Em escombros, passado soviético do Afeganistão fica para trás

Enquanto se deparam com construções da era soviética em Cabul, americanos e seus aliados confrontam seu próprio legado

The New York Times |

Tão pungente em seu imperialismo quanto em sua falta de perspectiva, a piscina da era soviética que fica no Monte da Piscina é um símbolo tão bom quanto qualquer outro dos duvidosos legados deixados para trás por um império.

Construída há 30 anos e quase nunca utilizada por nadadores da cidade de Cabul, a piscina foi cercada por arame farpado e primeiramente utilizada como posto de combate pelos soviéticos e depois pelo Taleban, antes de ser bombardeada pelo Ocidente na invasão de 2001.

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NYT
Trampolins de piscina em Cabul, um resquício da era soviética (29/01)

Hoje restaurada, seus cinco trampolins ficam à mercê de uma piscina vazia e de uma cidade que está passando por mais uma etapa da precária história deste país: a retirada de seus mais recentes ocupantes estrangeiros , os Estados Unidos e seus aliados.

Assim como a piscina, Cabul tem muitos vislumbres de seu passado soviético escondidos da vista de todos em suas montanhas: uma escola politécnica construída na década de 1960 ou uma fábrica de automóveis que foi expandida depois de 1979, quando o Exército soviético tentou fazer com que esta nação ficasse mais submissa ao poder do Kremlin e seu modo de pensar.

Os soviéticos se retiraram em 1989, deixando o Afeganistão em meio a uma guerra civil que destruiu muitos dos edifícios construídos na época em que a União Soviética controlou a região. No entanto, alguns deles ainda são habitados, como uma escola de engenharia, o Instituto Auto Mecânico.

Outros são simplesmente escombros hoje habitados pelos sem-teto, drogados e cachorros – assustadores artefatos com os quais os Estados Unidos e seus aliados estão se deparando à medida que percebem que também podem ter contribuído para deixar condições como esta para trás.

"Os soviéticos vieram acreditando que iriam reinventar e reorganizar esta sociedade, libertando assim os afegãos de sua qualidade de vida primitiva", disse Sir Rodric Braithwaite, um ex-embaixador britânico em Moscou, cujo livro "Afgantsy" fala sobre a ocupação soviética no país. "Eles não transformaram a sociedade afegã e nós tampouco iremos transformá-la."

Em uma noite recente na piscina, cinco policiais em uniformes azuis estavam aproveitando sua folga, dançando em círculos perto da piscina. Descansando perto da piscina estava Harun Merzad, 34, um desempregado que usava um chapéu preto e uma jaqueta G-Star Raw. Ele falou sobre a partida dos soldados americanos e a dos soviéticos antes deles com indiferença.

“Não tenho nada de ruim para falar sobre eles", disse, sobre os russos. "Apenas que eles eram infiéis."

Por Graham Bowley

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