Em distrito do Afeganistão, americanos são vizinhos de dia e soldados à noite

BARAKI BARAK ¿ Enquanto a administração de Obama envia milhares de tropas adicionais para o Afeganistão, o futuro da estratégia dos EUA para proteger o país já parece perdido nesses verdes campos de trigo e pomares, a 64 km de Cabul.

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Soldados invadem casa à procura de insurgentes, no Afeganistão

Nos últimos cinco meses, uma tropa de soldados americanos se estabeleceu no coração da maior cidade do distrito, vivendo ao lado de policiais e funcionários públicos, tentando fazer amigos enquanto lutavam para acabar totalmente com os inimigos.

De dia, os soldados patrulham o mercado do lado de fora das cercas de arame farpado, falando com mercadores e comprando suas mercadorias. Eles contrataram 36 homens locais como trabalhadores diários e guardas de segurança. Além disso, conseguiram mais de US$ 2 milhões para melhorar as estradas locais, escolas e prédios do governo.
À noite, a tropa retoma o trabalho da guerra, conduzindo patrulhas armadas e invasões a casas, à procura de combatentes insurgentes e construtores de bombas. Por mais difícil que seja os soldados tentam separar militantes de civis que lhes fornecem abrigo, seja por escolha própria, seja sob a mira de uma arma. Mas, como os soldados da Able Troop estão descobrindo que suas duas missões podem fracassar às vezes.

Em uma noite recente, soldados americanos e forças de segurança do Afeganistão invadiram quatro casas na vila Pabkhuab-e- Rowghani, prendendo sete homens. Mas soltaram os detidos um dia depois, determinando que nenhum deles eram insurgentes. Vários dos capturados trabalhavam no mercado onde os soldados às vezes faziam compras, disseram suas esposas.

As pessoas não estão felizes com essas invasões noturnas, disse Yasin, Ludin, chefe do distrito de Baraki Barak. Mas ele acrescentou que os moradores tolerariam intrusões que fornecessem mais segurança ¿ e até agora, de acordo com ele e com outros civis, elas têm funcionado.

Estabelecer pequenos fortes em centros populacionais como Baraki Barak é algo central para a nova política afegã, recentemente desenhada pelo general Stanley A. McChrystal, o comandante das forças aliadas no Afeganistão. De acordo com as lições de contra-insurgência aprendidas no Iraque, a estratégia pede que se limpe as cidades de inimigos combatentes, e então continuar no local para treinar a polícia, estimular o crescimento econômico e fortalecer o governo local.

Mas os oficiais militares seniores reconhecem que em troca o Taleban pode ganhar influência nas populações rurais e regiões montanhosas. Com cerca de 130 mil moradores, Baraki Barak era um forte ponto de insurgência há um ano, quando ataques de foguetes em delegacias aconteciam quase todas as noites. Atualmente, os ataques são raros, dizem os residentes. Agora, os mercadores ficam abertos até escurecer, e o chefe do distrito que havia fugido para Cabul retornou ao local. Os americanos estão construindo novos escritórios governamentais adjacentes para postos avançados do exército.

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Soldados americanos prendem sete homens durante buscas por insurgentes

No ano passado, não podíamos ficar aqui até tão tarde, disse Malaam Zahir, 55, enquanto bebericava seu chá em uma noite do lado de fora de sua padaria na cidade. Podemos trabalhar agora. A província sudeste de Logar também era um paraíso no qual os insurgentes organizavam missões contra Cabul, capital afegã. Aqueles ataques declinaram desde que os EUA colocaram cerca de 2.700 soldados da 3ª Brigada de Combate, 10ª Mountain Division, em Logar e na província djacente Wardak, no começo do ano, disseram oficiais afegãos e americanos.

Ainda assim, a situação está longe de estar segura em Baraki Barak. Dispositivos explosivos improvisados são descobertos quase todos os dias nas estradas do distrito. As patrulhas americanas aparecem regularmente no mercado. Uma escola para garotas foi incendiada recentemente. E militantes insurgentes entram e saem de vilas afastadas quase sempre impunes.

Em alguns casos, moradores de vilas ajudam insurgentes porque apoiam a causa, enquanto outros fornecem abrigo por causa de ameaças. Mas muitos ou talvez a maioria daqueles que ajudam insurgentes, o fazem apenas por dinheiro, dizem oficiais americanos. Por essa razão, os soldados dos EUA estão estimulando a entrada de dinheiro na economia local o mais rápido possível.

Eles carregam um RPG por US$ 150, disse o coronel David B. Haight, comandante da Força Tarefa Espartana, força americana em Wardak e Logar, referindo-se a um tipo de foguete que atira granada. Estou tentando fazê-los carregar uma pá por US$ 150. Provavelmente há um cara que está trabalhando para nós agora e que na semana passada era um inimigo.

Nas noites de invasão em Pabkhuab-e-Rowghani, separar insurgentes de civis não é uma tarefa simples.

Oficiais dos EUA chamaram o alvo de intimidador que financia ataques a bomba na beira da estrada e ameaça os civis que cooperarem com os americanos. Mas não tinham uma fotografia dele e tinham que rastrear seus movimentos usando equipamentos sofisticados de vigilância.

O plano deles exige uma abordagem soft knock (batida leve) diferente das invasões agressivas que os oficiais americanos reconhecem ter alienado muitas pessoas no Iraque e no Afeganistão.

Após andar sorrateiramente ao longo de canais de irrigação a luz das estrelas, para encontrar uma área com cercada, a polícia nacional afegã golpeia a grade de metal até que um homem em um pijama branco aparece. Atrás dos policiais estava um pelotão de soldados da Able Troop cujo oficial no comando, um primeiro-tenente, gritava ordens por meio de um intérprete.

O afegão e as forças americanas fizeram buscas em quatro casas antes de mandar os detidos para serem interrogados em uma base americana, quando o muezim começava a chamar para as rezas do amanhecer.

Mais tarde, os investigadores americanos descobririam que seu alvo havia escapado algumas horas antes de a polícia e os soldados chegarem.

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3ª Brigada de Combate detém homem durante incursão noturna no Afeganistão

Embora não tenha havido chutes nas portas ou pessoas feridas, mais tarde alguns soldados americanos questionaram se as invasões teriam alienado mais do que protegido os moradores.

Os detidos, muitos descalços, foram forçados a se sentar ou se ajoelharem em um chão sujo durante as buscas de sala em sala, e após várias horas no frio, alguns estavam tremendo tanto que seus dentes rangiam. Mulheres e crianças assustadas acordavam e iam para o pátio junto a vacas e cabras.

Ainda assim, muitas mulheres questionadas por um intérprete disseram que estavam agradecidas que os americanos tivessem acompanhado os policiais afegãos. Sozinhos, eles nos roubariam, disseram as mulheres.

O major Todd Polk, comandante da Able Troop, parte do 3º esquadrão, 71º Regimento da Cavalaria, disse que se encontraria com anciãos da vila se eles tivessem reclamações sobre as invasões, mas não souberam de nenhuma.

Polk disse que pensava que os civis queriam aceitar algumas intrusões se pensassem que isso significasse mais segurança. Ele disse que uma noite após a missão em Pabkhuab-e-Rowghani as forças americanas e afegãs entraram em uma extensão de terra próxima a uma vila e capturaram um homem que seria um suposto militante sênior da Al-Qaeda.

Se eles não virem pessoas sendo paradas e revistadas, não se sentirão tão seguros, disse Polk. Poderíamos sentar aqui em nosso posto e apenas fazer patrulhas e nunca chegar a lugar algum, apenas levando tiros e nos matando.


Por JAMES DAO

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