Em vidas comuns, EUA veem o trabalho de agentes russos

Para vizinhos, presos eram a "personificação do subúrbio"; adolescente duvida que mulher era espiã por cuidar bem de hortênsias

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Vizinhos são vistos do lado de fora da casa dos supostos agentes da Rùssia Richard e Cynthia Murphy em Montclair, New Jersey
Eles viveram em cidades e subúrbios americanos, de Seattle a Nova York, por mais de uma década, onde pareciam ser casais comuns trabalhando em empregos comuns, conversando com os vizinhos sobre as escolas locais e pedindo desculpas pelo barulho feito pelos adolescentes. 

Na segunda-feira, no entanto, procuradores federais acusaram 11 pessoas de fazer parte de uma cadeia de espionagem russa , vivendo com nomes falsos e escondidos em um esquema armado com paciência para penetrar o que uma mensagem codificada chamou de "círculos de decisão política".

Uma investigação do FBI, que começou há anos culminou com a detenção de 10 pessoas em Yonkers, Boston e norte da Virgínia no domingo. Nesta segunda-feira, o 11º suspeito foi preso no Chipre .

Documentos detalharam o que as autoridades chamaram de "Programa de Ilegais", um esforço ambicioso e em longo prazo estabelecido pela SVR , agência sucessora da KGB soviética, para posicionar espiões russos nos EUA para recolher informações e recrutar mais agentes.

Os supostos agentes foram orientados a recolher informações sobre armas nucleares, a política americana em relação ao Irã, a liderança da CIA, a política do Congresso e muitos outros temas, de acordo com os procuradores. Os espiões russos fizeram contato com uma ex-autoridade de alto escalão americano e um pesquisador de armas nucleares, entre outros.

Depois de anos de vigilância do FBI, os investigadores decidiram fazer as prisões na semana passada, logo após uma visita otimista do presidente russo , Dmitri Medvedev, ao presidente Barack Obama, disse uma autoridade do governo. Obama não ficou feliz com o momento escolhido, mas os investigadores temiam que alguns acusados pudessem fugir, disse.

As acusações apresentadas em tribunais distritais americanos na segunda-feira tinham semelhanças com romances antiquados sobre a Guerra Fria : espiões trocam bolsas laranjas idênticas ao se cruzar em escadarias da estações ferroviárias, identidade é roubada de canadense morto, passaportes falsos, mensagens enviadas por transmissão de ondas curtas ou em tinta invisível, recompensa em dinheiro enterrada durante anos em um terreno no norte de Nova York.

Mas a rede dos chamados ilegais - espiões que operam sob nomes falsos fora da cobertura diplomática comum - também utilizou a tecnologia da era cibernética, de acordo com as acusações. Eles incorporaram textos codificados em imagens aparentemente comuns publicadas na internet e se comunicavam através de dois agentes com laptops contendo um software especial que transmitiam mensagens entre si.

Vizinhos do casal de Montclair, Nova Jersey, que se chamavam Richard e Cynthia Murphy ficaram surpresos quando uma equipe de agentes do FBI apareceu na noite de domingo e levou o casal algemado. Uma pessoa que vive nas proximidades disse que eles eram a própria "personificação do subúrbio", dizendo que eles pediram conselhos às pessoas sobre as escolas locais. Outros ficaram mais preocupados com as filhas do casal Murphy, que foram levadas por um amigo da família.

Jessie Gugigi, de 15 anos, afirmou que não podia acreditar nas acusações, principalmente contra Cynthia Murphy, que era uma ótima jardineira. "Eles não podem ser espiões", Gugigi disse, brincando. "Olha como ela cuidava bem das hortênsias."

Especialistas em inteligência russa manifestaram espanto com a dimensão, longevidade e dedicação do programa. Eles notaram que Vladimir V. Putin , o primeiro-ministro russo e ex-presidente e chefe de espionagem do país, trabalhou para restaurar o prestígio e financiamento da espionagem russa e a imagem sombria da KGB depois do colapso da União Soviética.

"A magnitude e o fato de que muitos ilegais estiveram envolvidos foram um choque para mim", disse Oleg D. Kalugin, ex-general da KGB que trabalhou como espião soviético nos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 sob um disfarce "legal" como diplomata e correspondente da Rádio Moscou. "É um retorno aos velhos tempos, mas, mesmo nos piores anos da Guerra Fria, acho que não havia mais de dez ilegais nos Estados Unidos, talvez menos."

