Em Davos, Rússia e China culpam capitalistas por crise financeira

DAVOS - Os líderes dos antigos bastiões do bloco comunista subiram ao palco de Davos na quarta-feira para culpar seus irmãos capitalistas de levarem o mundo à crise mas também para garantir que, trabalhando em conjunto, podem restaurar a ordem econômica mundial.

The New York Times |

No discurso oficial de abertura do Fórum Econômico Mundial, o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir V. Putin falou sobre uma "tempestade" financeira que dizimou o antigo sistema, tornando-o obsoleto.

"Há um ano, delegados americanos falando deste púlpito enfatizaram a estabilidade econômica americana e sua perspectiva desanuviada", ele disse. "Hoje, bancos de investimento, o orgulho de Wall Street, praticamente deixaram de existir".

Mas os danos vão além de Wall Street, ele afirmou. "Todo o sistema de crescimento econômico, no qual um centro regional imprimi dinheiro sem parar e consome riquezas materiais, enquanto o outro centro regional produz produtos baratos e economiza dinheiro impresso por outros governos, sofreu um enorme golpe".

O premiê chinês, Wen Jiabao, também deixou poucas dúvidas de que Pequim culpa os Estados Unidos pela crise. "Políticas macroeconômicas impróprias", um "modelo de desenvolvimento insustentável caracterizado pelo prolongamento de poucas economias e alto consumo", a "cega busca por lucro" e a "falha na supervisão financeira" contribuíram para isso, ele disse.

Como Putin, ele foi otimista em relação ao futuro e demonstrou vontade de trabalhar em conjunto com o Ocidente para resolver problemas econômicos em comum.

Wen quis garantir os investidores que a China irá se recuperar. "Eu posso lhes dar uma resposta definitiva", ele disse sobre a perspectiva de que a economia do país se fortaleça. "Sim, nós iremos. Temos total confiança nisso".

Ele afirmou que o governo chinês estabeleceu um objetivo de crescimento de 8% este ano, que qualificou de um "alvo alcançável através de muito trabalho". Ele mostrou estatísticas mostrando que empréstimos bancários e investimentos, depois de um grande desaceleramento no outono, voltaram a subir em dezembro e janeiro.
"O rígido inverno irá passar e a primavera está logo ali", disse Wen.

Em seu discurso de 30 minutos, Putin mostrou a Rússia como uma confiável parceira em energia, negócios e política apesar da crise econômica, que diminui os índices de crescimento do país e reduziu drasticamente seus lucros do petróleo, uma grande exportador. "Nós não podemos ser isolacionistas ou economicamente egoístas", disse Putin, acrescentando: "Estamos todos no mesmo barco".

Em dezembro, Putin proferiu duras palavras contra os Estados Unidos. Na quarta-feira, no entanto, ele adotou um tom mais conciliador, dizendo que não irá se prender à questão de quem é o culpado e sim falar em "interesses mútuos" e "dependências mútuas".

"Esperamos que nossos parceiros na Europa, Ásia e América (e também estou me dirigindo à nova gestão, lhes desejamos sorte) estejam dispostos a cooperar de forma construtiva", ele disse.

Alguns russos presentes afirmaram que a dependência de Moscou dos investidores ocidentais (a bolsa de valores russa está em baixa de 70% de seu auge, por exemplo) pode ter um papel central na posição menos combativa de Putin.
Wen admitiu que os chineses estão sentindo os efeitos da crise econômica.

"Nós enfrentamos muitos graves desafios, inclusive a notável diminuição da demanda externa, a capacidade excessiva em alguns setores, condições de negócios dificultadas para empresas, o aumento do desemprego em áreas urbanas e maior pressão sobre o crescimento econômico", disse Wen.

Diante do panorama econômico para este ano, especialistas financeiros disseram que a opção dos líderes em adotarem um tom mais comprometido ao invés da recriminação é uma escolha sábia.


Por CARTER DOUGHERTY e KATRIN BENNHOLD

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