Em meio à disputa republicana pela Casa Branca, nasce uma amizade

Apesar de campanha marcada pela agressividade, Ron Paul e Mitt Romney mostram amizade que pode ser decisiva

The New York Times |

Certa vez houve um desafio para um jogo de softball entre o clã de Ron Paul e o clã de Mitt Romney. "Eles não apareceram", disse Paul. "Não foi nada muito programado, mas realmente tiramos um sarro deles a respeito disso: 'Vocês ficaram com medo!'"

Quando o jato da campanha de Paul quebrou no ano passado em Wolfeboro, New Hampshire, a mulher de Romney, Ann, se ofereceu para deixar Paul, um assessor e uma de suas netas passarem a noite em sua casa de verão no lago Winnipesaukee. Quando Romney chegou mais tarde, ele ofereceu seu avião para levá-los para o Texas. Paul, não querendo atrapalhar, ficou muito grato, mas recusou ambas as ofertas.

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NYT
Ron Paul e Mitt Romney se cumprimentam antes de debate em Sioux City, Iowa (15/12/2011)

Em uma disputa presidencial republicana conhecida por sua agressividade, a relação entre Romney e Paul se destaca por sua civilidade nos bastidores. É uma amizade que, de acordo com Paul, Romney tem se esforçado para cultivar. A questão é saber se é também uma tática que poderia ajudar a Romney em sua luta para capturar os 1.144 delegados necessários para vencer a indicação.

As semelhanças ideológicas entre os partidários de Rick Santorum e Newt Gingrich sugerem que, caso Gingrich saia da disputa, muitos de seus apoiadores irão passar a apoiar Santorum. Mas à medida que Paul tem constantemente conquistado o apoio de novos delegados, uma coisa que está para ser vista é se essa sua afinidade - pelo menos no aspecto pessoal - com Romney poderia ser benéfica para o ex-governador de Massachusetts.

Paul, um congressista de 76 anos nascido no Texas, vê seus três rivais republicanos como mais ou menos a mesma coisa, politicamente falando. Ele chega a ser muito duro com Romney, a quem descreve como um candidato com um núcleo político duvidoso.

"Ele tem parecido um pouco incerto em relação a muitos assuntos", disse Paul em uma entrevista recentemente feita perto da sua casa no Texas. Mas ele parece conseguir separar bem esse seu ponto de vista de seus sentimentos pessoais em relação a Romney, a quem vê como um indivíduo de personalidade firme e digna cuja devoção à família reflete seus próprios valores. "Converso com o Romney mais do que com os outros candidatos de uma maneira muito amigável", disse Paul.

Em uma entrevista à emissora CBS no fim de semana passado, Paul contou que, apesar de seus rivais serem em grande parte idênticos em certas políticas, “quando sobrarem apenas os três, provavelmente vai ser uma questão mais do estilo de gestão de cada um do que qualquer outra coisa." De acordo com uma pessoa que está acompanhando a campanha de Paul de perto, seria correto deduzir que a expressão estilo de gestão demonstra que ele está disposto a ouvir as aberturas de Romney, que vem tentando vender-se aos eleitores como um ótimo administrador.

A relação entre os dois está enraizada em parte no fato de que eles são veteranos da disputa pela indicação, já que ambos concorreram em 2008. E isso se traduziu em ligações crescentes entre suas famílias, depois de terem participado de dezenas de debates, primárias e convenções.

As mulheres dos candidatos, Ann e Caroll, "se conhecem melhor do que qualquer das outras mulheres", disse Paul. Uma vez ele telefonou para Romney na mesma hora em que Romney estava tentando falar com ele. "Nunca tenho certeza de quem foi que ligou primeiro", disse ele.

Paul já deu alguma ajuda tática à Romney: Quando Romney começou a ir mal no debate da Carolina do Sul e estava sob ataque à respeito de sua carreira, Paul se posicionou em sua defesa, sugerindo que seus críticos eram anticapitalistas. Sua campanha chegou a emitir um comunicado de imprensa atacando outros rivais que, na visão de Paul, usaram a citação de Romney sobre a demissão de funcionários fora de contexto.

O que não está muito claro é o quanto, e em quais circunstâncias, Paul deverá fornecer qualquer ajuda mais concreta novamente para Romney. Seus assessores disseram publicamente que Paul está empenhado em ganhar a indicação. Mas hoje os dois estão em desacordo a respeito do resultado das primárias em Maine, nas quais os oficiais Estaduais do Partido Republicano disseram que Romney foi o vencedor por uma margem relativamente pequena sobre Paul, embora alguns lugares ainda não tenham votado.

Assessores de Paul disseram que o texano quer influenciar o partido, a plataforma e o candidato ao cargo em uma série de questões, como trazer de volta o Ato Patriota e um maior escrutínio sobre o Federal Reserve (Banco Central americano). Mas não se sabe muito bem quão longe qualquer candidato poderá se comprometer com os conceitos de Paul.

Nesse meio tempo, Paul tem lentamente conquistado delegados, e agora se demonstra uma ameaça à Gingrich. E os seus apoiadores planejam atender às convenções estaduais do partido para conquistar mais delegados em Estados como Iowa, Maine e Minnesota, que provavelmente irão dar mais força nos esforços de Paul na disputa pela indicação.

Existem também os incríveis recursos financeiros de Paul, que ele pode implementar conforme os outros candidatos se esforçam para arrecadar dinheiro nesta longa disputa para a indicação. Jesse Benton, o presidente de sua campanha nacional, disse que a campanha estava prestes a conseguir arrecadar quase US$ 10 milhões no primeiro trimestre de 2012, em quantidades diárias entre US$ 30 mil e US$ 50 mil, aumentadas ocasionalmente por "injeções de dinheiro”. É um valor menor do que os US$ 13 milhões arrecadados no quarto trimestre, porém maior do que os US$ 8 milhões do terceiro trimestre.

Os sentimentos de Paul em relação a alguns dos outros candidatos que competiram nesta fase da eleição são um pouco mais complicados. Ele serviu no Senado quando Gingrich foi presidente da Câmara na década de 1990, mas eles nunca tiveram uma relação particularmente direta.
"Pessoalmente, nunca chegou a ser uma relação ruim, mas ele nunca foi apoiar os esforços da minha campanha quando concorri para minha vaga no Senado," disse Paul. "Mas eu nunca levei isso muito para o pessoal."

Uma vez, porém, quando Gingrich ainda era o presidente, Paul disse ter recebido um elogio. Paul e outros congressistas republicanos estavam em uma reunião onde Gingrich inclinou-se sobre eles para passar o orçamento. Gingrich "passou a lei" para os outros parlamentares, mas acrescentou: "A única pessoa que não terá que votar é Ron Paul."

Gingrich, então, disse qual era o motivo pelo qual ele não iria forçar Paul a votar: "Não quero que o seu pessoal fique me incomodando".

Se seu "pessoal" irá fazer qualquer coisa parecida em relação à Romney, caso ele seja eleito como candidato, permanece uma questão em aberto.

Por Richard A. Oppel Jr

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