Em um novo Egito, poucos se concentram em religião

Bairro Imbaba, perto do rio Nilo, reflete afastamento de fervor religioso e ênfase em discussões sobre política e economia

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Uma geração atrás, os pais de Ahmed Mitwalli faziam parte do grande grupo de islâmicos que compunha um bairro localizado ao longo do rio Nilo, antes apelidado de República Islâmica do Imbaba.

Mas seu filho não é religioso e suas convicções, que ecoam o caldeirão de frustrações de um dos bairros mais populosos do mundo, sugerem o motivo pelo qual a Irmandade Muçulmana não está no comando da revolução do Egito. "Pão, justiça social e liberdade", disse o estudante universitário de 21 anos. "O que a religião tem a ver com isso?"

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Egípcios discutem política em café de Imbaba, bairro perto do rio Nilo
A revolução do Egito está longe de ser decidida e a Irmandade Muçulmana continua sendo a força mais popular e bem organizada da oposição do país, preparada para desempenhar um papel crucial na transição e depois dela.

Mas, em um bairro antes controlado por militantes islâmicos, que declararam seu próprio Estado dentro do Estado no início dos anos 1990, o mais marcante é perceber como a religião tem tido pouca influência. Três vezes mais populado do que Manhattan, Imbaba oferece um vislumbre do afastamento do fervor religioso no Egito.

"A última coisa na cabeça da juventude é a religião", disse Mitwalli, que esconde seus cigarros de uma família na qual as mulheres mais velhas usam o véu mais conservador que existe. "É a última coisa que vem à tona. Eles precisam de dinheiro, eles precisam se casar, comprar um carro e eles não querem nada além disso. Eles vão eleger quem puder proporcionar isso".

Submundo

O governo de Mubarak por muito tempo rotulou bairros como Imbaba como um submundo do crime e do perigo. Também é lá que o povo vai às ruas diante da menor provocação, mas protege sua comunidade.

Quando a revolta devastou a economia, os vendedores derrubaram os preços para ajudar as pessoas. E em quase todas as conversas, os moradores, especialmente os jovens, retratam a sua situação com o discurso "nós contra eles".

"Não houve diálogo", disse Walid Sabr, 29 anos, que trabalha em uma loja de sapatos. "Houve força e perseguição. É impossível dialogar com isso".

O Egito é profundamente devoto e impor rótulos muitas vezes confunde mais do que esclarece. Mas nas ruas repletas de lixo do país, um refrão comum é que o islã político, como praticado pela Irmandade Muçulmana, não oferece o tipo de solução que pode decidir uma eleição.

Samih Ahmed, um vendedor de rua, acrescentou: "Essa não é a revolução do 25 de janeiro", chamando a revolta pelo seu nome mais popular. "É a revolução da dignidade".

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Muçulmanas egípcias no bairro de Imbaba, na capital Cairo
*Por Anthony Shadid

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