Em nova era, Bahrein luta para honrar os mortos enquanto tenta servir os vivos

MANAMA ¿ Há uma grande discordância de valores aqui, como também existe toda uma região onde a fabulosa riqueza do petróleo e a influência tóxica da globalização frequentemente oprimem a hereditariedade e a tradição.

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Túmulos muitas vezes chegam à altura de casa de três andares

A questão que confronta esse pequeno arquipélago no Golfo Pérsico é: será que o Bahrein pode proteger a maior concentração de túmulos do mundo, que datam da Idade do Bronze, e ao mesmo tempo adequar-se às necessidades contemporâneas de seu povo? Será que o país consegue preservar o passado enquanto acomoda o presente?

As pessoas querem moradia, querem desenvolvimento, disse Al-Sayed Abdullah Alaali, um membro do parlamento. Eles querem tudo que seja relevante para suas vidas.

Em apenas algumas décadas, o petrodólar e a modernidade avançaram sobre os Estados Árabes do Golfo Pérsico, elevando o padrão de vida, e corroeram práticas que definiam a identidade da região há gerações. A pesca tradicional e a de pérolas foi substituída por petroquímicas e serviços financeiros. O inglês se sobrepôs ao árabe como um idioma de negócios. O artesanato tradicional se transformou em novidade. O pouco que havia da arquitetura do passado foi demolido para dar lugar aos atuais arranha-céus de vidro e aço.

É um conflito entre o velho e o novo, entre a identidade cultural e as evoluções recentes que a confrontam, entre a autenticidade e a modernidade, disse Ahmad Deyain, escritor e editor de uma região vizinha, o Kuwait.

O Bahrein é um conjunto de 36 ilhas no Golfo Pérsico, apesar de a maioria de seus 730 mil habitantes morar ao redor da capital, Manama. Há um século havia dezenas de milhares de covas que ligavam os cidadãos do Bahrein ao passado antigo das ilhas. Os túmulos se espalhavam sob o sol fervente, a maioria da altura de um carro, cobertos por pedras de ardósia entalhadas.

Geralmente, os habitantes dizem que há mais de 300 mil covas. Karim Hendili, conselheiro da UNESCO para o Ministério da Cultura, disse que o número é próximo de 85 mil.

Ele disse que há, no máximo, cerca de seis mil túmulos em cada um dos 35 campos de terra. Todos parecem concordar com esse número. E de acordo com Hendili, eles estão sob uma ameaça muito grande.

Antiguidade

Construído por habitantes da ilha de 2.500 d.C a 500 a.C, o local oferece uma imagem do que Hendili chamou de uma civilização perdida da Idade do Bronze. Acredita-se que o Bahrein foi capital de Dilmun, que fazia parte de uma rota de comércio que ligava o Vale do Indo à Mesopotâmia.

A maioria dos túmulos contém ao seu lado um mausoléu em forma de botas. O corpo era colocado em posição fetal e os pertences das pessoas, vasos de cerâmica, selos pessoais e facas eram armazenados no dedo do pé. O valor dessas construções não é necessariamente ligado ao seu conteúdo, mas pelo que elas contam sobre a vida, os valores e as práticas funerárias de uma antiga civilização.

Há um ditado aqui que diz: você não pode dar prioridade aos mortos. Você deve dar casa aos vivos, disse Hendili, que chama os túmulos de conjunto de sepulturas de Dilmun e Tylos.

Desenvolvimento

O Bahrein declarou independência à Grã-Bretanha em 1971. Pouco depois, o preço do petróleo foi cravado durante a guerra árabe-israelense de 1973. As reservas de petróleo do Bahrein eram pequenas em comparação às de seus vizinhos, mas fornecia combustível para um desenvolvimento rápido.

No entanto, seus líderes escolheram não usar a riqueza para definir o local, para marcar seu território e suas pessoas como distintas no tempo e na história, disseram especialistas. Por exemplo, a história islâmica é ensinada nas escolas, mas pouco da história antiga do próprio Bahrein é contada.

