Em Nova York, ladrões profissionais furtam à moda antiga

Roubo conhecido como 'trabalho exuberante' tem como alvo pessoas bêbadas que cochilam no vagão do metro da cidade americana

The New York Times |

No mundo das estatísticas de criminalidade, há uma subseção para certas vítimas dos metrôs de Nova York: o folião que bebeu um pouco demais durante a noite e cochilou no vagão. Ele acorda com um furo nas calças e um vazio no lugar onde deveria estar sua carteira.

NYT
Policial (de pé, com a mochila) fica de olho em ladrões conhecidos como 'trabalhadores exuberantes' em vagão de metrô de Nova York

Essa vítima balança a cabeça em desgosto, entrando para a lista de vítimas de um criminoso tão antigo e estabelecido abaixo das ruas da cidade como as raízes das árvores. A polícia há muito tempo cunhou um nome para este criminoso: o lush worker, ou "trabalhador exuberante".

"Será que eles ainda existem?", perguntou o tenente Kevin Callaghan, um veterano que atua há 20 anos no Departamento de Polícia de Nova York. "Sim".

O "trabalhador exuberante" soa como um monstro em uma história de ninar, uma criatura curvada com uma lâmina de barbear na mão. Não bebam, jovens, ou ele vai te pegar.

Mas ele é realmente um homem de meia-idade ou mais velho, que faz isso há muito tempo. E é uma raça em extinção. "É como uma arte perdida", disse o tenente. "São caras da velha guarda que cortam bolsos. Eles estão chegando ao fim." E não parecem ter substitutos. "É como o técnico de conserto de televisores", disse Callaghan.

"Trabalhadores exuberantes" atuam na cidade pelo menos desde o início do século passado – sua espécie foi citada em artigos de crime do The New York Times em 1922, que os descreve como "quem escolhe os bolsos dos intoxicados. O antigo ‘ladrão de bêbado', mas com um novo nome". Embora o termo tecnicamente se aplique a qualquer um que rouba uma pessoa embriagada, a maioria dos policiais o usam apenas para esse tipo especial de ladrão, aquele que usa navalhas afiadas encontradas em qualquer loja de ferragens.

O Departamento de Polícia não tem uma estimativa aproximada de quantos "trabalhadores exuberantes" estão na ativa. Ele oferece um número exato: 109.

Isso é muito menos do que antigamente. O que sabemos sobre esses 109 criminosos? Entre eles há apenas duas mulheres e sua faixa etária é esmagadoramente da meia-idade ou mais velhos, alguns nascidos em 1947, 1943, 1938 e até, em um caso, 1931.

Todos já foram presos pelo trabalho exuberante, ou "lushing", desde 2006. Eles são persistentes. Um dos suspeitos presos na semana passada tinha 37 prisões anteriores. Esses caras gostam de esconder lâminas de barbear no cinto ou na dobra de seus chapéus, sapatos ou carteiras.

E eles se ocupam. "Isso acontece todo fim de semana", disse o oficial James Rudolph, do departamento de polícia de trânsito. "Eles cutucam a pessoa para ver quão inconscientes estão." Em seguida, pegam a ferramenta de trabalho. "É inacreditável que não cortem a perna da pessoa", disse ele. "São como cirurgiões com uma lâmina de barbear."

Seu comandante, o capitão Paul Rasa, disse que houve 15 prisões de "trabalhadores exuberante" no distrito de Rudolph esse ano e 35 queixas, que representam 28% de todos os pequenos roubos no transporte público em 2011.

Os números não consideram os furtos não reclamados. As vítimas, talvez compreensivelmente, muitas vezes, têm vergonha de prestar queixa por estar tão bêbadas que foram incapazes de notar o corte de suas calças feito por um homem que nasceu em 1931.

Ainda assim, como Callaghan disse, "o corte está em extinção". Por quê? Escolha uma teoria. Com vítimas exibindo US$ 500 iPads à vista ou desmaiadas com um telefone na mão, por que se preocupar com uma navalha e uma carteira?

Talvez o corte seja muito difícil. Rudolph acredita que os bons praticam em casa com manequins. E talvez os ladrões à moda antiga simplesmente não tenham a quem ensinar.

A polícia acompanha quem dentre os 109 está na cadeia e quando eles são libertados. Callaghan parece quase feliz em observar um rosto familiar no trem. "Eu digo, 'Oh, você está de volta’", disse. "'É bom ver você'."

Por Michael Wilson

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