Em Mumbai, restaurante para famintos sobrevive da caridade de quem passa

MUMBAI, Índia ¿ O Honda dourado encostou à beira da guia próxima ao restaurante em uma tarde silenciosa da semana passada. Um vidro abaixou. Uma nota de 100 rúpias, aproximadamente US$ 2,30, saiu da janela, cortesia de uma mulher com um lenço na cabeça que se identifica apenas como senhora Abbas. Então, com o silêncio com que se aproximou, o carro deixou o local.

The New York Times |

Dentro do restaurante Mahim Darbar, sete homens levantam sobressaltados: magros, doentes e com o s rostos cobertos de marcas. Mas esse é momento que eles esperavam. Abbas trouxe, de maneira essencialmente mumbaina, o almoço deles. 

O mundo está cheio de restaurantes de todos os tipos, de hambúrgueres a restaurantes três estrelas. Existem aqueles que você apenas pega o seu lanche e aqueles em que você se senta para comer. Entretanto, o mundo não está familiarizado com a variação existente em Mumbai: o café dos famintos.

É preciso uma cidade como Mumbai, oficialmente chamada de Bombai, frenética, de transação e misericordiosa, para criar refeitórios para os subnutridos. Esses restaurantes não são instituições de caridade, já que os cidadãos dessa cidade têm pouco tempo para servir comida a outras pessoas. Em uma cidade que não para de vender ações e filmes, ele preferem uma parada rápida pela benevolência.

Os cafés dos famintos existem há décadas em um trecho estreito de uma rua no bairro de Mahim. Mendigos e desempregados agacham-se em filas perfeitas na frente dos estabelecimentos, e esperam pacientemente. Tonéis de comida fervem silenciosamente atrás das portas. O que os separa da comida são os 25 centavos que devem ser pagos por cada prato - um obstáculo mais difícil de ser transposto do que muitos imaginam. Mas, quase sempre, um carro encosta e faz uma doação, e os homens podem comer.  

Erradicar a fome dessa maneira pode parecer cruel. Mas pode conter alguma sabedoria. Em qualquer outro lugar do mundo, doações são recolhidas em escolas e casas de oração que servem comida de graça em abrigos silenciosos. Ao menos, os homens podem sentar em restaurantes e não nas sarjetas.  

Entretanto, na Índia, com seus vestígios feudais de classes e castas, esse sistema de caridade pode não funcionar. Entre a inchada classe média, a caridade anônima do talão de cheque precisa entrar na moda. A caridade indiana é a caridade feudal: doar para aqueles que estão abaixo na hierarquia de poder


Caridade indiana

A caridade mais comum entre a classe média continua ser a de pagar a cirurgia de US$ 200 para o motorista ou educar os filhos da empregada. Essa é a maneira feudal de fazer caridade. Depende da maneira com o servo demonstra suas necessidades e do senso de obrigação paternalista do senhor feudal.

Abrigar esses homens com a intenção de proteger sua dignidade arriscaria deixá-los famintos, calcula os donos dos restaurantes. Eles acreditam que esses homens devem ser exibidos assim, submersos e tristonhos. Eles devem olhar os passantes com a obediência, desolação, com o olhar reverencial que os indianos bem-nascidos foram educados a esperar. Eles devem propagandear sua própria causa.

O restaurante recebe alguns homens (e somente homens) apenas uma vez. Esses são os que tropeçam na fome e saem rapidamente dela. Outros vêm por meses, homens que perderam o trabalho no mercado volátil que está substituindo o antigo modelo socialista de trabalhos vitalícios

Por fim, existem os regulares. Nesses restaurantes, não é um privilégio ser regular. É uma categoria composta basicamente por doentes e instáveis ¿ ou, como coloca o proprietário, aposentados mentais.

Raju Subachan, 30, usando um pano vermelho ao redor da cabeça, pertence à segunda categoria, os desempregados.

Ele veio dois meses atrás de Allahabad, no norte. Ele encontrou emprego em um bufê; transportava comida em ferry, sem jamais imaginar que um dia passaria fome. Mas Mumbai pode ser cruel. Bufês demitem empregados com a mesma facilidade com que contratam, e Subachan logo se encontrava sem rumo. 

Ele deixou claro, sentado no caminho da porta, que não era viciado em comida de graça. Durante meses sem trabalho, ele veio apenas três ou quarto vezes. Nesse dia, ele já tinha comido uma vez, ao meio dia, e aguardava a segunda refeição, que o deixaria satisfeito até a manhã seguinte. Foi quando o Honda dourado se aproximou e fez com que ele se levantasse.

Ele sentou-se sozinho, mergulhando seus dedos dentro da mistura amarela em seu prato. Ele comeu rápido e silenciosamente. Quando você come assim, com a sua dependência sendo e exibida para o mundo, a refeição não é algo para ser feito com demora.

Subachan levantou e lavou as mãos, e retornou para a liberdade e a solidão da cidade. 

Por ANAND GIRIDHARADAS

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