Em Misrata, soldados de Kadafi são enterrados com respeito por rebeldes

Opositores do governo dizem não querer agir como forças do ditador líbio e levam em conta valores do Alcorão para adeus a militares

The New York Times |

Os coveiros trabalharam metodicamente e com poucas palavras. Seu trabalho é uma rotina macabra.

Os cadáveres dos soldados de Muamar Kadafi, envoltos em lençóis de pano ou plástico, chegaram em caminhões. Os homens responsáveis pelo enterro polvilharam pó perfumado sobre a fronte ensanguentada ou queimada dos mortos. Então eles oraram e teve início uma silenciosa procissão.

Os coveiros colocaram cada cadáver sobre a areia e abaixaram-nos dentro de uma caixa de espera. Cada um foi colocado sobre o ombro direito, com o lado esquerdo do corpo para cima. Desta forma, todos os mortos estariam de frente para Meca. Finalmente os coveiros fecharam e cobriram as caixas. Então veio a espera pelo próximo caminhão, que traria mais.

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Coveiro prepara caixão de soldado leal a Kadafi para ser enterrado no cemitério de Misrata, na Líbia
A última formação dos soldados de Kadafi que mantém o cerco a Misrata está em um terreno solitário ao lado do Mar Mediterrâneo. Os coveiros têm estado ocupados. Somente em uma sexta-feira eles chegaram a enterrar 358 soldados.

Esse número reflete o custo humano dos militares da Líbia em seu esforço para dominar uma cidade que com a ajuda de aviões da Otan e materiais enviados por via marítima, até agora, lutam contra as tropas de Kadafi.

Assistido por homens religiosos, que impõem uma cultura de respeito e afastam os cães, o cemitério serve não apenas como um lugar de descanso, mas também como um testemunho em meio à guerra de uma distinção nenhuma força militar poderia desejar: a de um Exército que atacou uma das cidades do seu próprio país, apenas para enfrentar a derrota.

Ele também sugere a ambivalência dos rebeldes. O governo de Kadafi é odiado em Misrata. Os soldados que atacaram e saquearam a cidade são vistos como invasores e traidores.

Mas alguns moradores da cidade têm insistido que os restos mortais sejam tratados com dignidade. Aqueles que dirigem o cemitério local dizem que isso acontece porque muitos desses homens mortos foram forçados a lutar por seu governo, e foram alimentados com mentiras sobre aqueles contra quem lutaram.

E existem motivações mais profundas. Os rebeldes dizem que não querem agir como aqueles que os cercam, que observadores independentes e rebeldes dizem ter descartado de cadáveres de combatentes e manifestantes mortos no levante de maneira imprópria.

Rebeldes

Além disso, conforme a luta por Misrata se arrasta, os líderes religiosos da cidade se adiantaram e disseram ao governo interino dos rebeldes que não importa a ira do público, uma lei maior deve ser observada. "Na nossa fé, temos o livro", disse o xeque Abu Abdulhafiz Ghrain, o homem que supervisiona o cemitério e os ritos fúnebres dos soldados, sobre o Alcorão. "E esse livro nos diz que devemos fazer para os outros como gostaríamos que fosse feito a nós”.

Atrás dele estava o cemitério, com suas fileiras dispostas ordenadamente e os seus coveiros trabalhando no calor do meio-dia no deserto. O xeque fez um gesto para ele. "Somos muçulmanos e devemos fazer assim para todas as pessoas", disse. "Não só para nós, mas para os nossos inimigos, também”.

As pessoas que dirigem o cemitério pediram que sua localização exata não seja divulgada. Eles temem ataques dos militares de Kadafi.

O local foi bem escolhido, uma bacia entre as dunas, onde os fortes ventos que sopram do interior do Mediterrâneo em tardes quentes são desviados e suavizados.

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Corpos são enterrados voltados para direção onde fica Meca
Onde a população silenciosa do cemitério vai caber na contabilidade final dessa batalha não se sabe. O número exato de soldados de Kadafi perdidos perto Misrata não está estabelecido. Talvez nunca seja.

