Em meio a escândalo, conservadores britânicos temem laços com Murdoch

Premiê David Cameron pode querer rever relação estreita com magnata, que inclui contratos com membros da família e executivos

The New York Times |

Quando David Cameron se tornou primeiro-ministro em maio de 2010, um de seus primeiros visitantes - que chegou em menos de 24 horas e pela porta dos fundos, de acordo com jornais britânicos - foi Rupert Murdoch.

Quatorze meses depois, com o império de mídia de Murdoch abalado na Grã-Bretanha, Cameron pode sentir que sua relação estreita com o australiano, que incluiu uma série de contatos sociais com membros da família Murdoch e altos executivos ligados ao magnata, pode custar caro.

Tais preocupações foram intensificadas com a prisão de Andy Coulson , o ex-editor do News of the World que renunciou ao cargo de porta-voz do premiê em janeiro deste ano. Cameron contratou Coulson em 2007, depois que diversos escândalos abalaram o jornal. E ele o defendeu repetidamente mesmo quando as evidências de que Coulson esteve envolvido na prática de escutas telefônicas do jornal se acumularam.

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Rupert e Wendi Murdoch chegam para conferencia em Sun Valley, Idaho, nos EUA (7/7)
Alguns dos adversários políticos de Cameron analisaram a aceitação de Murdoch como um erro que poderia combinar com outros tropeços recentes do governo de Cameron que podem debilitar o Partido Conservador do primeiro-ministro. Mas esses críticos, incluindo o líder do opositor Partido Trabalhista, Ed Miliband, têm de lidar com o fato estranho de que os trabalhistas já foram tão intimamente ligados a Murdoch durante os 13 anos em que a Grã-Bretanha foi conduzida pelos antecessores de Cameron, como Tony Blair e Gordon Brown.

Desde que ele começou a construir seu império de mídia na Grã-Bretanha, há 40 anos, Murdoch tem sido uma figura de alta importância política, creditado por muitos políticos britânicos com o poder de fazer e desfazer governos, assim como influenciar políticas governamentais que afetam o destino de seus jornais e seus interesses na televisão.

Murdoch tem usado sua influência para tentar frear os poderes dos órgãos reguladores da comunicação social no país e ampliar seu controle sobre a emissora dominante na televisão por assinatura, a BSkyB, algo que ainda está sendo avaliado pelo governo britânico. Mas ele também tem expressado opiniões fortes sobre questões de significado mais amplo, como o flerte dos políticos britânicos com a ideia de abandonar a libra pelo euro, uma ideia a que Murdoch se opôs veementemente.

Influência

Sua decisão de mudar o apoio de seus jornais britânicos para Cameron e os conservadores no ano passado, depois de três eleições do lado dos trabalhistas, segundo muitos analistas políticos, fez uma diferença crucial no retorno dos conservadores ao poder. Da mesma forma, quando abandonou os conservadores em favor dos trabalhistas em 1997, muitos dizem, ele ajudou a criar o apoio que manteve Blair no cargo ao longo da próxima década.

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Rupert Murdoch, dono da News Corporation, que detém o News of the World (foto de arquivo)
Essa influência, incomparável a qualquer outra figura fora da política, pode ter sido danificada pelo escândalo da prática de escutas telefônicas do tabloide News of the World, o altamente lucrativo jornal de cerca de 2,7 milhões de cópias diárias no domingo – mais do que qualquer outro na Grã-Bretanha.

Por enquanto, porém, Murdoch e os executivos da News International, sua subsidiária que controla o jornal e participações de televisão na Grã-Bretanha, podem estar menos preocupados com o impacto que o escândalo possa ter sobre a sua influência política do que sobre os desafios legais mais imediatos que irão enfrentar.

A decisão da empresa de fechar o News of the World não vai terminar o escrutínio das práticas do jornal por parte da polícia, dos tribunais e do Parlamento - além de um painel público de investigação que Cameron prometeu criar. Juntas, essas investigações parecem propensas a criar uma inquisição que pode durar anos, causando uma maior erosão da credibilidade da marca Murdoch e custando milhões à News International em potenciais acordos legais.

Os processos por si só são uma perspectiva assustadora o suficiente, com a Scotland Yard dizendo que os nomes e números de telefone de até 4 mil pessoas apareceram como potenciais alvos de escutas nas notas apreendidas com o investigador particular que foi contratado pelo News of the World.

Além da investigação criminal sobre as escutas telefônicas, uma equipe de investigadores da Scotland Yard está examinando os registros entregues pela News International que revelam que que o jornal pagou cerca de US$ 160 mil para um punhado de policiais subalternos durante a editoria de Coulson, um padrão que poderia levar a acusações de suborno. A Comissão Independente de Reclamações Policiais anunciou que começará uma investigação sobre o assunto, mais uma iniciativa que irá manter o News of the World nas notícias por muito tempo depois que o jornal fechar as suas portas.

Além disso, o juiz do caso ordenou a News International a entregar documentos que possam esclarecer se a equipe de gestão sabia sobre a prática de escutas telefônicas e optou por fechar os olhos para ela porque o lucro conseguido com as histórias sensacionais superariam possíveis danos. Se for provado, isso poderia dar às vítimas direito a indenização.

Rebekkah Brooks

Os registros sobre o pagamento da polícia não cobrem o período em que Rebekah Brooks, chefe-executiva da News International, editou o jornal. Brooks reconheceu em depoimento perante o Parlamento em 2003 que o jornal pagava policiais para obter informações, uma prática que Coulson descreveu como sendo "dentro da lei". Mas Brooks depois voltou atrás e disse que não sabia de nenhum incidente específico.

Os principais membros do Parlamento, incluindo o líder trabalhista Miliband, pediram a demissão de Brooks por causa das revelações de que os repórteres do tablóide que ela supervisionou como editora invadiram a caixa postal de Milly Dowler, uma adolescente sequestrada que posteriormente foi encontrada morta.

Murdoch tem apoiado Brooks, com seus executivos dizendo que ela estava de férias na época do desaparecimento de Milly, e ele disse que ela continuará a liderar as investigações dentro da News International sobre o escândalo das escutas telefônicas.
Mesmo assim, o escândalo que causou, no Parlamento e entre o público, a deixou em uma posição precária, e ela agora enfrenta a probabilidade de mais perguntas sobre os pagamentos à polícia terem ocorrido durante o período em que era editora.

"Títulos não grampeiam telefones, as pessoas o fazem", disse Mark Lewis, o advogado que representa os pais de Milly.

Mas apesar de todas as dúvidas sobre Cameron conseguir superar o escândalo, Murdoch tem sido um alvo muito maior. Simon Hoggart, colunista do Guardian, descreveu o alívio entre os políticos britânicos ao ver o império de Murdoch humilhado.

Durante anos, os membros do Parlamento "foram aterrorizados pela imprensa de Murdoch – aterrorizados em perder o seu apoio, apavorados, em alguns casos, que suas vidas privadas pudessem ser expostas", escreveu ele. "Mas isso já passou. A News International passou do limite e os políticos estão sentindo, como prisioneiros políticos depois que um tirano é condenado à morte por um tribunal popular, que estão finalmente livres”.

*Por John F. Burns e Jo Becker

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