Em cidade da Índia, desenvolvimento enfrenta governo ineficiente

Em Gurgaon, crescimento econômico é resultado de um setor privado que improvisa soluções para superar as deficiências do governo

The New York Times |

Na cidade de Gurgaon, que quase não existia há duas décadas, há 26 centros comerciais, sete campos de golfe e lojas de luxo que vendem Chanel e Louis Vuitton. Nas concecionárias, novos carros Mercedes-Benz e BMW reluzem. Prédios de apartamento estão aparecendo em todo lugar, como ervas daninhas de concreto, enquanto um shopping futurista conhecida como Cyber City é o lar de muitas das empresas mais respeitadas do mundo.

New York Times
Local conhecido como Cyber City em Gurgaon, subúrbio de Nova Délhi, Índia
Gurgaon, localizada a aproximadamente 39 quilômetros ao sul da capital do país, Nova Délhi, pareceria ter de tudo se não se considerasse o que ela não tem: um sistema de esgoto em toda a cidade, fornecimento confiável de eletricidade ou água, calçadas, espaços de estacionamento suficientes, ruas aceitáveis ou um sistema de transporte público.

O lixo é ainda regularmente despejado em terrenos baldios ao lado da estrada. Com seus edifícios elegantes e economia galopante, Gurgaon é frequentemente apresentada como o símbolo de uma “nova” Índia, mas também representa um enigma no centro do rápido crescimento do país: como uma cidade pode se tornar o novo motor da economia internacional sem serviços públicos básicos? Como um país enorme pode flertar com um crescimento de dois dígitos, apesar da corrupção, ineficiência e disfunção generalizada do governo?

Em Gurgaon e outras partes da Índia, a resposta é que o crescimento tende a ocorrer, apesar do governo e não por causa dele. Em Gurgaon, o crescimento econômico é frequentemente o resultado de um setor privado que improvisa soluções para superar as deficiências do governo.

Para compensar a falta de energia, as empresas e incorporadoras de Gurgaon operam geradores imensos capazes de alimentar pequenas aldeias. Não há água? Eles abrem poços particulares. Não existe transporte público? As empresas contratam centenas de ônibus privados e táxis. Preocupado com a criminalidade? Gurgaon tem quatro vezes o número de policiais em seguranças.

"Podemos chamar a cidade de os Estados Unidos de Gurgaon", disse o ativista cívico Sanjay Kaul, que critica a falta de planejamento da cidade e argumenta que Gurgaon é um número ímpar de ilhas privadas interconectadas e não uma cidade. "Você está por conta própria."

Gurgaon é um dos distritos de mais rápido crescimento na Índia, tendo crescido mais de 70% na última década para mais de 1,5 milhão de habitantes, mais do que a maioria das cidades americanas. A cidade corresponde a quase metade de todos os rendimentos de seu Estado, Haryana, além de ter adicionado 50 mil veículos às estradas só no ano passado.

Os preços dos imóveis subiram acentuadamente em uma cidade que se tornou um motor de crescimento, mas também é uma dor de cabeça colossal como um lugar para viver e trabalhar.

New York Times
Indiano é visto sentado em lodo e lama dentro de tanque de água na vila de Nathapur, nos arredores de Gurgaon, um subúrbio de Nova Délhi, Índia
O nascimento da bonanza

Antes de ter shopping centers, parques temáticos e elegantes complexos residenciais, Gurgaon tinha vacas azuis. Pelo menos foi isso que disseram a Hushal Pal Singh durante os anos 1970, quando ele começou a descrever sua visão de desenvolvimento para Gurgaon.

A cidade era uma comunidade agrícola, cujo nome, que deriva do épico hindu “Mahabharata”, significa "aldeia de gurus". Tinha também animais silvestres, como vacas, conhecidas por sua incomum coloração azulada. "Muitas pessoas me disseram que eu estava louco", lembrou Singh. "Elas diziam: 'Quem vai querer ir lá? Há vacas azuis por toda parte."

Em 1979, Singh tinha assumido o controle da empresa imobiliária de seu sogro, conhecida como DLF, em um momento em que o desenvolvimento urbano na Índia era amplamente controlado por agências governamentais. Na maioria dos Estados, as empresas privadas tinham pouco espaço para operar, mas Haryana foi uma exceção.

Os empreendedores construíram a estrutura de seus projetos, enquanto uma agência estatal, a Autoridade de Desenvolvimento Urbano de Haryana, ou ADUH, deveria construir a infraestrutura que une a cidade.

Lentamente, Singh começou a acumular um pouco mais de 1,4 mil hectares em Gurgaon, que dividiu em lotes e começou a vender a pessoas que não podiam arcar com os preços de Nova Délhi. De qualquer maneira, o crescimento foi lento até depois de 1991, quando o governo indiano mal conseguia pagar sua dívida externa e começou a introduzir reformas econômicas no mercado.

A terceirização de empregos de diversos países para a Índia exigia não apenas milhares de profissionais, mas espaço comercial. Gurgaon tinha vantagens: era perto do aeroporto de Nova Délhi e de uma fábrica da Maruti-Suzuki que já operava no local desde a década de 1980. No entanto, Gurgaon ainda parecia distante, e a imobiliária DLF precisava de uma grande empresa que assumisse o risco de se mudar para lá.

A resposta foi a General Electric. Singh havia se tornado o representante da empresa na Índia, após tornar-se amigo de Jack Welch, o presidente da GE. Quando Welch decidiu transferir algumas operações de negócio para o país ele acabou por abrir um escritório da GE em um parque empresarial em Gurgaon, em 1997. "Quando a GE veio, outras empresas seguiram", disse Singh.

