Em Cuba, amantes de charutos são salvação econômica

Festival do Tabaco de Havana reúne visitantes de diversos países para palestras, degustações e visitas a plantações do governo

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Simon Chase, um sábio britânico do mundo dos charutos, examinou produtos da safra de 1970 no salão de um elegante hotel da capital cubana, diante de um seleto grupo de aficionados e atestou sua qualidade.

Um sinal óbvio, segundo ele, era o estilo e a qualidade do selo usado na caixa. Outro, era a cabeça antiquada dos charutos, ligeiramente arqueadas, ou "cabezas tumbadas".

O grupo murmurou com interesse e acendeu seus charutos, utilizando tiras de cedro para evitar a contaminação do produto com o fluído de isqueiros. Uma leve fumaça acinzentada subiu pelo ar e um breve silêncio tomou conta da sala conforme eles consideravam solenemente os charutos de US$ 90.

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Participantes de festival enrolam seu próprio charuto, em Havana
A degustação de alguns dos mais dedicados conhecedores do tabaco cubano aconteceu durante o Festival do Tabaco de Havana, um encontro anual de cinco dias com grandes recepções, palestras e visitas a plantações organizadas pela Habanos S.A., uma companhia do governo cubano e da empresa Imperial Tobacco da Grã-Bretanha.

O evento, grande parte do qual aconteceu em um antiquado centro de convenções da década de 70, um local de um luxo um tanto surreal em um país que, após cinco décadas de regime comunista, é uma mistura ímpar de exuberância tropical e os rigores do socialismo. Os cubanos são fumantes inveterados - homens e mulheres fumam enormes "tabacos" que custam cerca de US$ 0,04. Mas, com salários de cerca de US$ 20 por mês, poucos ilhéus podem pagar até mesmo pelos habanos mais baratos, cujos preços de varejo no mercado internacional podem chegar a US$ 80 cada.

Ainda assim, a venda de charutos para estrangeiros ricos ajuda a trazer ao país a moeda forte que o governo precisa para financiar programas de saúde e educação, por exemplo. Em um jantar de luxo que encerrou o festival na sexta-feira, os organizadores esperavam arrecadar até US$ 1 milhão para o sistema cubano de saúde pública através do leilão de umidificadores.

"Se você gosta de charutos, Havana é o que Jerusalém é para um cristão: a Terra Santa", disse Bryan Ng, dono de um bar de ostras em Hong Kong em sua primeira visita a Cuba.

Cerca de 1,2 mil varejistas, distribuidores e entusiastas reuniram-se na capital cubana na última semana de fevereiro para confraternizar e saciar a vontade pelo que muitos consideram o melhor tabaco do mundo. Entre eles estava um punhado de americanos amantes do charuto, que vieram através de países terceiros ou viajaram em licenças religiosas ou humanitárias, chegando a tempo para o festival.

Proibição nos EUA

A venda de habanos é proibida nos Estados Unidos sob o embargo comercial imposto a Cuba, mas a companhia diz que responde por cerca de 80% dos melhores charutos vendidos no resto do mundo.

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Ariadna Gomez experimenta tabaco cubano perto de imagem de Fidel Castro, no festival da capital Havana
Paulo Segal, que fumou o seu primeiro charuto em Cuba, em 2003, quando estava em uma viagem humanitária para ajudar a comunidade judaica da ilha, estava em sua quarta visita ao festival, trazendo consigo medicamentos e outros suprimentos. Em casa, em San Diego, ele fuma charutos cubanos apenas ocasionalmente, quando alguém lhe dá o produto de presente.

"Eu sou louco e obcecado por charutos", disse ele durante uma aula na qual centenas de participantes aprenderam a enrolar seus próprios charutos. "Ver todo o processo de fabricação, desde a semente até as folhas e a fábrica de charutos, é algo muito legal".

A questão de saber se o enorme mercado de charutos americano será aberto em breve pairou sobre o festival. Funcionários da Habanos disseram não esperar nenhuma mudança na política americana, apesar da recente decisão de continuar a aliviar as restrições às viagens de americanos à Cuba.

Chase, um consultor que trabalhou no comércio de charutos cubanos durante décadas, disse que Cuba poderia, em teoria, atender a demanda dos Estados Unidos se isso fosse permitido. Qualquer perda de prestígio que resultaria de deixar de ser um produto proibido seria compensada pelo acréscimo das vendas, disse ele. "Acabar com o embargo causaria algum transtorno, mas Cuba conseguiria lidar com isso", disse ele. "Os charutos cubanos não têm concorrência".

As vendas dos habanos "foram atingidas nos últimos anos pela crise econômica mundial e a difusão das restrições ao fumo em países como a Espanha, seu maior mercado. Mas a empresa estava otimista esta semana, dizendo que as vendas subiram 2% no ano passado, chegando a US$ 368 milhões, e que a China ultrapassou a Alemanha como seu cliente número três.

A empresa, que detém marcas famosas como Cohiba, Partagas e Romeo y Julieta, apresentou alguns charutos menores esta semana, que poderiam ser fumados com mais rapidez por aqueles que são forçados a sair dos estabelecimentos para consumir o fumo.

O festival é um paraíso para os fumantes que reclamam da proibição de fumar em espaços fechados. Os participantes fumam durante concursos de sommelier, almoços e palestras sobre os produtos, envolvendo salas de conferência e cafés em uma neblina espessa de fumaça.

Degustações

Os participantes realizaram degustações às cegas, em que especialistas tentavam identificar os charutos não rotulados, e em outras sessões que também disponibilizavam rum e charutos de chocolate. Chase chegou a dar uma aula de 45 minutos para uma sala de conferências lotada sobre a história dos tubos de alumínio utilizados para embalar charutos cubanos - um relato mais vivo do que o assunto poderia sugerir. "É uma semana intensa: muita cafeína, muito tabaco" e pouco sono, disse Alex Iapichino, advogado italiano que foi o anfitrião das degustações particulares.

Na quarta-feira, a confraria de apreciadores definiu que o charuto de 40 anos de idade tinha sido bem preservado. Tratava-se de uma fumaça redonda, eles disseram, que reteve alguns aromas delicados.

Iapichino observou o grupo ao redor, uma mistura excêntrica de uma dúzia países diferentes, que incluía um homem japonês que segurava seu charuto em um suporte de metal para proteger os dedos.

"Este é o único lugar onde eu consigo compartilhar charutos com todas essas pessoas juntas", disse ele. Quando deixar Cuba, seus charutos evocarão os cheiros e os sons da ilha, disse ele. "Como Churchill afirmou certa vez, eu sempre tenho Cuba nos meus lábios", disse sorrindo.

*Por Victoria Burnett

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