Em busca de lucro, China aposta em turismo comunista

Autoridades e empresários lucram com 'explosão do turismo vermelho', com visitas a locais que reavivam sentido da luta de classes

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Os explosivos haviam sido colocados, a torre de vigia preparada e o campo de batalha limpo de destroços. Soldados comunistas armados com fuzis tomaram posições no sopé das colinas estéreis. Seus adversários, os Kuomintang, podiam ser vistos ao longe, avançando sobre a guarnição da cidade de Yan'an.

Então, alguém gritou: "Não há eletricidade!". Sem eletricidade não poderia haver espetáculo.

Centenas de turistas chineses seguiram em direção ao portão da frente exigindo seu dinheiro de volta. Outros visitantes despiram o uniforme cinza no campo de batalha – pelo qual pagaram US$ 2 para participar da produção.

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O visitante Tao Ma, 32 anos (E), trajava um uniforme do Exército Vermelho na entrada de Yangjialing, um vale estreito em Yan'an
Assim teve fim uma apresentação recente de A Defesa de Yan'an, a reencenação de um momento crucial na guerra civil chinesa, quando os Kuomintang tentaram derrotar os comunistas em 1947, em seu montanhoso reduto. O show, com explosões ao vivo e um avião de caça que se movimenta acoplado a um fio, acontece todas as manhãs, na periferia de Yan'an, uma cidade de 2 milhões de habitantes no norte da província de Shaanxi.

Força

O capitalismo está prosperando na China, mas a força vermelha está longe de ser extinta, pelo menos em Yan'an. A Defesa de Yan'an é uma adição recente às atrações turísticas que tentam evocar os dias de glória do Partido Comunista, depois que seus líderes tomaram Yan'an em 1936, após a Longa Marcha. Autoridades e empresários locais estão lucrando bastante com a "explosão do turismo vermelho", no qual os chineses, muitos deles jovens profissionais, visitam locais revolucionários famosos para reavivar o sentido da luta de classes e os princípios do proletariado, há muito tempo perdidos.

"A comercialização não é ruim, contanto que não banalizemos as tradições e enquanto mantivermos o espírito sem violá-lo", disse Tan Huwa, historiador da Universidade de Yan'an. "É como o slogan publicitário dos cigarros Yan'an: ‘Existe Yan'an, mas também existe o espírito".

A região de Yan'an, com suas conhecidas casas em cavernas e colinas amareladas, foi usada como a principal base revolucionária no país até 1948, sofrendo bombardeios dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e ataques de tropas Kuomintang. Foi aqui que os principais líderes comunistas – Mao Zedong, Zhou Enlai, Zhu De, Liu Shaoqi e outros – transformaram a ralé do Exército Vermelho em uma força de guerrilha e forjaram sua ideologia socialista.

"Eu estou aqui para ser educado", disse onde os dirigentes comunistas permaneceram em cavernas ao longo de vários anos. Uma mulher que alugava os trajes entregou um coldre de couro a Ma. "Eu me sinto orgulhoso de vestir este uniforme", disse ele enquanto um amigo – ou melhor, um camarada – tirava fotos dele.

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Turistas visitam Assembleia de Yangjialing, onde Mao foi empossado como líder do Partido Comunista chinês, em Yan¿na
Ma e seu grupo de excursão, todos ostentando broches vermelhos de Mao em suas lapelas, estavam entre os milhares de turistas, incluindo soldados reais da cidade de Xi'an, percorrendo os pontos turísticos revolucionários naquele dia. O departamento de turismo de Yan'an afirma em seu website que a cidade ultrapasssou os 10 milhões de visitantes no ano passado, um aumento de 37% em relação ao ano anterior.

O turismo teve um grande impulso em 2008, quando o governo local decidiu dispensar a cobrança de ingressos para os principais pontos. No mesmo ano, a cidade investiu quase US$ 15 milhões na construção de praças, museus e outros locais de interesse. Oficiais e investidores queriam contratar Zhang Yimou, um conhecido cineasta chinês, para produzir A Defesa de Yan'an, mas tiveram de se contentar com um de seus associados.

O website do departamento de turismo agora se orgulha do Sonho Revolucionário encenado em Yan'an. Mas há aqueles familiarizados com a antiga Yan'an que não estão satisfeitos com as mudanças. "Antes havia uma beleza crua, era uma cidade cheia de cavernas e totalmente primitiva que foi o cérebro de todo o esforço de guerra na China", disse Sidney Rittenberg Sr., um consultor de negócios que foi o primeiro americano a aderir ao Partido Comunista Chinês e que viveu em Yan'an na década de 40.

Rittenberg levou sua esposa a Yan'an no ano passado. Ele disse que ficou chocado com as mudanças. "Eles praticamente destruíram este museu da história revolucionária da China", disse ele. "É um verdadeiro horror. Os guias turísticos locais não permitem que ninguém critique Mao", acrescentou. "É o único lugar na China que eu conheço que seja assim. Eles não sabem absolutamente nada da história".

Críticas

No Salão de Exposição do Presidente Mao, nenhuma menção é feita aos horrores da grande fome da década de 50 ou à Revolução Cultural, tampouco figura o padrão de avaliação apoiado pelo partido de que Mao esteve certo 70% do tempo e errado 30%. Fotografias expostas mostrando compatriotas de Mao – por exemplo, Liu Zhidan, o jovem revolucionário que montou uma base em Yan'an antes de Mao chegar à região – não dão nenhuma indicação de que aquelas pessoas foram posteriormente expurgadas por Mao.

Uma jovem mulher guiando um grupo de turistas, todos homens de meia idade, apontou para uma foto na parede. "Este é Mao, Jiang Qing e suas filhas", disse ela.

Um homem olhou mais perto. "Jiang Qing não é feia aqui!", ele gritou.

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Estátuas de Mao viram suvenir vendidos em Yan'an
Os líderes comunistas viveram em quatro locais diferentes em torno de Yan'an, o mais impressionante foi o vale de Yangjialing. Foi aqui, no Grande Auditório Central, que alguns dos mais importantes encontros foram realizados. Em 1945, durante a sessão de 50 dias do 7º Congresso do Partido, Mao assegurou sua posição como líder indiscutível do partido e consagrou o pensamento maoísta na constituição do partido. A sala, que poderia abrigar 1 mil pessoas em bancos de madeira, foi danificada em um ataque aéreo Kuomintang e desde então foi reconstruída.

A caverna em Yangjialing onde Mao viveu por cinco anos, tem sido mantida em bom estado. Mosquiteiro sobre a cama. Cigarros novos espalhados por cima dos lençóis, ali colocados pelos turistas como um sinal de reverência. Ao longo de um caminho exterior, pinheiros e uma placa que marca o local onde o presidente supostamente reuniu-se com Anna Louise Strong, uma jornalista americana, em 1946. Na entrevista, ele proferiu uma de suas frases mais famosas: "Todos os reacionários são tigres de papel".

Em outra parte de Yan'an, uma antiga sala de reuniões do Comando Militar Central revela mais anacronismos. Cartazes colocados em torno de um palco de madeira lembram os visitantes que Mao e seus camaradas certa vez defenderam uma democracia multipartidária, a fim de destituir os Kuomintang. Mas esses dias ficaram para trás. Um cartaz diz: "Parabéns pela vitória da guerra contra os japoneses e por alcançar a democracia o mais cedo possível".

*Por Edward Wong, com colaboração de Li Bibo e Benjamin Haas

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