Ilhas privadas

São 8h de uma terça-feira recente, troca de turno na Genpact, a descendente da GE e uma das maiores empresas de terceirização em Gurgaon. Duas longas filas de veículos brancos e carros esportivos esperam no estacionamento, luzes de emergência amarelas piscando nas primeiras horas da manhã, enquanto os trabalhadores pouco a pouco deixam os centros de atendimento ao cliente para entrar nos veículos que os levarão de volta para casa.

New York Times
Tráfego no local conhecido como Cyber City em Gurgaon, subúrbio de Nova Délhi, Índia
Esses veículos representam a frota de transporte privado da Genpact, que é uma necessidade, dada a ausência de um sistema de transporte público em Gurgaon. Da sala de controle informatizada, funcionários da Genpact gerenciam 350 motoristas particulares, que viajam um total de cerca de 96,6 mil quilômetros por dia, transportando 10 mil funcionários.

Os funcionários reservam online diariamente o seu transporte e recebem um email ou mensagem de texto com "passes" para o veículo que lhe foi atribuído. No estacionamento, uma grande tela LED anuncia as listas de carros e seus passageiros. Confrontada com constantes interrupções no fornecimento de energia elétrica, a Genpact tem o apoio de geradores a diesel que são capazes de produzir energia suficiente para operar o resort por cinco dias (ou eletricidade suficiente para cerca de 2 mil famílias indianas).

O prédio tem tratamento de esgoto e um correio, que usa apenas empresas de transporte privadas, pois o serviço postal local não tem pessoal suficiente e não é confiável. Além disso, tem uma clínica médica, com uma ambulância particular, e mais de 200 seguranças particulares e cinco veículos de patrulhamento da região.

Também há caixas eletrônicos, um quiosque de telefone celular, um serviço de cafeteria e uma academia particular. "É uma cidade completamente funcional", disse Naveen Puri, Gerente da Genpact. Na verdade, é uma ilha particular, uma das muitas em Gurgaon.

"Nós absorvemos praticamente todo o peso do que seria de se esperar que muitos Estados fazem", disse Pramod Bhasin, que renunciou nessa primavera (no Hemisfério Norte) ao cargo de CEO da Genpact. "O problema – um grande problema – é que os nossos serviços públicos estão sempre alguns anos atrás, mas às vezes uma década inteira. Nossos processos de planejamento muitas vezes só existem no papel.”

Mas nem todas as ilhas da cidade são ricas. Estima-se que Gurgaon tenha 200 mil trabalhadores migrantes, a população chamada de flutuante, que trabalham na construção civil ou como domésticas.

Mesmo nas margens das zonas mais afluentes de Gurgaon, são facilmente vistas grandes poças de esgoto. O abastecimento de água é realmente insuficiente, deixando empresas privadas, construtoras e residentes dependendo de poços que drenam o leito subterrâneo. Ativistas locais dizem que o lençol freático está caindo cerca de 3 metros por ano.

Mas, de qualquer forma, o processo de transferência de postos de trabalho está prosperando em Gurgaon. No ano passado, uma associação de destaque determinou que essa transferência foi responsável, direta ou indiretamente, por cerca de 500 mil empregos em Gurgaon. As empresas estão atrás de Gurgaon em busca de espaço comercial na cidade mais moderna, mais abundante e mais barata que Nova Délhi.

Além disso, Gurgaon é um ímã para profissionais indianos mais bem educados e que falam inglês, a matéria-prima fundamental para a terceirização. Tentando acertar o passo, Sudhir Rajpal, o comissário magro e bigodudo da nova Corporação Municipal de Gurgaon, tem uma longa lista de tarefas: consertar estradas, esgotos, rede elétrica, transporte público, escassez de água e a falta de planejamento.

A Corporação Municipal foi fundada em 2008, e Rajpal, tendo assumido o principal posto administrativo da cidade há alguns meses, vem realizando inúmeras reuniões destinadas a convencer as pessoas de que o governo pode resolver os seus problemas. Não é fácil vender a ideia.

New York Times
Indiano toma banho em duto de água comunitário na vila de Nathapur, nos arredores de Gurgaon, um subúrbio de Nova Délhi, Índia
Em Haryana, os construtores fazem doações a campanhas políticas e exercem um enorme poder. Seus críticos dizem que há corrupção desenfreada. Muitas construtoras têm ignorado promessas de construção de parques e outras amenidades. Entretanto, as agências estatais como a ADUH operam com pouca transparência.

Líderes civis dizem que o orçamento da agência tinha mais de US$2 bilhões destinados à infraestrutura de Gurgaon, mas que não resultaram em um único benefício para a cidade. "Eles usaram esse dinheiro para outras coisas", disse Sanjeev Ahuja, um jornalista veterano em Gurgaon. "O governo quer que o setor privado cuide da cidade: ‘As pessoas são ricas. Se elas precisam de água, elas podem comprar água’."

Alguns esperam que o novo conselho da cidade de Gurgaon, eleito em 13 de maio para supervisionar a Corporação Municipal, pode criar uma voz política para a cidade que seja capaz de forçar uma ação. Com o tempo, espera-se que a Corporação Municipal assuma a responsabilidade pela prestação de serviços em Gurgaon, embora alguns moradores tenham receio da mudança.

Santosh Khosla, consultor de tecnologia da informação, cuja família mudou-se para Gurgaon em 1993, tem serviços prestados pela construtora DLF. Segundo ele, a DLF violou várias promessas e oferece apenas um serviço aceitável de fornecimento de água e eletricidade. De qualquer forma aceitável é melhor do que nada. "Tenho a certeza de que se o governo assumir, tudo piorará", concluiu.

* Por Jim Yardley

    Leia tudo sobre: índianova délhigeneral eletricMercedes-Benzbmw

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG