Em cidade arrasada pelo tsunami, japoneses mantêm esperança

Em Rikuzentakata, mais de 1 em cada 10 moradores morreu ou desapareceu desde o terremoto do dia 11 de março

The New York Times |

Na tarde da sexta-feira de 11 de março, a equipe de natação da Escola de Ensino Médio Takata andou mais de um quilômetro para treinar no Parque Aquático quase novo da cidade, com vista para a ampla praia de areia da Baía de Hirota.

Essa foi a última vez que alguém viu um deles. E esse tem sido um quadro familiar: na cidade de Rikuzentakata, de 23 mil habitantes, mais de 1 em cada 10 pessoas morreu ou desapareceu desde aquela tarde, quando um tsunami demoliu três quartos da cidade em poucos minutos.

AFP
Casal anda em meio a destroços da cidade japonesa de Rikuzentakata, completamente arrasada pelo terremoto
Mais de 20 dos 540 alunos da Escola Takata ainda estão desaparecidas. Assim como o treinador de natação Motoko Mori, 29 anos.

Monty Dickson, 26 anos, de Anchorage, no Alasca, ensinava inglês para alunos do ensino fundamental e médio. Ele também está desaparecido.

A vida continua em Rikuzentakata, tanto quanto a vida pode continuar em um lugar onde 4 em cada 10 habitantes vivem em acampamentos, com suas antigas vidas destruídas. Mas muitos residentes parecem existir em uma espécie de animação suspensa, apegadas a fantasias de um milagre que possa reuni-las com sua família, ainda que à espera do pior.

Futoshi Toba, 46 anos, prefeito da cidade, está entre essas pessoas. Naquela tarde de sexta-feira, ele subiu ao terceiro andar da prefeitura quando a onda caiu sobre o prédio e apagou praticamente tudo, incluindo sua casa. "Eu perdi minha esposa", disse ele em uma conversa no centro de emergência improvisado nas colinas fora da cidade. E calmamente acrescentou: "Talvez".

As estatísticas oficiais indicam que o tsunami matou 775 pessoas em Rikuzentakata e deixou 1,7 mil desaparecidos.

Na verdade, um passeio pelos escombros que vão até a cintura, um terreno de um quilômetro de comprimento e talvez outro de largura, deixa poucas dúvidas de que "desaparecidos" é um eufemismo.

No centro de desabrigados, uma parede foi tomada por rabiscos que pedem ajuda para encontrar amigos e parentes desaparecidos. Fotos impressas em papel comum foram colocadas em uma parede adjacente.

Preces

"Os amigos da creche esperam que você esteja OK", diz a legenda sob uma foto. "Vovó e Vovô, nós estamos rezando por vocês”, diz outra.

Os moradores da cidade dizem que ainda é possível que alguns dos desaparecidos estejam perdidos em um dos mais de 60 centros de desabrigados de Rikuzentakata, onde mais de 9,4 mil cidadãos – ou cerca de 40% da cidade – procuraram abrigo.

Semanas após o tsunami, isso parece difícil de acreditar. Mas em uma cidade que precisa de esperança, as pessoas acreditam assim mesmo.

*Por Michael Wines

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