Embalagens de heroína viram arte em Nova York

Exposição que será inaugurada nesta quarta-feira reúne pacotes da droga recolhidos pelos curadores em toda a cidade

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Imagem mostra embalagem de heroína que estará na exposição
As embalagens vazias podem ser encontradas em Manhattan, Brooklyn e em outros bairros de Nova York, espalhadas pelas ruas e calçadas exibindo apenas slogans obscuros ou imagens gráficas que sugerem sua função anterior. Elas continham heroína e os símbolos carimbados na parte externa foram criados para diferenciar diferentes purezas ou origens.

Para algumas pessoas elas são a prova de um crime. Os viciados podem vê-las principalmente como um veículo para saciar um desejo perigoso. Para um grupo de artistas que têm colecionado as embalagens, elas são artefatos culturais ao mesmo tempo inquietantes e atraentes.

Nesta quarta-feira será inaugurada na Galeria Box White a mostra "Heroin Stamp Project" (Projeto Carimbo Heroína, em tradução livre), organizada por sete membros do Coletivo Social Art. A exposição, que irá incluir 150 embalagens encontradas nas ruas de Nova York, assim como 12 impressões em formatos maiores feitas de imagens delas, busca analisar a combinação entre publicidade e dependência e provocar questionamentos sobre como a sociedade trata a dependência.

As origens da exposição remontam a 2001, quando Pedro Mateu-Gelabert, um sociólogo pesquisando a relação entre HIV e uso de drogas se deparou pela primeira vez com as embalagens em um prédio vazio no Brooklyn, onde viciados faziam uso livre da heroína. Ele ficou imediatamente impressionado com o fato de que as imagens nos envelopes serviam como uma espécie de publicidade, conta.

"Este é o marketing da heroína", disse ele em uma noite recente em uma esquina do bairro. "Mesmo algo tão proibido, tão demonizado, pode ter uma marca comercial".

Ele começou a recolher e colecionar as embalagens e há cerca de seis anos mostrou-as a sua amiga Liza Vadnai, que ficou mesmerizada com sua combinação de ameaça e beleza frágil. Formando um grupo de outros interessados na arte, eles continuaram a recolher as embalagens com o objetivo de organizar uma exposição.

Vadnai, que aconselhava usuários de drogas em São Francisco antes de se mudar para Nova York, queria equilibrar a apresentação das embalagens como objetos de arte com alguma conscientização da devastação causada pelo pó que antes continham.

"Eu sentia que a mensagem de saúde pública tinha de ser muito clara", ela disse, enquanto caminhava com Mateu-Gelabert ao longo de um trecho da Rua Troutman, onde os artistas regularmente procuram por sua matéria-prima. "Eu não sabia como exibir as embalagens sem que houvesse uma sensação de exploração".

Pouco mais de 1.800 embalagens sem carimbos - quantidade que um usuário pesado de heroína pode consumir em um ano - serão expostas em fileiras em uma parede, em um esforço para tornar a ideia do vício menos abstrata. As embalagens são vendidas por cerca de US$ 10, Vadnai disse, e contêm em média 30 miligramas de heroína.

Cartões contendo informações sobre os riscos do uso de drogas injetáveis também serão distribuídos na exposição.

Além disso, Vadnai, Mateu-Gelabert e seus colaboradores decidiram dar parte do lucro da exposição para o Centro de Redução de Danos do East Side, uma organização de consultoria e troca de seringas perto da galeria. Os membros do coletivo disseram que essa organização tem mais impacto do que os grupos que simplesmente pedem que os usuários abandonem a droga.

Usuários de heroína doaram algumas das embalagens da exposição. Membros do Coletivo Social Art encontraram outras perto de pontos de distribuição de drogas e nas áreas onde viciados se reúnem. Os artistas encontraram embalagens nas ruas de Bushwick e Mott Haven, no Bronx, e nas ruas mais valorizadas de Williamsburg, no Brooklyn. Eles pegaram as embalagens junto às moradias imponentes que cercam o Parque Gramercy, e dentro da Praça Tompkins, onde o comércio da heroína floresceu na década de 1980 e 1990 e ainda existe hoje.

Os selos que identificam a heroína dentro da embalagem recorrem a uma vasta gama de referências. Há nomes como White Fang (Canino Branco), Time Bomb (Bomba Relógio) e Monster Power (Monstro Poder), que é decorada com uma imagem do Anjo da Morte com uma foice. Há alusões à religião (Deadly Sin, ou Pecado Mortal, e Last Temptation, ou Última Tentação), crime (Notorious, ou Notório, e Outlaw, ou Fora-da-Lei) e jornalismo (Life, em letras maiúsculas brancas sobre um fundo vermelho em referência à revista, e Daily News, juntamente com o antigo logotipo usado pelo tablóide). Existe também um pacote carimbado com as palavras "Tango and Cash" (Tango e Dinheiro), nome ligado a uma marca de heroína com fentanil que causou 12 overdoses fatais em um fim de semana em 1991.

Várias marcas de heroína parecem residir no delicado equilíbrio de mortalidade que acompanha a sua utilização. Estas incluem Last Shot (Último Tiro), Game Over (Fim do Jogo), No Exit (Sem Saída) e No Pain (Sem Dor), que é ilustrada com um caixão e uma cruz.

"Muitos delas são metáforas", disse Vadnai. "Elas querem dizer que a heroína é tão forte, tão boa, que poderia matá-lo". Mateu-Gelabert concordou, dizendo que tais nomes e imagens "brincam com a ideia da tênue separação entre vida e morte".

Enquanto colecionavam as embalagens, os organizadores também realizavam uma forma de pesquisa etnográfica, falando com revendedores, usuários e corredores, que atuam como intermediários na venda da droga. Ashley Jordan, membro do coletivo, entrevistou um homem que projetou e fez carimbos de borracha que foram utilizados para colocar imagens nas embalagens.

Essas imagens podem não ter direitos autorais, mas os criadores ainda têm sentimentos de propriedade sobre elas. No início deste ano, disse Mateu-Gelabert, um negociante de heroína em Bushwick ficou perturbado ao ver que outro havia aparecido em seu território e copiado a sua marca, Too Strong (Forte Demais). O traficante começou a distribuir uma nova marca, chamada Shooters (Atiradores) - uma das que estão em exposição - com uma imagem de dois revólveres face a face.

"Na verdade se tratava de enviar uma mensagem ao outro traficante que chegou na vizinhança", Mateu-Gelabert afirmou. "Era para transmitir a mensagem de que se ele continuasse a brincar naquele território iria enfrentar as armas".

Por Colin Moynihan

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