Em meio a surto de cólera, Haiti vive medo, miséria e esperança

Hospitais lotados, crianças e bebês contaminados e mais de 250 mortes marcam epidemia da doença no país caribenho

The New York Times |

Dentro do pátio do Hospital São Nicolau, além do portão com a placa manuscrita que avisa "Apenas Emergência de Diarreia", há uma cena desagradável, mas estranhamente ordenada no epicentro da inesperada epidemia de cólera do Haiti.

Dezenas de crianças e adultos estão deitados sobre todas as superfícies disponíveis, atormentados por distúrbios estomacais convulsivos ou lívidos de desidratação. Baldes foram colocados a seus lados, soluções intravenosas gotejam em seus braços. A vida está por um fio, mas ainda assim há uma calma sóbria e quase assustadora no ar.

É por isso que Martila José se destacou. Na segunda-feira, com lágrimas descendo por seu rosto enquanto ela balançava sua filha envolta em rosa, quieta demais em seus braços. "Eu não sei se minha filha vai sobreviver", ela disse, enquanto a esposa de outro paciente sacudia a cabeça.

"Você chegou ao hospital", disse a esposa do outro paciente. "Isso significa que você a salvou".

Zona de contágio

Na verdade, o tratamento tem conseguido salvar mais de 90% daqueles que chegam a uma clínica e é por isso que as autoridades de saúde se concentraram em reforçar os hospitais locais e centros de combate à cólera em toda a região de Artibonite. Esta é, no momento, a zona de alto contágio, onde as bactérias devem ser atacadas de maneira agressiva antes que se espalhem.

Autoridades internacionais de saúde salientaram que é praticamente impossível prever o padrão do surto. Mas a segunda-feira foi um dia relativamente bom: apenas seis mortes por cólera foram registradas no período de 24 horas.

Mais de 200 morreram da infecção bacteriana aguda da epidemia nos primeiros dias. O número de mortos conhecido é atualmente de 259, com mais de 3 mil casos, deles apenas 450 não são da área de Artibonite.

Profissionais médicos e suprimentos estão chegando para ajudar o governo haitiano, que ainda se recupera do terremoto de janeiro. Ao norte da cidade de Saint- Marc, uma brigada médica cubana, há muito estacionada no hospital da comunidade em L'Estere, foi ampliada para 28 médicos e enfermeiros, e tropas bolivianas estão construindo uma clínica de combate à cólera com 100 leitos.

Rapidez

Gerda Pierre descreveu como seu filho de 4 anos de idade, Gasner, começou a vomitar logo após a meia-noite. "Muitas pessoas na nossa vizinhança morreram de diarréia e vômito", disse Pierre, olhando rapidamente para o lado. "Mas eu não estou preocupada. Eu me apressei e o trouxe aqui o mais rápido que pude".

*Por Deborah Sontag

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