Em tempos de crise, Obama ainda tem apoio dos eleitores negros

Posição de líder dos EUA continua forte entre negros apesar da economia e da sensação de expectativas não cumpridas, indicam pesquisas

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Abdul Malik de Charlotte (Carolina do Norte), que perdeu o emprego há um ano e meio, planeja votar novamente em Obama no próximo ano (20/10/2011)
Abdul Malik parece o exemplo de um desencantado eleitor de Barack Obama. Malik, 48, perdeu seu emprego como paisagista um ano e meio atrás, outra vítima da crise imobiliária. Desde então, está à procura de algo, qualquer coisa, para ajudar a cobrir as despesas.

No entanto, Malik, que é negro, diz que tem toda a intenção de votar em Obama novamente no próximo ano. O mesmo acontece com Bobby Hart, 46, um ex-trabalhador da construção civil de Charlotte, na Carolina do Norte. Dorothy Artis, de Greensboro, que está à procura de um emprego para ajudar a sustentar seus netos enquanto a filha está no Kuwait, também. E Larry Bennett, que trabalhou por 27 anos na Cooper Industries antes de perder o emprego quando sua divisão mudou-se para outro Estado.

"Não culpo Obama", disse Malik, que nunca tinha votado antes de 2008. "Não o culpo mesmo."

Apesar de uma escola de pensamento em Washington defender que o apoio de Obama entre os negros enfraqueceu por causa da economia e de uma sensação de expectativas não cumpridas, entrevistas e pesquisas de opinião pública mostram que sua posição continua a ser notavelmente forte entre os negros.

A questão agora para a campanha de Obama é saber se ele conseguirá energizar os eleitores – muitos dos quais foram levados às urnas pela primeira vez em 2008 pela natureza histórica de sua candidatura juntamente com um programa agressivo de registro eleitoral – mesmo com uma taxa de desemprego entre os negros que em muitos lugares excede os números nacionais.

O próprio presidente, em um evento de arrecadação de fundos de alta classe em Los Angeles, na segunda-feira, após uma visita a um bairro etnicamente misto, advertiu doadores como o ator Will Smith e Magic Johnson que a próxima eleição presidencial "não será tão sexy quanto a primeira", sugerindo que poderia faltar a energia que motivou muitos eleitores negros em 2008.

"O desafio serão as pessoas que foram completamente inspiradas por ele em 2008, que foram os eleitores atípicos – o desafio será levá-las pessoas a votar nele em 2012", disse Jamal Simmons, estrategista democrata que trabalhou na campanha de Gore em 2000 e na campanha de Obama em 2008.

Funcionários da campanha de Obama dizem reconhecer a dificuldade de renovar o entusiasmo que impulsionou o comparecimento negro às urnas, mas também afirmam que ainda há novos eleitores negros a ser conquistados. Estrategistas da campanha democrata também dizem esperar que os negros sejam motivados a votar por ataques republicanos ao presidente e o desejo de ter certeza de que a posse histórica de Obama na Casa Branca se estenda para além de um mandato.

Eles já criam equipes em Estados indefinidos com significativas populações negras, como Flórida, Carolina do Norte e Virgínia, para um esforço intensivo chamado Operação Voto, que será concentrado em negros, mulheres e hispânicos.

"A organização começa a fazer sombra ao que fizeram em 2008", disse Mike Henry, gerente de campanha para o ex-governador Tim Kaine, da Virgínia, um democrata concorrendo ao Senado.

Candidatos democratas têm historicamente lutado para conquistar votos entre os negros e, em 2008, foi a primeira vez a nível nacional que a parcela do eleitorado negro foi um pouco maior do que a parcela negra da população com idade para votar. Na Carolina do Norte, onde mais de 1 em cada 5 moradores são negros, Obama conquistou sua vitória mais improvável com a ajuda de mais de 300 mil eleitores negros que foram às urnas pela primeira vez. Ele precisava de quase todos eles, vencendo o Estado por menos de 14 mil votos dentre mais de 4 milhões.

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Dorothy Artis, que procura emprego para ajudar a sustentar netos, planeja dar seu voto novamente para Obama em 2012 (20/10/2011)
Alguns acreditam que o presidente terá dificuldade em reproduzir esses resultados, com uma narrativa política emergente em Washington ditando que os negros começaram a azedar com o presidente. Vários líderes negros - incluindo a deputada Maxine Waters da Califórnia, o apresentador de televisão Tavis Smiley e Cornel West, um eminente professor – têm criticado Obama por acreditar que ele não fez o suficiente pelos negros americanos. Obama alimentou a história em um discurso no mês passado no Cáucaso Congressista Negro, quando disse que os negros deveriam "parar de chorar" e lutar por seu projeto de lei para a criação de empregos.

