Em busca de respeito, árabes encontram uma voz

No Egito e no Oriente Médio, ideia de identidade árabe comum ultrapassa diferenças entre países que descobriram força em protestos

The New York Times |

No Iêmen, os gritos de guerra invocavam a Tunísia, a um continente de distância. Um jornal libanês declarou que todo o Oriente Médio estava assistindo o Egito. Um poema de um famoso poeta norteafricano morto há muito tempo tornou-se o hino de um momento que muitos chamam de revolucionário.

Desde os ataques do dia 11 de setembro de 2001, conflitos têm colocado o Ocidente contra o mundo árabe, conforme a guerra no Iraque e no Líbano, o conflito entre Israel e Palestina e as políticas do governo Bush forjavam narrativas grandiosas sob o lema "eles contra nós". Na semana passada, quando mais protestos irromperam no Iêmen, Jordânia e Egito, e os Estados Unidos mantiveram-se largamente à margem, a luta no Oriente Médio tornou-se firmemente sobre o "nós".

Reuters
Iemenitas protestam contra o governo na capital do país, Sanaa (29/1/2011)
Pela primeira vez em uma geração, não é a religião, nem as aventuras de um único líder, nem as guerras contra Israel, que energizaram a região. Em todo o Egito e no Oriente Médio, uma noção um tanto nostálgica de uma identidade árabe comum, entrelaçada com uma sensação visceral do que equivale a uma vida digna, está gerando os protestos que consolidaram a região em busca de um destino comum.

"A experiência da Tunísia vai continuar a orientar o Egito e pode fazer o mesmo pelas pessoas no Iêmen, no Sudão e no resto do mundo árabe, que procuram mudança com disponibilidade para aceitar o risco, especialmente tendo em conta que mesmo as piores possibilidades são melhores do que o status quo", escreveu Talal Salman, editor do jornal Al-Safir, na sexta-feira.

O grito de guerra do Egito deixa isso ainda mais claro, fazendo um trocadilho com antigos cânticos islâmicos que ditam que "o islã é a solução". "A Tunísia é a solução", eles gritavam.

Diferenças

Ao contrário da Europa Oriental, cuja antiga ordem foi dissolvida rapidamente em 1989, os países árabes são distintos em suas ideologias e governos, embora muitas vezes compartilhem as mesmas queixas de seus cidadãos e algum grau de apoio dos Estados Unidos. Mas raramente houve qualquer momento em que o Oriente Médio se sentisse tão interconectado, seus governos tão impopulares e a maioria esmagadora dos árabes concordasse com a necessidade de mudança, mesmo que alguns se preocupem com as consequências em um lugar onde as alternativas à ditadura foram implacavelmente esmagadas.

O Oriente Médio está se aproximando por causa da crise econômica e de um ressentimento comum que dita que às pessoas foram negados dignidade e respeito. Da Arábia Saudita ao Egito, e para além dele, muitos dizem, existe um amplo senso de fracasso e frustração. "Depois de tantos anos de estagnação política, ficamos com a escolha entre o ruim e o pior", disse Fadel Shallak, escritor libanês e ex-ministro do seu país. "Agora há algo acontecendo no mundo árabe. A voz coletiva está sendo ouvida novamente".

Como força unificadora, o antigo Oriente Médio teve a Voz dos Árabes, a popular estação de rádio de Gamal Abdel Nasser, líder carismático, mas repressivo, do Egito entre 1956 e 1970. Sua mistura de propaganda, oratória e música, apostava principalmente em Umm Kulthum, a icônica diva do Egito. Hoje é a Al Jazeera e, embora a sua popularidade empalideça diante da cantora, o poeta tunisiano, Abul-Qasim Al-Shabi, cujo trabalho pareceu definir os protestos e suas ambições.

Mas mesmo a Al Jazeera parece ter se voltado para dentro. Sempre provocadora e crítica dos Estados Unidos e de Israel, a emissora cobriu os protestos egípcios sem interrupções, como fez na Tunísia, muitas vezes chegando até mesmo a encorajar os manifestantes a seguir adiante. A rede é acompanhada pela atividade nos websites Facebook e Twitter, que têm aproximado lugares distintos ligados por uma língua em comum.

O Egito fechou os serviços de internet no país na sexta-feira, em uma notável demonstração do quão poderosas essas ferramentas se tornaram. O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, adotou uma tática mais antiga e quase feudal: ele queixou-se ao líder do Catar, onde a Al Jazeera está baseada. O canal, disse ele, estava ajudando aqueles "que querem incentivar a dissidência".

Isto, sem dúvida, é verdade. Ele também descreve mensagens no Facebook e Twitter, algumas das quais se transformaram em uma versão do século 21 de agitação e propaganda no Oriente Médio. No Facebook, um grupo em Jerusalém, pediu apoio para o Egito e a Tunísia. O mundo árabe, descreve, "está saindo da escuridão para a luz... da ditadura para a liberdade".

As mudanças podem ter profundas repercussões para os Estados Unidos. Mouin Rabbani, analista da Jordânia, disse que frustrações econômicas espelham ressentimento com governos vistos como agentes dos Estados Unidos e seus aliados. De fato, um mundo árabe mais democrático, de acordo com pesquisas recentes, provavelmente seria muito mais hostil à política americana.

Mas a preocupação agora é interna. "Se eles tivessem sido capazes de resolver os problemas econômicos subjacentes, as pessoas teriam negligenciado a corrupção, a má gestão, o governo autocrático", disse Abdel Aziz Abu Hamad Aluwaisheg, um economista da Arábia Saudita, falando a partir de Riade. "Mas quando eles não conseguiram fazer o pão e manteiga, as pessoas começaram a olhar para os seus governos".

Isso pode ter forjado uma ideia de causa comum, onde os manifestantes nas localidades mais remotas seguem as sugestões de pessoas parecidas a eles em outros lugares longínquos.

Em Túnis, na sexta-feira, um grupo de manifestantes se reuniu diante da embaixada egípcia em solidariedade. "Fora Mubarak", gritavam eles. Um jornal libanês citou ativistas tunisianos que davam este conselho aos egípcios: protestem à noite, usem sacos plásticos para evitar choques elétricos, lavem o rosto com Coca-Cola para minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo e tentem cobrir com spray de tinta preta o párabrisas de veículos da polícia. "Eu gostaria de poder me juntar a eles, e eu desejo que esses protestos ajudem a se livrar de todos esses regimes", disse Mona Sibai uma mulher egípcia que vive em Beirute. "Eu me sinto orgulhosa".

Laith Shbillat, uma veterana dissidente da Jordânia, disse: "As pessoas querem a sua liberdade, as pessoas querem o seu pão. As pessoas querem impedir que esses péssimos ditadores roubem seus países. Eu seguiria qualquer um. Eu seguiria Vladimir Lênin, se ele viesse e me liderasse nisso".

Shbillat evocou Chabi, o poeta que morreu jovem em 1934. "Se um dia, um povo desejar viver, então o destino vai responder ao seu chamado", diz o seu poema mais famoso. "E sua noite então começará a desaparecer, e as correntes se quebrarão e cairão". "Ele está nos liderando de seu túmulo", disse Shbillat.

*Por Anthony Shadid, com colaboração de Nada Bakri e Hwaida Saad

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