Em uma vila de Gaza, estimativas erradas do conflito

EL ATATRA ¿ A fumaça de fósforo da bomba passou pelo teto no lugar exato onde a maioria da família tinha se refugiado ¿ no andar de cima longe das janelas. A bomba, que os especialistas internacionais em armas identificam como fósforo por seus fragmentos, tinha a intenção de encobrir o movimento das tropas do lado de fora.

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Carcaça de animal morto por soldados israelenses na vila de El Atatra


Ao invés disso, encheu o corredor de Sabah Abu Halima com uma nuvem de fogo e fumaça, liberando químicos fatais que se prenderam no marido, três pequenos filhos e no bebê de Sabah, queimando-os até a morte.

Os militares israelenses disseram que não estão cientes do desastre da família, nem de nenhuma outra morte de civil nessa vila agrícola no noroeste de Gaza. Enquanto isso os residentes dizem que outros 11 civis foram mortos durante os primeiros dias da invasão israelense por terra. Israel diz que seus soldados mataram homens armados e militantes nesta vila, que é considerada um refúgio do Hamas. Ao menos quatro soldados foram feridos na luta.

A guerra em El Atatra conta a história da ofensiva de três semanas de Israel em Gaza, com cada lado dando uma versão bem diferente da outra. Os palestinos descreveram as ações militares de Israel como um massacre e os israelenses atribuíram a morte de civis à política do Hamas de usar a população como escudo.

Várias versões

Em El Atatra, com base em 50 entrevistas com pessoas da vila e quatro comandantes israelenses, nenhuma das versões pareceu totalmente verdadeira. Segundo Israel, as cerca de 12 mortes de civis mostraram a consequência dolorosa, mas inevitável de um exército moderno trazendo a guerra para um espaço urbano. E de acordo com os palestinos, os combatentes do Hamas não forçaram os civis a agirem como escudos ao colocarem explosivos em cozinhas, entradas da casa ou em uma mesquita.

As lacunas refletem não apenas o desejo de formar a opinião pública, mas algo mais significativo: uma distância crescente entre dois povos que costumavam dialogar diariamente, mas que estão sendo forçados a se separar pela violência, demonização mútua e uma política de separação.

Os palestinos quase nunca questionam a legitimidade dos lançamentos de foguetes contra civis israelenses como uma forma de resistência e então parecem chocados que Israel faça o mesmo. Enquanto isso, Israel mandou uma mensagem dupla.

De certa forma, isso tornou claro que Israel estava furioso pelos anos de lançamentos de foguetes e não iria conter sua reação. Por outro, argumentou que houve uma abordagem excepcionalmente humana em relação aos civis de Gaza, em contraste com a maneira como via o Hamas, um inimigo sedento de sangue.

Civis

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Palestina morava há 20 anos em casa destruída
Diferente de muitos moradores de Gaza, muitas pessoas na vila não são refugiados da guerra de independência de 1948, mas fazendeiros e proprietários de terras, que por anos venderam morangos a Israel até que houve o embargo contra o território governado pelo Hamas há alguns anos. Israel avisou aos moradores, por meio de folhetos, rádio e telefone para partir, mas muitos sentiram que a incursão de Israel não os ameaçava.

Eu achei que seria como as outras vezes quando eles deixavam panfletos para entrarmos em casa e esperarmos, disse Rafig Gambour, 45, mecânico de carros que trabalhou em Israel por anos, incluindo em Sderot, onde os foguetes do Hamas mais atingiram.

Então quando aconteceu a tragédia na casa de Abu Halima em um domingo, 4 de janeiro, muitos fizeram a única coisa que acharam que iria salvá-los: ligaram para seus amigos israelenses. Enquanto o sol se punha e os corpos queimavam, uma multidão de pessoas em pânico esperava dois fazendeiros, um deles era Mahmoud Khlaiyel, que faziam ligações frenéticas para o outro lado da fronteira.

Não teve ninguém para quem não liguei, disse Khlaiyel.

Amizade além da fronteira

Um homem que se identificou como Danny Batua, 54, executivo israelense judeu cuja família foi amiga da família de Abu Halima por anos, disse, por telefone, acreditar que Abu Halima não tinha envolvimento com o Hamas e que o sofrimento deles era o resultado de um erro da Inteligência por parte do exército israelense. O que eu posso dizer? disse Batua. O exército não tem idéia.

Mas de acordo com capitão E., comandante militar israelense cujos homens tomaram o setor ocidental da vila na primeira noite da ofensiva por terra, a maioria das casas naquela área não tinha civis. Além disso, de acordo com ele, os militantes permaneceram e começaram um tiroteio contra os soldados.

Militares

O exército disponibilizou o comandante para a entrevista em Israel, mas limitou sua identificação à inicial de seu nome.

Nós enfrentamos fogo majoritariamente de franco atiradores, disse. Encontramos túneis, mapas, kalashnikov (fuzis russos), uniformes de nosso Exército e muitos explosivos grandes pelas casas que vasculhamos, acrescentou, mostrando fotografias do que seus homens coletaram. Também encontramos um balde de granadas dentro de uma mesquita.

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Segundo as Forças Israelenses, a bomba foi colocada pelo Hamas para fingir ataque


Algumas das afirmações do Exército claramente são verdadeiras. Foguetes foram disparados a partir de um lugar próximo de uma escola de ensino fundamental e de muitos de seus terrenos, disseram comandantes israelenses e diversos moradores.
Os líderes do Hamas estavam na vila e os comandantes israelenses apresentaram evidências de quatro túneis em partes da vila, embora não tivessem a rede extensa que comandantes superiores relataram. Os militantes também tinham armas, mas os comandantes disseram que tinham destruído casas que correspondiam apenas a esconderijos de armas, o que não é uma inteiramente verdade.

Meu princípio para explodir casas não era destruir uma que tinha apenas uma AK-47, mas apenas se encontrássemos uma verdadeira infraestrutura ou grandes quantidades de explosivos, disse o comandante da brigada da área, coronel Herzl Halevy, de Israel por telefone.

Eu chequei isso pessoalmente, acrescentou. Entre 40 e 50 casas foram destruídas.
Divergência nos fatos

Mas quando o pelotão de outro comandante, capitão Y., , que tomou a vizinhança onde morava uma família chamada Ghanem, Halevy deixou claro, por telefone, que a casa deles foi explodida sem que a parte de dentro fosse inspecionada. Uma procura no local, duas semanas depois, feita pelo correspondente do The New York Times junto a um veterano com 20 anos de experiência no Exército britânico, Chris Cobb-Smith, consultor de armas da Anistia Internacional, não mostrou nenhuma evidência de material explosivo ou de dinamites auxiliares.

Então por que a casa foi destruída?

Nós tínhamos uma informação antecipada de que havia bombas dentro da casa, disse o capitão Y. Olhamos para dentro a partir da entrada e vimos coisas das quais suspeitamos. Não quis arriscar a vida de meus homens. Mandamos que a casa fosse destruída.
Esse pareceu ser o princípio condutor para diversas operações em El Atatra: Evitar mortes israelenses a todo custo.


Por ETHAN BRONNER e SABRINA TAVERNISE



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