busca de novos compradores estrangeiros para o seu petróleo, uma fonte vital de recursos para Damasco.

Os efeitos do embargo do petróleo apenas começavam a atingir a Síria quando o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) renovou, na terça-feira, seus esforços para criar uma resolução que condene a repressão de manifestantes pró-democracia no país, embora a oposição russa a eventuais sanções do Conselho de Segurança provavelmente impeça essa medida.

AP
Mulheres passam ao lado de foto do presidente sírio, Bashar Al-Assad, em Damasco (25/09)

Mesmo sem sanções internacionais da ONU, a Europa e os Estados Unidos impuseram suas próprias sanções.

A Síria normalmente exporta cerca de 100 mil barris diários de petróleo cru, mas a renda do petróleo se tornou mais importante para uma economia abalada por meses de instabilidade política. Quase todas as exportações eram feitas para a Europa até a União Europeia impor sanções este mês, privando o regime do presidente Bashar Al-Assad de um quarto de seu faturamento em moeda estrangeira.

O ultimo cargueiro contendo petróleo a deixar um porto sírio partiu na sexta-feira e potenciais clientes não conseguiram financiar as compras de petróleo bruto da Síria até agora por causa das sanções, disse Andrew Lipow, da presidente da Lipow Oil Associates, uma empresa de consultoria de Houston.

Com a desaceleração da economia mundial e com a Líbia prestes a retomar sua própria exportação de petróleo no próximo mês, os suprimentos do mercado mundial se tornaram mais abundantes nas últimas semanas. Por isso, não há grande urgência para um comprador da Ásia em fazer negócios com a Síria, afirmam especialistas do setor.

A Síria pediu que as companhias petrolíferas estrangeiras que operam no país reduzam a produção porque o petróleo cru em excesso pode exceder a capacidade de armazenamento. Algumas dessas empresas já pararam suas operações na Síria de qualquer maneira, a fim de cumprir as sanções.

Mas especialistas dizem que é apenas uma questão de tempo antes que os sírios sejam capazes de vender pelo menos parte do seu petróleo, embora possam ter de vender com desconto.

"É quase certo que alguém vai comprar o estoque sírio", disse Michael C. Lynch, presidente da Strategic Energy and Economic Research, uma empresa de consultoria. "No passado houve empresas comerciais que levaram petróleo pelo Iraque ou pelo Irã, por exemplo. Alguns países vão comprar gasolina de refinarias caribenhas sem saber a origem do petróleo."

Ayham Kamel, um analista do Oriente Médio no Eurasia Group, outra empresa de consultoria, disse que uma companhia de petróleo indiana já havia sido contatado pelos sírios e estava pensando em fazer a compras.

A capacidade da Síria de vender seu petróleo pode depender da pressão feita pelos Estados Unidos e por países asiáticos para que a Europa abstenha-se da compra.

Também pode depender da força dos protestos na Síria, já que os compradores asiáticos podem não querer parecer apoiadores do governo Assad, especialmente depois que as vitoriosas forças rebeldes na Líbia disseram que vão favorecer os países que os apoiaram e não ao governo Kadafi durante a revolta.

Entre as companhias de petróleo estrangeiras que operam na Síria estão: Shell, da Holanda, Oil and Natural Gas Corp, da Índia, Total, da França, e China National Petroleum Corp Bill Tanner, da China. Um porta-voz da Shell disse que a empresa parou a produção na Síria e não forneceu "qualquer produto refinado para o governo sírio”.

Antes do embargo do petróleo, a Síria vendia quase dois terços de suas exportações para Itália e Alemanha, e quase todo o resto para França, Holanda, Áustria, Espanha e Turquia. O transporte para a Ásia custaria ao país pelo menos US$ 3 a mais por barril em custos de transporte.

Na ONU, quatro membros europeus do Conselho de Segurança – Reino Unido, França, Alemanha e Portugal – negociaram um projeto de resolução sobre a Síria, tentando testar os limites do que a Rússia iria aceitar, segundo diplomatas.

Até agora, o Conselho de Segurança conseguiu emitir apenas duas declarações sobre a revolta na Síria, aquém do apoio necessário para uma resolução completa, seu instrumento mais forte. A decisão de tentar novamente surgiu em uma reunião na última sexta-feira entre os ministros do Exterior dos cinco membros permanentes.

"Política e moralmente seria um progresso, porque não podemos aceitar o silêncio do Conselho de Segurança quando vemos a violência e a repressão na Síria", disse Alain Juppé, o ministro francês das Relações Exteriores.

Em seu discurso às Nações Unidas na segunda-feira, o ministro sírio do Exterior, Walid Moualem, disse que o governo estava à beira da introdução de reformas quando uma rebelião inspirada por radicais estrangeiros forçou a Síria a deixar de lado a mudança para manter o país unido. Ele alertou que as sanções internacionais prejudicariam a vida cotidiana dos sírios comuns.

Rússia e China, bem como outras potências emergentes atualmente no Conselho de Segurança – Índia, Brasil e África do Sul – ficaram consternadas quando a rigorosa resolução aprovada contra a Líbia em março foi usada como justificativa para a campanha de bombardeios da Otan. Eles parecem determinados a não permitir que isso aconteça novamente.

Sergey Lavrov, o ministro russo das Relações Exteriores, defendeu a Síria em seu discurso de terça-feira perante a ONU, convidando a oposição a trabalhar com o governo de Assad.

"É inadmissível boicotar propostas sobre um diálogo nacional, despertar o confronto e provocar a violência, negligenciando as reformas tardias, mas alcançáveis, propostas pelo presidente Bashar Al-Assad”, afirmou Lavrov.

Ele acrescentou: "É importante incentivar as autoridades e a oposição a iniciarem as negociações e chegarem a um acordo sobre o futuro do seu país."

Por Clifford Krauss e Neil Macfarquhar

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