Em seus últimos dias, Kadafi cansou da vida de fugitivo

Ex-ditador passou fuga oscilando entre raiva, desafio e ilusão, sobrevivendo com arroz e macarrão, segundo oficial capturado com ele

The New York Times |

Após 42 anos de poder absoluto na Líbia, Muamar Kadafi, passou seus últimos dias oscilando entre a raiva, o desafio e a ilusão, sobrevivendo com arroz e macarrão encontrados nas casas civis abandonadas para as quais se mudava para passar apenas poucos dias, de acordo com um oficial de segurança graduado capturado com ele.

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Mansour Dhao Ibrahim, oficial que foi capturado com Muamar Kadafi, é visto em cômodo onde é mantido preso em Misrata, Líbia
Sitiado pelos rebeldes por semanas, Kadafi ficou impaciente com a vida em fuga na cidade de Sirte, disse o oficial, Mansour Dhao Ibrahim, temido líder da Guarda do Povo, uma rede de voluntários leais e informantes. "Ele dizia: 'Por que não há eletricidade? Por que não há água?"'

Dhao, que ficou mais perto de Kadafi durante o cerco, disse que ele e outros repetidamente o aconselharam a deixar o poder ou o país. Segundo ele, porém, Kadafi e Mutassim, um de seus filhos, nem sequer consideraram a opção.

Ainda assim, apesar de alguns dos partidários de Kadafi o retratarem como belicoso e armado na linha de frente até o fim, na verdade ele não tomou parte na luta, disse Dhao, preferindo ler ou fazer ligações em seu telefone via satélite. "Tenho certeza de que ele não disparou um único tiro", disse.

Conforme os líderes provisórios da Líbia se preparavam no sábado para formalmente dar início à transição para um governo eleito e definir um cronograma para as eleições nacionais em 2012, removendo a ditadura de Kadafi, enfrentaram a certeza de que mesmo na sua morte ele os prejudicou. A batalha de Sirte, cidade natal de Kadafi, foi prolongada por meses pela presença do grupo ferozmente leal que mantinha a seu lado, retardando o fim de uma guerra que a maioria dos líbios esperava que acabaria com a queda de Trípoli , em agosto.

Os comentários de Dhao, em uma entrevista no sábado na sede da inteligência militar do país, em Misrata, foram feitos no momento em que detalhes finais da morte de Kadafi , nas mãos dos combatentes que o tinham capturado, ainda eram debatidos.

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AP
Restos de carros que faziam parte de comboio de partidários de Kadafi atingido por ataque da Otan em Sirte, na Líbia (20/10)
Moradores de Misrata visitaram por quatro dias os corpos de Kadafi e de seu filho em um frigorífico em um shopping center local. Antes do enterro , autoridades do governo interino disseram que realizariam uma autópsia nos corpos e investigariam alegações de que os dois podem ter sido executados enquanto estavam sob custódia, embora as autoridades de segurança locais tenham dito não ver a necessidade de uma investigação desse tipo.

Dhao, que supostamente é primo de Kadafi, tornou-se um membro de confiança de seu círculo íntimo. Como chefe da Guarda do Povo, presidiu uma força acusada de desempenhar um papel central na repressão violenta contra manifestantes durante o levante, chegando a disparar contra manifestantes desarmados no bairro de Tajura, em Trípoli.

Membros voluntários da guarda assediavam moradores em postos de controle dispostos por toda a cidade. Acredita-se que Dhao manteve armas e presos em sua fazenda, segundo Salah Marghani do Grupo de Direitos Humanos da Líbia. Em uma entrevista separada realizada pelo Human Rights Watch, Dhao negou que tenha ordenado qualquer tipo de violência.

No sábado, ele falou em uma grande sala de conferências que servia como sua cela, usando um cobertor nas pernas e uma camisa azul, talvez um uniforme da companhia elétrica no qual estava escrito a palavra "poder".

Poucos guardas estavam presentes, mas eles só falavam entre si. Ele disse que seus captores o trataram bem e enviaram médicos para cuidar de ferimentos que sofreu antes de sua captura, incluindo alguns causados por estilhaços no olho, nas costas e no braço esquerdo.

Muitas de suas declarações pareciam ser para seu próprio bem, disse, como por exemplo que ele e outros haviam repetidamente tentado convencer Kadafi de que os revolucionários não eram ratos e mercenários, como gostava de dizer, mas pessoas comuns.