Há um valor que não pode ser afetado, disse Hassan Hujairi, 27, blogueiro local que viajou ao Japão para fazer o ensino superior em economia regional e história da economia. Tem a ver com nossa própria identidade, nossa herança. Se perdermos isso, este será como qualquer outro lugar.

A ministra da Cultura e da Informação, Mai Bint Mohammed al-Khalifa, está fazendo esforços para preservar e promover o passado do Bahrein. Ela contribuiu para o primeiro título de Patrimônio Mundial do arquipélago e também está trabalhando com Hendili para tentar colocar 11 dos 35 campos de sepulturas na lista de lugares considerados Patrimônio Mundial.

Mas com os túmulos ela confronta não apenas uma questão entre a existência e a preservação, como também o desafio dos interesses envolvidos. Na essência, isso se resume ao fato de que: os mais desprivilegiados do Bahrein tiveram de aceitar a maior parte do trabalho de preservar, porque os ricos e bem relacionados quase sempre tiveram permissão para construir nas terras das sepulturas.

Conflito de interesses

Mesmo aqueles que apoiam a preservação reconhecem que ficou difícil convencer as comunidades de baixa renda sobre o valor dessas sepulturas, ao mesmo tempo em que veem casas de pessoas ricas onde antes ficavam túmulos.

O problema é que é um jogo de interesses, disse Yousif al-Bouri, presidente do Conselho Municipal da Região Norte", uma sociedade que representa mais de 30 vilas. Há todos os avisos que dizem não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, e todos eles, de repente, são ignorados e os túmulos são retirados. Essas terras eram do governo e foram cedidas a pessoas bem relacionadas, que acabaram por vendê-las.

Bouri representa a vila de Bouri, a cerca de 16 quilômetros da capital. Uma estrada moderna leva você diretamente a outra vila, Aali, com uma população de cerca de nove mil pessoas. Ambas são de maioria xiita e fazem fronteira com imensos campos de sepulturas, que permanecem intactos.

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Pescadores conversam no porto de Manama

Há também um local de túmulos muito maior em Aali, chamado Royal Tombs (Tumbas Reais, em tradução livre), que são montanhas de areia e pedra muitas vezes maiores que uma casa de dois ou três andares. Parece que a Royal Tombs inteira foi saqueada e se tornou um monte de entulho há alguns anos. E a vila cresceu ao redor de seu campo.

A vila de Aali é o único lugar no mundo onde há a interação entre a vida contemporânea e elementos fúnebres da Idade do Bronze, disse Hendili. Mas acrescentou: sua proteção não é garantida.

O assunto dos túmulos dá aos xiitas uma percepção de que são cidadãos de segunda classe, discriminados pela elite dominante sunita. Eles dizem que é histórico e que não podemos removê-los. Mas em outros lugares, onde há pessoas com poder, eles podem retirá-los, disse Abbas Hamid Ali, 32, que mora próximo a uma das Royal Tombs.

Se nós removermos os túmulos, teremos espaço para carros, disse seu vizinho, Ali Hassan, 30.

Hendili e o ministro da Cultura, Khalifa, têm um pouco de apoio nas vilas. Mas pode ser que a confluência de interesses ¿ os ricos que querem vender sua terra e os pobres que precisam construir em seu território ¿ seja a força que prevaleça, disseram alguns especialistas. Aqueles a favor da preservação dizem que a estratégia do governo parece não adiantar, e esperam que o problema apenas se acabe.

O governo fechou os olhos para o assunto devido a interesses pessoais, disse Alaali, integrante do parlamento. Mas, de acordo com ele, isso deixa de lado um dos pontos mais importantes, de que o conflito não deveria ser resolvido com isso ou aquilo. O parlamentar afirma que a preservação e o avanço estão, de fato, dependendo um do outro. Alguém que não tem passado, não tem futuro, disse.


Por MICHAEL SLACKMAN

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