Em nome do Exército, americano abre mão de trabalho e família

Como muitos reservistas, Patrick Berry não estava preparado para problemas em casa e no trabalho ao ter de voltar para a guerra

The New York Times |

No início de 2008, Patrick Berry, que na época tinha 41 anos, decidiu que era hora de abrir a sua própria empresa. Ele era consultor financeiro, mas queria se concentrar em sua área de especialização, aconselhando empresas sobre seus planos de aposentadoria, ao mesmo tempo em que oferecia serviços de gestão de riqueza para seus executivos.

Ele tinha estabelecido sua carteira de clientes depois de ter sido chamado de volta à ativa como membro dos Seals da Marinha entre 2002 e 2004, e sentia-se confiante de que poderia providenciar a seus clientes um serviço melhor se tivesse seu próprio negócio.

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Patrick Berry, chamado duas vezes para a guerra na última década (23/02)

À medida que se preparava para deixar a empresa e abrir seu próprio negócio, Berry ouviu um boato de que seria chamado para servir uma segunda vez. Na verdade ele teria que ter um prazo de seis anos entre convocações, mas a duração das guerras do Iraque e do Afeganistão fez com que essa regra mudasse.

Berry, que hoje é tenente, ainda se parece com o mesmo garoto que serviu os Seals quando tinha 20 e poucos anos. Ele disse que poderia ter se aposentado do serviço e se livrado de sua reconvocação, mas afirmou que isso não teria sido ético. Ele também poderia ter permanecido na Smith Barney.

"Sabia que se precisasse sair depois de ter feito isso e voltado anteriormente, o gerente não teria gostado", disse ele no mês passado, sentado no convés do Midway, um porta-aviões que virou museu e foi ancorado na baía de San Diego. "Decidi que iria contratar alguém para administrar o meu negócio enquanto estivesse servindo, e assim não teria que me preocupar com o fato de alguém roubar meus clientes."

Enquanto Berry planejava sua mudança, os mercados financeiros começaram a ruir e o panorama se transformou no que viria a ser a pior recessão desde a Grande Depressão.

Havia ainda mais um problema: Berry tinha família - uma mulher que trabalhava em período integral e três filhas.

E assim, a vida de Berry estava prestes a entrar num período de muita pressão. Para ele, desta vez ele teria que escolher entre duas coisas que mais amava - os Seals da Marinha e sua família – além da pressão externa que estava sofrendo de clientes em dificuldades financeiras.

A Marinha atribuiu a ele a tarefa de reorganizar a força reservista dos Seals com ajuda de um reservista. Berry começava todas as suas manhãs com uma corrida na mesma praia onde havia passado por treinamento duas décadas antes. Em seguida, ele passava as próximas 12 horas aplicando suas habilidades como consultor financeiro para os membros dos Seals: ele ligava para os que possuíam as qualificações necessárias e tentava persuadi-los a voltar para o serviço. Com tantos membros enviados para o campo de combate, era necessário um pessoal de apoio baseado nos Estados Unidos que soubesse como o sistema funcionava.

Ao mesmo tempo, Berry contratou um assistente para ajudá-lo a manter contato com seus clientes financeiros. Com tempo apenas para dormir quatro horas por noite, ele teve pouco tempo para se dedicar à mulher e às filhas.

"Senti que estava sob uma enorme pressão", disse. "Ao mesmo tempo, o que eu sentia na Marinha é que se me divorciasse ouviria apenas um 'sentimos muito, mas nós vamos ganhar esta guerra e se você estiver vivo e divorciado é melhor do que se você morrer no campo de batalha'".

Este foi o momento crucial em que acabou priorizando suas atividades: a equipe dos Seals da Marinha veio primeiro lugar, em seguida, seus clientes e, por último, a sua família.

"Todo mundo quer ser dos Seals em um dia bom", disse ele. "No cansaço e no frio, será que você consegue se manter motivado mesmo sob tanto estresse?"

Na última década, cerca de 288.981 reservistas das Forças Armadas foram convocados novamente para o serviço, de acordo com um levantamento feito pelo Centro Manpower de Dados de Defesa.

Berry disse que achava que tinha aprendido muito com sua primeira convocação, mas que a complexidade da crise financeira e da situação com sua família provaram que ele estava errado. Seus problemas podem ter sido mais estressantes, pois seu escritório ficava a apenas 30 minutos da base, permitindo que ele achasse que conseguiria manter tudo sob controle.

"Uma das vítimas de tudo isso foi o meu casamento", disse Berry, que agora está enfrentando um divórcio. "Em retrospectiva, deveria ter ficado na Smith Barney e depois ter mudado de emprego quando estivesse de volta."

Mas de acordo com um lema dos Seals da Marinha - "O único dia fácil foi ontem" -, Berry tem se concentrado em seguir em frente com a sua vida empresarial e pessoal desde que voltou de sua convocação no final de 2010.

Seu principal interesse hoje parece ser o seu negócio, a Concert Retirement Plan Consulting. Ele e seu assistente foram capazes de mantê-la funcionando enquanto Berry estava fora e, no ano passado, tinham aumentado a receita em 40 %.

Claro, nem tudo se trata de negócios. Agora com 45 anos de idade, Berry disse que consegue arranjar mais tempo para suas filhas e ser o pai que sua esposa queria que fosse. Ele tem esperança de que conseguirá salvar seu casamento, mesmo que o divórcio ainda esteja em andamento.

Mas seu compromisso com os Seals da Marinha pode ser a parte mais difícil de controlar.

"Todos nós temos uma identidade, e a minha é que eu sou um Seal da Marinha", disse. "Isso é difícil de negar."

Por Paul Sullivan

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