Em vez de fatos, números são declarações em censo iraquiano

Em Kirkuk, região curda no norte, números conflitantes resultam em estatísticas confusas sobre a população do Iraque

The New York Times |

Na disputada cidade de Kirkuk, assim como em grande parte do Iraque, os números não são fatos. São apenas declarações.

Mesmo as perguntas mais simples – como quantas pessoas moram aqui e quem elas são – convidam um turbilhão incrível de respostas por parte dos oficiais regionais, sempre contendo motivos políticos e as ameaças de violência nas proximidades como temas subjacentes.

A maneira mais simples de resolver o problema seria um censo nacional, algo que o Iraque não realiza há mais de 25 anos. Seus planos para fazê-lo, entretanto, têm esbarrado nos conflitos étnicos e sectários que muitos aqui temem poder dividir o país.

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Iraquianos caminham em Erbil, em região semiautônoma curda, no norte do Iraque
A população de Kirkuk, a principal cidade em uma região rica em petróleo e saturada com a tensão sectária, é de 1,3; 1,4 ou 1,6 milhões, dizem as autoridades locais. Mas um relatório da ONU, publicado em 2009, estimou menos de 1 milhão de pessoas.

O número de árabes que partiram desde a invasão dos Estados Unidos em 2003 seria de 250 mil, ou não. O número de curdos que têm chegado desde essa data é muito maior, ou não. Em outra época, os turcomanos formavam 60% da população da cidade de Kirkuk, em comparação ao 30% de hoje. Talvez.

"Ninguém pode informar números precisos", disse Mehdi Ali Sadiq, um turcomano membro do conselho de Kirkuk.

Os líderes iraquianos agendaram inúmeros censos, apenas para vê-los adiados várias vezes – o mais recente teria ocorrido no primeiro domingo de dezembro. Eles têm feito isso, apesar de uma obrigação constitucional de realizar um censo em 2007, quando derramamento de sangue por conflitos sectários tornou a ideia inconcebível. "O adiamento do censo no passado deveu-se às condições vividas no Iraque, particularmente em torno da questão de segurança", observou o ex-primeiro ministro, Nouri Al-Maliki, em um comunicado após o último adiamento. Agora, disse ele, "não há mais motivos de segurança".

O que prevalece é o medo de que o censo possa tornar suposições em fatos, em especial nas disputadas regiões de Kirkuk, Nínive e Diyala, onde a identidade étnica é incorporada ameaçadoramente a cada assunto, do poder político à terra e ao petróleo.

Fronteira

No cerne do problema estão territórios disputados que vão da fronteira com o Irã à fronteira com a Síria, que os curdos querem absorver em sua região semi-autônoma no norte do Iraque. Na política de soma zero que existe hoje no Iraque, líderes árabes e turcomanos nesses territórios alertam que uma contagem exata da população impulsionaria as alegações curdas. Por isso, eles prometeram boicotar qualquer censo.

"Se tivermos um censo agora, teríamos de ceder nossa província ao Curdistão", disse um líder tribal sunita em Kirkuk, o xeque Abdul Rahman Minshan Al-Aasi.

O destino do censo, considerado essencial para o desenvolvimento político, social e econômico do país, acabou sendo um dos problemas mais prementes no Iraque. Parece improvável que a nova e ainda frágil coalizão do governo de Al-Maliki o resolva em breve, dados seus próprios problemas no compartilhamento de poder.

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Citadela de Erbil, no norte do Iraque; região tem dados conflitantes sobre população
O vice-presidente americano, Joe Biden, recentemente incluiu o censo iraquiano como um dos principais desafios aos quais os Estados Unidos deveriam contribuir para encontrar uma solução, enquanto as forças militares americanas são retiradas antes do prazo para o qual agora falta apenas cerca de um ano.

O último censo completo no Iraque foi realizado em 1987. Dez anos depois, o governo de Saddam Hussein realizou outro excluindo as três províncias curdas: Dohuk, Erbil e Sulaimaniya, que estão fora do controle de Bagdá e sob proteção dos Estados Unidos e da ONU, desde a Guerra do Golfo Pérsico de 1991. Este censo registrou 19 milhões de pessoas no país.