Mas dado que os rebeldes de Misrata capturaram mais de 230 soldados e cerca 358 estão enterrados aqui até agora, as perdas diretamente mensuráveis para os militares de Kadafi no cerco chegavam a 600 homens até o final da semana passada.

E considerando que a contagem de mortos incluI apenas os cadáveres recolhidos pelos rebeldes, e não o número de mortos e feridos retirados pelo Exército de Kadafi, os rebeldes estimam que o cerco custou a seu Exército e milícias pelo menos 2 mil homens, um número possível, ainda que não seja verificável.

Isso é especialmente verdade por causa do número de mortos confirmados – contido no registro do cemitério – é provavelmente menor do que a quantidade de mortos efetivamente recuperados pelos rebeldes.

Há relatos confiáveis em Misrata, de pessoas que pediram anonimato para evitar a retaliação e não perder seu acesso aos líderes rebeldes, que alguns combatentes eliminaram de os corpos de soldados de Kadafi mortos despejando-os no mar. Se os relatos forem verdadeiros, esse comportamento imitaria acusações que os rebeldes têm feito sobre o governo de esconder e contaminando os mortos rebeldes.

Os líderes rebeldes negam que seus combatentes tenham feito isso. "Isso não poderia acontecer", disse Salaheldin Badi, o comandante rebelde na cidade. "Se tivéssemos feito isso, o mar os teria trazido de volta. Os corpos teriam aparecido, mas isso não aconteceu”.

O litoral de Misrata abrange muitos quilômetros. A chance de que um observador independente encontre restos humanos na praia é muito pequena.

O xeque, por sua vez, não estava interessado em cálculos ou em discutir o que obrigou ele e outros líderes religiosos a criar um cemitério próprio e supervisionar os enterros. Ele tinha funções mais imediatas, disse. Um deles, segundo ele, era fazer um registro de cada homem morto.

Em uma sexta-feira recente, havia 303 túmulos de soldados de Kadafi cujos restos mortais estavam relativamente intactos. Cada um recebeu um número, correspondendo, Ghrain disse, aos documentos que incluíam uma fotografia de seu rosto. Esses homens estavam envoltos em um pano. Alguns dos restos mortais, o xeque disse, foram identificados através de documentos encontrados com eles.

A maioria não tinha nenhum. Outras 55 sepulturas contém os restos mortais de soldados Kadafi cuja condição era ruim demais para qualquer identificação. Entre estes estavam os homens que foram queimados, mortos em explosões ou em estado avançado de decomposição – uma mistura de soldados que foram destroçados por ataques aéreos da Otan ou que, após terem sido cercados pelos combates no centro da cidade, morreram em edifícios que foram reduzidos a escombros ou incendiados.

Eles foram encontrados muitas vezes uma semana ou mais depois que morreram, quando o mau cheiro levou os rebeldes até onde estavam. Estes homens estavam embalados em plástico. Em alguns casos, por causa do desmembramento, vários homens mortos compartilham uma vala comum, porque os coveiros não conseguem dizer que parte pertencia a cada corpo arruinado.

Muitos dos nomes daqueles que nesses buracos não serão descobertos. Os outros podem ter uma chance de ser encontrados se alguém sentir sua falta.

Registros

O cemitério, tal como concebido, é um lugar de repouso intermediário. Ghrain disse que os registros serão disponibilizados para as famílias dos militares líbios quando a guerra terminar, e que poderão olhar as fotografias e examinar os bens pessoais para tentar identificar parentes desaparecidos. "Quando essa guerra acabar, as famílias podem vir aqui e nós vamos ajudá-las", disse.

Atrás dele, os coveiros trabalham, enterrando cadáveres envoltos em plástico verde. Eles haviam sido encontrados nos escombros de edifícios e tinham provavelmente morrido há mais de duas semanas. Eles faziam parte de um grupo de homens que, mesmo quando foram encontrados por aqueles que os cercaram e mataram, podem permanecer para sempre desconhecidos em sua própria terra.

*Por C. J. Chivers

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