Fora de Washington, no entanto, a história é muito diferente. O apoio a Obama entre os negros aparece surpreendentemente forte, mesmo entre os muitos que estão sem trabalho, que poderiam se queixar ainda mais.

Em uma recente pesquisa do Centro de Pesquisa Pew, 95% dos eleitores negros preferiram Obama, enquanto 3% indicaram preferir Mitt Romney , “que é pelo menos a margem que ele teve em 2008", disse Michael Dimock, diretor associado de pesquisas do Pew. "Não há nenhuma erosão."

Ainda mais notável, menos de 10% dos eleitores negros em pesquisa The New York Times / CBS realizada no mês passado disseram que Obama não conseguiu satisfazer suas expectativas como presidente, enquanto 3 em cada 10 disseram que ele superou as expectativas. Entre os eleitores que não são negros, 4 em cada 10 disseram que ele teve um desempenho pior do que o esperado, enquanto apenas 5% disseram que ele se saiu melhor.

Para muitos negros, a principal razão para apoiar Obama é fácil de citar. Eles argumentam que o Partido Republicano moderno protege os ricos à custa dos pobres, é hostil aos programas sociais e acha que o caminho para consertar a economia é apenas por meio de uma abordagem de cima para baixo.

"Sabemos o que o Partido Republicano oferece", disse Bennett, 57, o ex-empregado da Cooper Industries, que trabalhava como supervisor de fábrica. "E não queremos isso."

Hart disse: "Olhe para a escolha que temos com os republicanos."

Além disso, muitos negros sentem uma conexão emocional com Obama que parece inabalável, dizendo que nada pode se comparar a ver alguém que se parece com eles na Casa Branca. Esse vínculo ainda leva lágrimas aos olhos de Sheila Gorham, uma diretora de escola primária em Greensboro, quando fala sobre a primeira vez que viu Obama em Charlotte em 2008.

"Caía uma chuva torrencial e fiquei lá com a minha irmã", disse. Foi apenas um dia antes da eleição e a avó de Obama tinha acabado de morrer. "Ele estava solene", disse Gorham. Mas "falou sobre como a mudança estava chegando".

Esse fenômeno é o outro lado da oposição virulenta a Obama que os pesquisadores acreditam estar por vezes ligada à sua raça. É impossível saber quantos eleitores tomam decisões mesmo que parcialmente com base na raça e qual o efeito disso sobre as chances de Obama.

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Partidários tiram fotos do presidente dos EUA, Barack Obama, em evento em Jamestown, Carolina do Norte (20/10/2011)
Na pesquisa nacional de boca de urna de 2008, 1 em cada 5 eleitores disse que a raça representou um fator decisivo em seu voto, mas entender como isso ajuda ou prejudica Obama é complicado. Enquanto muitos negros podem estar inclinados a votar em Obama porque ele é negro, há um número significativo de brancos que podem ser menos propensos a fazê-lo pela mesma razão, explicam os pesquisadores.

Para melhorar as chances de Obama, funcionários de campanha dizem que planejam agir em locais onde eleitores negros – além de mulheres e eleitores hispânicos – se reúnem.

Sentado em uma cadeira na Barbearia Última Escolha, em Charlotte, Brian Gainey, 28, um motorista de caminhão, inicialmente hesitou quando lhe perguntaram se ele votaria novamente em Obama. "Sim", disse, finalmente, acrescentando: "Quase gostaria de ver outra pessoa ganhar, no entanto. Talvez assim percebam quão melhor Obama foi do que quem virá depois dele."

Para Lemar Foster Jr., 48, um barbeiro que trabalha no local, a família Obama simboliza uma grande mudança cultural. "É como se tivéssemos a família Cosby na Casa Branca", disse Foster, referindo-se à família negra abastada de uma série de ficção dirigida por Bill Cosby na década de 1980. "Cresci com 'Sanford and Son’" – um programa repleto de estereótipos humilhantes.

“Por isso ter o casal Obama na Casa Branca?", indagou. "Sim, estou muito orgulhoso. E definitivamente votarei nele de novo.”

Por Helene Cooper

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