"Ele sabia que esses eram líbios que estavam revoltados", disse. Outras vezes, parecia cheio de arrependimento, explicando a sua incapacidade de se render ou fugir como forma de cumprir "a obrigação moral de ficar" ao lado de Kadafi antes de acrescentar: "A minha coragem me faltou."

Seu relato sobre a batalha não abordou as acusações feitas pelos ex-rebeldes de abusos cometidos por forças leais dentro Sirte. Ismael al-Shukri, vice-chefe de inteligência militar que atua em Misrata, disse que os partidários haviam usado famílias leais como escudos humanos e que houve relatos de que soldados detiveram filhas para evitar que as famílias fugissem. O ex-rebeldes também disseram que as forças de Kadafi executaram soldados que se recusaram a lutar.

Fuga de Trípoli

Kadafi fugiu para Sirte em 21 de agosto, o dia que Trípoli caiu , em um pequeno comboio que percorreu regiões mantidas por seus apoiadores, como Tarhuna e Walid Bani. "Ele estava com muito medo da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)", disse Dhao, que se juntou a ele cerca de uma semana mais tarde.

A decisão de ficar em Sirte foi de Mutassim, filho de Kadafi, que argumentou que a cidade, muito conhecida como um importante reduto pró-Kadafi e sob bombardeio frequente de ataques aéreos da Otan, seria o último lugar em que alguém procuraria por ele.

Kadafi viajou com cerca de dez pessoas, incluindo assessores próximos e guardas. Mutassim, que comandava as forças de seu pai, viajou separadamente, temendo que o seu telefone via satélite estivesse sendo monitorado.

Além de um telefone, que Kadafi usou para fazer declarações frequentes a uma estação de televisão síria que se tornou seu veículo oficial, Kadafi estava em grande parte "cortado do mundo", disse Dhao. Ele não tinha um computador e, mesmo que tivesse, raramente tinha eletricidade. Kadafi, que gostava de enquadrar a revolução como uma guerra religiosa entre muçulmanos devotos e aliados ocidentais dos rebeldes, passava seu tempo lendo o Alcorão, disse Dhao.

Ele se recusava a ouvir pedidos para abandonar o poder. Ele diria, de acordo com Dhao: "Este é o meu país. Eu entreguei o poder em 1977", referindo-se à sua afirmação tantas vezes repetida de que o poder estava realmente nas mãos do povo líbio. "Tentamos por um tempo e depois a porta foi fechada", disse Dhao, acrescentando que Kadafi parecia mais aberto à ideia de desistir ao poder do que seus filhos.

Durante semanas, os ex-rebeldes dispararam armas pesadas indiscriminadamente na cidade. "Ataques aleatórios estavam por toda a parte", disse Dhao, acrescentando que um foguete ou um morteiro atingiu uma das casas onde Kadafi estava hospedado, ferindo três de seus guardas. Um chef que viajava com o grupo também foi ferido, portanto todos começaram a cozinhar, explicou Dhao.

Cerca de duas semanas atrás, quando os ex-rebeldes invadiram o centro da cidade, Kadafi e seus filhos ficaram presos entre duas casas em uma área residencial chamada Distrito Nº 2. Eles estavam cercados por centenas de ex-rebeldes, que disparavam metralhadoras pesadas, foguetes e morteiros na área. "A única decisão era de viver ou morrer", disse Dhao. Kadafi decidiu que era hora de partir e planejava fugir para uma de suas casas nas proximidades, onde tinha nascido.

Na quinta-feira, um comboio de mais de 40 carros deveria partir por volta das 3h, mas a desorganização dos voluntários atrasou a partida até as 8h. Em um Toyota Land Cruiser, Kadafi viajava com seu chefe de segurança, um parente, o motorista e Dhao. Kadafi não falou muito durante o percurso.

Aviões de guerra da Otan e ex-combatentes rebeldes os encontraram meia hora depois da partida, quando um míssil caiu perto do carro, acionando os airbags, disse Dhao, que foi atingido por estilhaços no ataque. Ele afirmou que tentou fugir com Kadafi e outros homens, caminhando primeiro para uma fazenda, depois para a estrada principal, em direção a alguns tubos de drenagem.

"O bombardeio era constante", disse Dhao, acrescentando que ele foi atingido por estilhaços de novo e caiu inconsciente. Quando acordou, estava no hospital. "Sinto muito por tudo o que aconteceu com a Líbia", disse, "desde o princípio até o fim."

*Por Kareem Fahim

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