Kalugin, agora cidadão americano que vive em Washington, disse que ficou impressionado com a penetração do FBI na cadeia de espionagem. As acusações estão cheias de detalhes vívidos reunidos ao longo de anos de vigilância discreta - incluindo o monitoramento de telefones e emails, com a colocação de microfones secretos nas casas dos supostos agentes russos e realização de numerosas buscas clandestinas.

As autoridades também seguiram um grupo de agentes com base em Yonkers em viagens a um país sul-americano não identificado, onde foram filmados recebendo sacos de dinheiro e passando mensagens escritas com tinta invisível para manipuladores russos em um parque público, de acordo com as acusações.

Os promotores disseram que o "Programa de Ilegais" se espalha por outros países ao redor do mundo. Usando documentos falsos, segundo as acusações, os espiões "assumem identidades como cidadãos ou residentes legais dos países nos quais são implantados, incluindo os EUA".

''Os ilegais, muitas vezes, obtêm diplomas de universidades do país onde atuam, conseguem um emprego e juntam-se às associações profissionais relevantes" para dar credibilidade à sua identidade falsa.

Uma mensagem enviada pelos chefes de Moscou, em Inglês incipiente, deu conta da tarefa mais reveladora dos agentes. ''Você foi enviado aos EUA para uma viagem de serviço em longo prazo", dizia. "Sua educação, contas bancárias, carro, casa e etc. - tudo isto serve a um objetivo: cumprir sua missão principal, ou seja, buscar e desenvolver laços em círculos de decisão política e enviar relatórios de inteligência para a Central".

Não ficou claro o que continham os relatórios de inteligência, embora um agente tenha sido descrito como tendo realizado uma reunião com uma autoridade do governo americano que trabalha no programa nuclear. Os réus foram acusados de conspiração, não por cometer espionagem, mas pela lavagem de dinheiro e por não se registrarem como agentes de um governo estrangeiro, crimes com sentenças de 5 a 20 anos de prisão. Eles não foram acusados da obtenção de documentos confidenciais.

Desvio de finalidade

Também há indícios de que os chefes de espionagem russos temem que seus agentes possam estar se desviando de sua finalidade oficial. Agentes em Boston apresentaram um relatório de despesas com itens vagos como "viagem para encontro" por US$1.125 e "educação" por US$ 3,6 mil. Em Montclair, quando o casal Murphy tentou comprar uma casa em seu nome, "Moscou Central", ou "C", a sede SVR, foi contra.

''Temos a impressão de que C. vê a propriedade de uma casa como um desvio da finalidade original de nossa missão", o casal da Nova Jersey escreveu em uma mensagem codificada. "Do nosso ponto de vista, a compra da casa é apenas uma evolução natural da nossa estada prolongada aqui. É uma maneira conveniente para resolver o problema habitacional, além de 'fazer como os romanos' em uma sociedade que valoriza a propriedade imobiliária.".

Grande parte da atividade da cadeia de espionagem - e da vigilância do FBI - aconteceu em Nova York e suas redondezas. Os supostos agentes foram vistos em uma livraria em Lower Manhattan, um banco perto da entrada do Central Park e um restaurante em Sunnyside, Queens. Intercâmbios secretos foram feitos em locais movimentados como a estação ferroviária de Long Island, em Forest Hills, Queens, onde observadores do FBI, em 2004, avistaram o réu que foi preso nesta segunda-feira no Chipre.

As prisões fizeram estardalhaço nos bairros de todo o país, enquanto equipes do FBI passaram a noite de domingo realizando buscas em casas e carros, fazendo uso de lanternas e confiscando evidências.

Em Cambridge, Massachusetts, o casal conhecido como Donald Heathfield e Tracey Foley, que têm cerca de 40 anos e dois filhos adolescentes, vivia em um prédio em uma rua residencial onde moram alguns professores e alunos de Harvard.

''Ela era muito gentil, muito boa", Montse Monne-Corbero, que mora no apartamento ao lado, disse sobre Tracey Foley. Os filhos removiam neve para ela no inverno, Monne-Corbero disse, mas eles também faziam "festas barulhentas".

Lila Hexner, que mora no prédio ao lado, disse que Tracey Foley lhe contou que trabalhava em um negócio imobiliário. ''Ela disse que eles eram do Canadá", Hexner contou.

Outro acusado, Mikhail Semenko, que segundo as autoridades usou seu nome real, era um homem elegante de quase 30 anos de idade, que dirigia um Mercedes S-500, disse Tatyana Day, que vive na casa em frente a dele em Arlington, Virgínia. Ele tinha uma namorada morena e eles falavam em russo e "eram reservados", disse.

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