Em Uganda, política reflete rivalidades pessoais

Hoje inimigos, o presidente Yoweri Museveni e o líder oposicionista Kizza Besigye foram amigos íntimos e lutaram juntos contra a ditadura de Amin

The New York Times |

Como muitas histórias de guerra, essa começou com amor. Antes do gás lacrimogêneo, das prisões violentas e das passagens pelo hospital, Yoweri Museveni e Kizza Besigye eram amigos íntimos, um futuro presidente e o médico a quem ele confiou a sua vida. Eles lutaram juntos para libertar seu país da ditadura. Há alguns que dizem que eles chegaram até a se apaixonar pela mesma mulher.

Hoje, enquanto Uganda enfrenta a sua mais ultrajante reviravolta política em muitos anos, com protestos massivos e oficiais dissidentes testando o poder mantido por Museveni há 25 anos, as paixões de uma disputa que começou há muito tempo entre os amigos se manifestam no cenário nacional.

Ao contrário das revoluções no Egito e na Tunísia, que nasceram com as revoltas populares, o movimento de protesto de Uganda tem sido impulsionado por um homem, Besigye, que talvez conheça o presidente melhor do que qualquer outro político – e por isso saiba melhor como atingi-lo.

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Winnie Byanyimia fala durante campanha eleitoral de seu marido, Kizza Besigye (D), líder da oposição que vem concorrendo nos últimos anos contra Yoweri Museveni
Besigye não ateou fogo a si mesmo como o homem da Tunísia que deu início à Primavera Árabe ou pegou em armas como os rebeldes da Líbia. Ao contrário, depois de perder miseravelmente para o presidente em mais uma eleição - ele concorreu nas últimas três - Besigye disse apenas que iria andar até o seu escritório em vez de usar carros para protestar contra os altos preços e a corrupção.

Os protestos resultantes foram humildes - Besigye esteve quase sozinho no primeiro dia - mas o governo de Museveni reagiu com força esmagadora contra centenas de oponentes, chegando a prender alguns deles e matar outros. Por vezes, o governo usou gás lacrimogêneo e água contra apenas seis manifestantes.

A cada medida drástica, os protestos aumentavam, alimentados pela indignação com a repressão. Besigye, antes visto como um político inútil, passou a ser considerado um alquimista, e Museveni, visto há muito tempo pelos Estados Unidos como um aliado liberal, exibiu seu lado mais draconiano.

Os protestos foram interrompidos desde então, mas não a disputa política. Parlamentares da oposição boicotaram o discurso de posse do presidente, Besigye foi levado aos tribunais por acusações diversas e a polícia continua presente nas ruas. Muitos se perguntam por que o presidente inflaria tal desafio aparentemente insípido.

Seus críticos, alguns dos quais eram próximos a ele, dizem que este é o Museveni verdadeiro, um governante arrogante e muitas vezes cruel, que esmagou seus adversários políticos para permanecer tanto tempo no poder.

No entanto, eles também dizem que a disputa é pessoal, relacionada à relação do presidente com Besigye e sua esposa Winnie Byanyima, a quem ele conhece desde a infância e, muitos dizem, com que já quis se casar. A história pode revelar maior profundidade sobre o movimento político.

Ditadura

No inverno de 1980, após quase uma década de ditadura brutal de Idi Amin, Besigye, então um jovem médico, começou a frequentar as reuniões de uma nova figura política, o carismático e popular Museveni. "Ele era um jovem que, por si só, nos atraia como jovens", disse Besigye. "Ele dizia as coisas certas sobre o tipo de governo que a Uganda merecia e isso nos impressionava. Começamos a vê-lo como uma luz brilhante”.

Quando naquele ano o novo partido político de Museveni ficou em terceiro lugar na eleição geral, teve início um movimento de guerrilha nas florestas do país. Ativistas como Besigye foram perseguidos - ele e outros foram trancados no porão de um hotel popular em Kampala, disse. Ele escapou em 1982, encontrou os rebeldes na floresta e foi recebido por Museveni, que fez dele seu médico pessoal. "Eu vivia com ele em uma tenda. Fiquei perto dele até o fim da guerra", disse Besigye.

Besigye disse que ele também se reuniu com Byanyima. Ela era uma jovem oficial rebelde na floresta, próxima de Museveni, enquanto sua esposa e seus filhos viviam na Suécia. Anos mais tarde Besigye e Byanyima se casariam.

