Em Nova York, cochilar no metrô é possível; sonhar nem tanto

Especialista diz que raramente se chega ao segundo estágio do sono quando se está no metrô - e o primeiro estágio não é reparador

The New York Times |

Um trajeto qualquer no metrô de Nova York pode ser uma sobrecarga sensorial: músicos tocam por alguns trocados, condutores pedem que os passageiros não obstruam as portas e esses, por sua vez, ficam tão perto uns dos outros que se sujeitam a todo tipo de imagens, sons, cheiros e toques. Mas mesmo em meio a tudo isso, alguns nova-iorquinos conseguem adormecer.

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Brandon Foreman cochila com eletrodos escondidos sob o gorro em metrô de Nova York

Eles encontram seus assentos, o vagão começa a se movimentar e sua vibração faz com que pálpebras fechem, bocas bocejem e cabeças chacoalhem em um sono profundo.

Pessoas de fora de Nova York podem se perguntar como, em uma cidade que nunca dorme, tantos nova-iorquinos conseguem cochilar no metrô. Não há nenhuma lei contra isso, mas aqueles que resolvem tirar sonecas no metrô o fazem por sua própria conta e risco. Em uma reunião recente, o comitê da Autoridade Metropolitana de Transporte revelou como os criminosos que procuram iPhones cortam os bolsos dos passageiros adormecidos .

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Então será que esses cochilos realmente valem a pena?

Dr. Carl Bazil, o diretor da Divisão de Epilepsia e Sono do Hospital Presbiteriano de Nova York e do Centro Médico da Universidade de Colúmbia, se ofereceu para tentar descobrir.

Bazil, que estudou os padrões de sono durante 20 anos, diz que há cinco estágios do sono, com o primeiro estágio sendo o menos restaurativo. A bordo de um vagão do metrô a caminho do centro da cidade em uma manhã recente, Bazil tentou adivinhar em que fase do sono os cochiladores diante dele se encontravam. Ele disse que para alcançar o primeiro estágio do sono, as pessoas devem ser capazes de diminuir os movimentos de seus olhos. Para chegar ao segundo estágio do sono, precisam relaxar os músculos e parar de mover seus olhos completamente.

Conforme Bazil observava os cochiladores sentados à sua frente, ele notou que suas pálpebras tremiam quando as portas do trem se abriam. Os cochiladores também pareciam agarrar suas mochilas como se dependessem delas para viver.

"Eu suspeito que eles consigam chegar apenas à primeira fase do sono, que não será reparadora , disse. "É uma espécie de sono perdido."

A pedido de um repórter, Bazil colocou alguns fios em um passageiro sonolento para estudar suas ondas cerebrais enquanto tentava cochilar no metrô. O passageiro selecionado foi o Dr. Brandon Foreman, um pesquisador de neurologia de 30 anos de idade, cujo filho de dois anos de idade, Jude, ainda não consegue dormir durante a noite. Sendo assim, tão pouco consegue Foreman.

Mas ele observou como o metrô consegue fazer seu filho adormecer, e então, passou a tentar repetir os movimentos do trem quando coloca seu filho na cama.

Foreman não é estranho aos cochilos no metrô: ele começou a fazê-lo quando vinha do Brooklyn para trabalhar no hospital durante a sua residência médica e disse que valoriza qualquer dormida que consiga dar.

Ambos os médicos se reuniram no final de uma semana de muito trabalho. Foreman tinha passado praticamente quase todas as noites sem dormir para lidar com um resfriado de seu filho. Conforme Foreman bocejava, Bazil pediu para um técnico colocar 25 fios de plástico colorido na sua cabeça, conectando-os a um monitor um pouco maior que um iPod para acompanhar suas ondas cerebrais. Foreman então cobriu os fios e seu cabelo com um chapéu de inverno.

A dupla subiu em um metrô onde Foreman escolheu um assento em um canto tranquilo, Bazil sentou-se ao seu lado para fazer anotações. Quando o trem deixou a estação às 18h09, parecia improvável que Foreman iria conseguir dormir. A condutora do trem partiu como se estivesse treinando para a Formula1. Ela gritou pelos alto-falantes que seu trem estava atrasado e iria partir rapidamente de cada estação.

Por volta das 18h18, Foreman parecia estar caindo no sono. Ele primeiro segurou sua cabeça para cima e manteve os braços cruzados. Mas aos poucos deixou sua cabeça pender para frente e para trás ligeiramente. Então, sua cabeça caiu e ele cochilou até a estação da Rua 59 - sem dúvida, ajudado por uma corrida sem paradas até a Rua 125.

Após terem brevemente comemorado o que parecia ser um cochilo de sucesso no metrô, os médicos embarcaram em um trem com destino ao norte da cidade para ver se Foreman poderia cair no sono novamente.

Mesmo com o condutor mais calmo neste trem, Foreman não conseguia voltar a dormir. Quando um ambulante se pôs diante dele e gritou que estava vendendo quatro DVDs por US$ 10, Foreman abriu os olhos. "Sem chances."

Bazil ficou ainda mais satisfeito com os resultados quando analisou os dados obtidos das ondas cerebrais de Foreman. Ele descobriu que Foreman dormiu por 10 minutos em uma viagem de 23,5 minutos. Durante 3 minutos e meio, Foreman atingiu o segundo estágio do sono.

"Parece que é definitivamente possível obter pequenas quantidades de sono reparador no metrô -, mas apenas quantidades muito pequenas", Bazil afirmou. Ele acrescentou que alguns estudos mostram que "mesmo um breve cochilo, que inclui a segunda fase do sono pode melhorar o desempenho."

Mas Foreman não esteva tão convencido de que conseguiu dormir de maneira eficiente. "Eu não me sinto descansado", disse. "Não é como tirar uma soneca na minha cama."

Por Christine Haughney

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