Em retirada, americanos buscam negócios no Curdistão do Iraque

Críticos dizem que ex-oficiais dos EUA lucram com guerra cara e controvertida em que tiveram alguma responsabilidade

The New York Times |

Pouco depois de deixar o seu emprego como embaixador americano para as Nações Unidas no ano passado, Zalmay Khalilzad iniciou negociações com líderes curdos iraquianos para se tornar um consultor remunerado. Sua tarefa como consultor de investimentos do conselho da região semi-autônoma do Curdistão durou cerca de sete meses. Em maio, Khalilzad, que também serviu como embaixador no Iraque, tornou-se membro da diretoria da RAK Petroleum, uma companhia de investimentos de petróleo e gás com base no emirado de Ras Al-Khaimah no Golfo Pérsico.

A RAK é uma acionista significativa do DNO da Noruega, um grande produtor de petróleo na região curda que esteve envolvido em polêmica por conceder interesse em seu campo de petróleo ao ex-diplomata americano Peter W. Galbraith para ajudar na negociação de seu contrato com os curdos. No mês passado, o DNO indicou Khalilzad para o seu conselho de diretoria.

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Corredor passa em frente de complexo habitacional para trabalhadores ocidentais em Erbil, região no Curdistão Iraquiano
Conforme os americanos encerram seu esforço bélico no Iraque, Khalilzad está entre a lista crescente de ex-diplomatas e ex-militares americanos que agora perseguem oportunidades de negócios na região curda ou na qualidade de assessores do seu governo. Alguns visitam regularmente, enquanto outros chamam a região e sua capital em plena expansão, Erbil, de casa. Os curdos os tratam como celebridades.

A região curda pode ser o único lugar no Iraque onde os americanos ainda são acolhidos como libertadores. As autoridades se vangloriam do fato de nenhum americano ser atacado em um lugar que tem desfrutado de relativa segurança.

Os críticos dizem que esses ex-oficiais estão lucrando com uma guerra cara e controversa na qual tiveram algum papel. Na sua própria opinião, no entanto, eles têm todo o direito de buscar o sonho americano depois de terem deixado seus postos no governo. De qualquer forma, os negócios e a política são inseparáveis em uma região dominada por dois partidos e famílias governantes, que foram acusados de estabelecer um governo autocrático e corrupto.

Muitos dos ex-oficiais americanos que viraram empresários também se tornaram defensores da causa curda, incluindo o direito ao estabelecimento de um Estado, algo que contraria a política declarada dos Estados Unidos de preservar a unidade do Iraque e manter distância de todos os grupos.

Os curdos, por sua vez, têm alavancado sua relação com os Estados Unidos, que em alguns casos remontam a décadas, transformando-a em uma máquina de lobby e relações públicas em Washington.

A região curda é responsável pelos dez principais compradores de serviços de lobby nos Estados Unidos, de acordo com a Foreign Lobbyist Influence Tracker, um projeto de acompanhamento da influência estrangeira no lobby nacional estabelecido pelos grupos ProPublica e Fundação Sunlight. "Eles adoram esses consultores aqui", diz Denise Natali, acadêmica e autora americana baseada na outra cidade principal da região, Sulaimaniya."Eles trazem atenção, reconhecimento e credibilidade."

A própria Natali tem aconselhado corporações como a America's Hunt Oil, uma das muitas companhias de petróleo estrangeiras que receberam concessões na região curda contrariando o governo central em Bagdá.

John Agresto, que atuou como conselheiro sênior para o ensino superior na Coligação da Autoridade Provisória após a invasão, ajudou a fundar uma universidade com o apoio de Barham Salih, atual primeiro-ministro da região. "A marca americana é muito bem-vinda aqui", disse Agresto. "Este é provavelmente o último lugar em todo o mundo onde George Bush ainda conseguiria ganhar uma eleição."

A maioria dos curdos é grata pela invasão liderada pelos americanos para derrubar o governo de Saddam Hussein e pelo apoio dos Estados Unidos à zona de exclusão aérea na década de 1990, que ajudou a estabelecer sua atual autonomia. Milhares de estrangeiros, incluindo muitos americanos, agora vivem e trabalham na região curda, apreciando um conforto que é raro no resto do país. "Nós os amamos", disse Haro Ahmed sobre os americanos.

Sua família é dona de um conglomerado imobiliário, cujos ativos incluem um shopping center em Erbil que poderia muito bem existir em qualquer subúrbio americano. Jay Garner, tenente-general aposentado que coordenou brevemente o esforço de reconstrução no Iraque após a invasão, diz que é precisamente essa atitude pró-americana, juntamente com a riqueza em petróleo da região e sua localização estratégica entre Irã, Síria e Turquia, que faz com que os curdos sejam os parceiros perfeitos no Iraque. "Não entendo por que não colocamos nosso braço ao redor deles", disse Garner.

No sétimo aniversário da queda de Hussein, em abril, Garner viajou para a região curda em um voo fretado acompanhado por analistas e executivos do petróleo. A visita incluiu reuniões com líderes curdos e um acampamento em Qara Dagh.

Em contraste com a estreita relação com os seus amigos americanos, a maioria deles oficiais da era Bush, os líderes curdos estão cada cada vez mais impacientes com o governo Obama, especialmente a pressão montante sobre os curdos para que façam concessões em uma disputa com Bagdá a respeito de fronteiras internas e o compartilhamento de recursos petrolíferos e de gás.

"As autoridades curdas estão frustradas com a gente", disse um diplomata americano, falando sob condição de anonimato. "Eles dizem: 'No minuto em que virarmos as costas, Bagdá nos apunhalará'."

Harry J. Schute Jr., ex-coronel que comandava um batalhão de assuntos civis no norte do Iraque após a invasão, e mais tarde tornou-se chefe de pessoal da Coligação da Autoridade Provisória no norte, diz que a região do Curdistão é o "garoto-propaganda" para o que a América tem tentando realizar no resto do Iraque.

"Não há muitos lugares no Oriente Médio onde eles estão dizendo 'nos escolham, nós queremos ser seus amigos'", disse Schute. Ele agora dirige uma empresa de consultoria de segurança em Erbil e faz parte do conselho da Vigilance, uma joint venture entre empresas de segurança americanas e britânicas e o próprio governo curdo.

* Por Sam Dagher

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