Besigye disse que houve momentos em que Byanyima e Museveni mantiveram um relacionamento romântico, e que, como médico ele chegou a tratar os dois, tornando-se gradualmente um conselheiro de confiança do líder rebelde. Após o triunfo de Museveni, que o tornou presidente em 1986, Besigye foi nomeado ministro de assuntos internos.

Corrupção

Mas logo os problemas começaram. Besigye disse que quando ele questionou o presidente sobre a corrupção e algumas questões constitucionais, o relacionamento começou a ruir.

Byanyima também se desentendeu com o presidente e com seu pai, Mzee Boniface Byanyima - um estadista mais velho e, à certa altura, pai adotivo de Museveni. Mzee Boniface Byanyima rejeitou o pedido do presidente pela mão de sua filha, quando ele se ofereceu para obter a anulação de seu casamento para poder se casar com ela.

"Eu não gostei do caráter do homem", disse Mzee Byanyima, hoje com 92 anos, em entrevista recente. "Eu sabia que esse homem, mais cedo ou mais tarde, levaria este país à ruína. Eu disse à minha filha: 'Não deixe que Museveni faça de você sua segunda esposa’".

Winnie Byanyima não quis comentar, dizendo que a luta política na Uganda tem relação apenas com os problemas nacionais.

Em 1990, Besigye foi demitido como ministro e ordenado à formação militar, uma clara degradação. Logo ele se tornou popular entre as Forças Armadas e foi eleito para o alto comando do Exército.

Ele se tornou cada vez mais aberto a expressar suas opiniões políticas, e no início dos anos 90, segundo ele, começou seu relacionamento romântico com Winnie Byanyima, que deixou um posto diplomático na França, para concorrer ao Parlamento como oposição política. Eles fizeram campanha juntos, o romance se misturando com a política.

Besigye reconhece um elemento de atrito romântico na dinâmica política entre Museveni e ele, mas disse que não é um fator crítico. "Mesmo se não houvesse nenhum relacionamento", Besigye disse sobre seu casamento com Byanyima, o antagonismo entre o presidente e ele "seria o mesmo que é agora".

Enquanto muitos observadores concordam que a disputa política na Uganda trata de grandes diferenças políticas, eles afirmam que o núcleo restrito de personalidades também é uma força motora nos eventos. "Trata-se de poder e animosidade", disse Amii Omara Otunnu, professor de história de Uganda que atua na Universidade de Connecticut. "Besigye era a pessoa mais próxima de Museveni", disse Omara Otunnu, cujo irmão é um político da oposição. "A pessoa de quem Museveni tem mais medo, além Besigye, é Winnie".

Outra pessoa próxima à família do presidente disse que para Museveni, perder Byanyima foi como "perder a Helena de Troia".

Tamale Mirundi, porta-voz de Museveni, recusou-se a discutir qualquer relação entre o presidente e Byanyima Winnie, e chamou Besigye de um "rejeitado". Ele acrescentou que Byanyima usou seu relacionamento profissional com o partido no poder para "abrir caminho" para Besigye.

Crescimento

Museveni foi presidente durante um período de crescimento econômico expansivo. Seu país se tornou um forte aliado militar dos Estados Unidos, e desempenhou um papel importante em países como Somália e Congo, e seus shopping centers e hotéis atendem a turistas ocidentais.

No entanto, os protestos mostraram outra coisa. As forças de segurança mataram pelo menos nove pessoas, incluindo uma criança. Besigye foi baleado na mão com uma bala de borracha e depois ficou parcialmente cego como resultado da ação policial.

Ele colocou gesso e um par de óculos de sol e voou para Nairóbi para ser tratado: deixando as lentes criarem fotos da opressão do governo que seriam vistas por muitos em Kampala. E então retornou a seu país, superando a posse mais recente de Museveni com a presença de dezenas de milhares de apoiadores.

"O governo parece não ter ideia de como responder a um movimento desarmado, feroz, mas estranho", disse Mahmood Mamdani, um professor de antropologia da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e na Universidade Makerere, em Uganda. "A ironia é que o governo está conseguindo unir não apenas a oposição, mas mais e mais pessoas em torno da oposição".

Mzee Byanyima, antigo líder do Partido Democrático da Uganda, lembra de uma noite em 1980, pouco depois da queda de Amin, quando um nervosa Milton Obote, um ex-presidente cujo governo foi acusado de violações dos direitos humanos, veio à sua porta com um aviso. "Ele disse: 'Ouvi dizer que Museveni frequenta a sua casa'", lembrou Byanyima. "Ele disse: 'Cuidado com Museveni", um alerta que significava: "Fique atento".

*Por Josh Kron

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