Em Cuba, mudança significa mais do mesmo, com o controle no topo

HAVANA ¿ Quando o presidente de Cuba, Raúl Castro, começou uma das grandes mudanças no governo em décadas, no começo deste mês, ele explicou a medida como simplesmente uma tentativa de organizar o governo.

The New York Times |

Mas, na verdade, a demissão de meia dúzia de funcionários importantes ¿ incluindo dois ministros conhecidos internacionalmente que causaram um escândalo ¿ mostrou que sob o poder de Raúl Castro, políticas e decisões devem permanecer tão centralizadas e firmemente controladas como sob a presidência de seu irmão, Fidel.

Ao invés de desmantelar o sistema socialista de Cuba, parece que Raúl Castro está tentando fazê-lo funcionar de forma mais eficiente. Ele arrumou, por exemplo: o sistema de saúde e de educação, ambas as áreas que tiveram problemas nos últimos anos. Enquanto Fidel colocava professores jovens e sem experiência nas salas de aula, Raúl está tentando atrair professores aposentados de volta ao trabalho. O presidente também substituiu médicos que foram mandados para a Venezuela em troca de combustível de baixo custo, para que a ilha não ficasse com falta de cuidados médicos em algumas áreas.

No ano passado, Castro dispensou dois oficiais notáveis ¿ Felipe Perez Roque, ministro do Exterior, e Carlos Lage, vice-presidente e, na verdade, czar da economia ¿ antes da realização do Congresso do Partido, o primeiro em muitos anos no qual um líder cubano terá que unir muito apoio para seus planos. Ao fazê-lo, ele parece querer consolidar o controle sobre a economia, que está em ruínas, e o diálogo de Cuba com os Estados Unidos, o qual espera-se que aumentará sob a presidência de Barack Obama.

Oficiais cubanos disseram que Perez Roque e Lage se tornaram visíveis demais e transmitiam a políticos estrangeiros falsas esperanças sobre como o país mudaria e quem ficaria no controle de seu poder. As fontes se recusaram a ser mais específicas.

Os homens também estavam socialmente envolvidos com o cidadão cubano chamado Conrado Hernandez, que gravava clandestinamente suas conversas durante festas regulares em seu rancho em Matanzas. Algumas dessas conversas, as quais oficiais cubanos recentemente encontraram, incluíam críticas insolentes e piadas de mau gosto sobre vários líderes do governo, incluindo Fidel e Raúl Castro.

Hernandez, que serviu como ligação da ilha entre o governo cubano e interesses de negócios na região Basca da Espanha, foi detido por mais de um mês, de acordo com oficiais cubanos, porque ele supostamente passava as gravações para oficiais da Inteligência espanhola, afirmação que a embaixada da Espanha em Cuba nega inflexivelmente.

Os oficiais falaram sob condição de anonimato, porque não estavam autorizados a falar com repórteres.

Nas ruas de Havana, capital do país, as pessoas pareciam se importar menos com as agitações políticas e mais em saber se as mudanças fariam alguma diferença em suas vidas.

A política aqui é um esporte cujos espectadores são todos cegos, disse um homem enquanto varria perto da praia e que, como a maioria dos entrevistados, não queria ter seu nome mencionado. Todos sabem que algo está acontecendo. Ninguém tem certeza do que. Então você para de tentar assistir.

As pessoas dizem que têm visto pequenas melhoras na economia que não vão longe o suficiente. Muitas estradas em Havana foram reformadas. Micro-ondas, tocador de DVD e telefones celulares estão agora nas lojas, mas a maioria dos cubanos não pode bancá-los.

A nação ainda importa mais de 80% do que consume, e Raúl Castro está tentando encorajar a plantação, dando terras desocupadas para aqueles que querem trabalhar nela. Mas o dinheiro que podem ganhar vendendo comida permanece abaixo do que é necessário para pagar por instrumentos e mão-de-obra necessários para começar uma fazenda.

Castro enfrenta uma difícil estrada pela frente. No ano passado, três furacões custaram a Cuba US$ 10 bilhões, ou 20% de seu PIB. Os salários permanecem baixos, a comida tem preços altos e a moradia é escassa. Os garçons, com acesso a dólares, ganham muito mais que físicos. O turismo aumentou no ano passado, mas o preço máximo de exportação de Cuba caiu 41%.

Algumas pessoas acreditam que Castro precisa fazer muito mais do que diferença. Financeiramente, o efeito desses passos em Cuba é pequeno, disse Luis Rene Fernandez, especialista de política estrangeira na Universidade de Havana. Apenas abrir o turismo para todos os americanos e acabar com o embargo terá um impacto mensurável.

Muitos cubanos estão depositando suas esperanças para a economia no abrandamento de restrições antigas da administração de Obama, quanto a viagens familiares e transferência de dinheiro para Cuba, o que ele deve anunciar nos próximos dias.

Nesse meio tempo, enquanto o embargo americano continua, empresas estrangeiras estão aumentando gradualmente sua presença em Cuba. Brasil, China e Rússia se juntaram à busca por petróleo nas águas cubanas, no Golfo do México.

Por IAN URBINA

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