Um novo censo mediria as profundas mudanças demográficas no Iraque após a invasão dos Estados Unidos em 2003, incluindo a movimentação de xiitas, sunitas e curdos no país e a fuga de milhares de iraquianos para o exterior.

Etnias

Mesmo agora, a divisão exata entre os grupos étnicos do Iraque – incluindo os turcomanos, assírios e outros grupos étnicos menores – ainda é apenas uma estimativa politicamente carregada, principalmente entre os sunitas, que dominavam a política e o governo sob Hussein.

Até o número de parlamentares no novo Parlamento iraquiano de 325 membros – um para cada 100 mil habitantes – é baseado em pouco mais de uma projeção de que a população do país tenha crescido para 32,5 milhões. (O World Fact Book da CIA estimou 29 milhões este ano.)

A província de Kirkuk, um dos locais mais antigos da Terra a ser continuamente habitado, tem experimentado mudanças demográficas e conflitos por um longo período. Os curdos a reivindicam como parte de sua pátria histórica, mas Saddam Hussein expulsou dezenas de milhares de curdos na década de 80, substituindo-os com árabes.

Após a invasão americana, tropas curdas do norte – conhecidas como o pesh merga – não tardaram a assumir o controle de grande parte da região, incluindo a cidade de Kirkuk, com o apoio das Forças Armadas dos EUA.

Desde então eles consolidaram o controle sobre a política e segurança, alimentando um sentimento de pesar entre os árabes e turcomanos, que têm enfrentado discriminação, ameaças e violência. Uma brigada dos EUA permanece alocada em uma base na periferia da cidade, como uma central de comando para a batalha, a partir da qual se planeja operações de contingência, apesar do fim declarado das operações de combate americanas em 31 agosto.

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Mercado popular em Erbil, na região curda do Iraque
O vice-governador da região, Rakan Said, que é árabe, queixou-se de sua incapacidade de impedir o que chamou de assentamentos ilegais de curdos em Kirkuk porque o governador e os comandantes das forças de segurança são curdos que respondem ao governo regional curdo. Ele comparou a retomada curda na região com os assentamentos de Israel em terras palestinas.

"Eu não posso fazer nada", disse ele, revelando sua ira de seu escritório em um prédio do governo adornado com uma nova bandeira para comemorar a reeleição do presidente curdo do Iraque, Jalal Talabani.

Constituição

A Constituição iraquiana de 2005 não conseguiu resolver a questão do governo de Kirkuk, mas em seu artigo 140 estabeleceu um processo para a realização de um censo e de um referendo sobre o estatuto definitivo de Kirkuk. Líderes curdos invocam o artigo 140 como se fosse um artigo de fé, tornando sua implementação uma condição para a adesão ao novo governo de coalizão de Al-Maliki.

Barham Salih, primeiro-ministro da região curda, qualificou o atraso mais recente do censo como um revés para a coalizão emergente. "Nós precisamos de confiança e coragem para nos comprometer a abordar alguns desses problemas", disse ele em uma entrevista em Dokan, um lago no nordeste de Kirkuk.

O Ministério de Planejamento iraquiano já concluiu os preparativos para o censo sob orientação da ONU, treinando mais de 230 mil pessoas.

Em vez de definir uma nova data, o governo de Al-Maliki formou uma comissão para tentar resolver o impasse, incluindo as queixas sunitas no sentido de que o censo não precisa ser realizado em partes das províncias de Nínive e Kirkuk, que estão sob controle curdo. Originalmente planejado para 2007, então em outubro de 2009, outubro de 2010 e este mês, parece provável que o censo seja adiado indefinidamente.

Alguns oficiais sugeriram um acordo para eliminar a questão da etnia, estabelecendo assim apenas população do país e evitando as revindicações territoriais dos curdos, árabes, turcomanos e outros grupos étnicos pequenos. Naturalmente, os curdos se opõem a isso.

"O atraso apenas atrasou um problema, tornando-o mais complicado", disse Salih sobre o censo. "Isso só vai alimentar a paranoia, só vai promover a desconfiança e divulgar a ideia de uma falta de confiança na liderança do país no sentido de que não há vontade de resolver os seus problemas".

*Por Steven Lee Myers

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