Em Bagdá, iraquianos vasculham lixo das ruas para sobreviver

Diante de cenário econômico ruim, capital do país tem disputa de catadores em meio a entulhos e sujeira

The New York Times |

Na base da economia do Iraque, a vida gira em torno de um das commodities mais humildes: o lixo.

Em uma manhã recente, Hamad Tarish deixou de lado um saco de latas e sucatas de metal, e mostrou suas mãos enegrecidas que raramente são lavadas em água corrente. Para Tarish, 22 anos, o lixo é o seu capital. Todas as noites, por volta das 3h, ele sai de sua casa para vasculhar o lixo de um bairro da região sul da cidade antes dos caminhões de lixo, fazendo todo o possível para evitar a polícia e a competição de outros catadores.

Diante de um trecho de casas improvisadas de blocos de concreto, ele jogou seu material em uma balança. Dezessete quilos de latas de alumínio, no valor de US$ 6. Um pedaço de sucata de metal e meio quilo de fiação da qual ele havia removido o isolamento de borracha, cada um em torno de US$ 2. Ao todo, US$10 para comprar comida para si mesmo, sua esposa e seus dois filhos.

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Crianças recolhem objetos em lixo de Bagdá, no Iraque
Para Tarish, que geralmente ganha cerca de US$ 4 por dia, foi uma boa colheita. Amanhã pode não ser tão bom, ele lembrou. "Você nunca consegue prever essas coisas", disse com os olhos vermelhos e seu corpo pesado com a exaustão. "Um quilo de carne custa US$ 15", ele disse. "É impossível. Acabo não comprando açúcar para o chá".

Conforme a economia do Iraque definha, Tarish encontra sua subsistência em um submundo que sustenta e organiza bairros inteiros. Em torno dele estão seus companheiros, soldados de um novo mercado – os catadores noturnos, os intermediários que compram a sucata por centavos o quilo, os carretes sujos trazendo mais restos de partes mais remotas da cidade. E em torno destes estão pilhas e pilhas de lixo, classificadas por tipo e rodeadas por moscas.

"As pessoas aqui estão vivendo à base do lixo e dos animais", disse Ali Hasun, 27 anos, um intermediário, cercado de casas improvisadas pressionadas umas contra as outras – uma cidade de médio porte se alimenta de refugos.

Hasun é pai de quatro filhos. Como outros catadores, ele disse que gostaria de ter um emprego fixo, mas não conseguiu encontrar nada. Em alguns dias ele ganha até US$ 20. Em outros, nada.

"Antes era vergonhoso deixar que outras pessoas nos vissem catando lixo", ele disse. "Somos jovens e nos importamos com nosso visual e postura. Mas depois de um tempo você se esquece de tudo isso". E, além disso, acrescentou ao observar o comércio vivo ao seu redor, todo mundo estava fazendo o mesmo.

Favela

Hasun e Tarish vivem em uma ampla favela conhecida coo Naser City, ou Cidade da Vitória, uma das dezenas de favelas que surgiram em torno de Bagdá desde a invasão dos Estados Unidos em 2003. Naser City, uma das maiores, cresceu exponencialmente por causa das ondas de violência sectária que arrancaram as pessoas de outras áreas e, mais recentemente, porque o desemprego tem forçado as pessoas a abandonar suas casas. Com Bagdá enfrentando uma grande falta de moradia, as ocupações – onde a moradia é livre, mas ilegal – estão em crescimento.

Moradores de Naser City acreditam que mais ou menos 500 mil pessoas vivem aqui, mas isso é apenas uma estimativa. O governador de Bagdá estima que 600 mil pessoas vivem em 42 acampamentos de ocupações – o equivalente à população de Boston. Mas em um país sem censo, onde poucas agências governamentais se aventuram a entrar nas áreas ocupadas, isto também é mais convicção do que realidade.

"Essas pessoas precisam catar lixo porque não há oportunidades de emprego", disse o governador, Salah Abdul-Razzaq.

Como as comunidades não são legais, ele disse, a província não oferece serviços como educação, assistência médica, segurança, eletricidade, esgotos e água potável. "Os bairros tornam-se lugares para os criminosos, ladrões, terroristas, sequestradores", disse ele. "Mas não podemos tirá-los de lá porque não existem alternativas".

Thijel Ebrah, 58 anos, mudou-se para Naser vindo de Amara, uma cidade ao leste de Bagdá, em 2005, no auge da violência sectária na região. Ele não conseguia encontrar emprego em Amara, e em Bagdá, a situação era ainda pior.

Ele parou diante da estrutura de alvenaria de dois cômodos que construiu em um terreno desocupado, onde agora vive com sua esposa e cinco filhos. Três de seus filhos precisam andar até a uma escola fora da região, e dois deles ajudam no sustento da família através da coleta de lixo. Eles cozinham e aquecem a casa queimando lenha, já que o petróleo está muito caro, contou ele, quando não há madeira a alternativa é se enrolar em cobertores. Uma vala de esgoto a céu aberto corre em frente da casa.

Mas a parte mais difícil para ele é mandar os seus filhos catar lixo.

"Eu tenho medo que um dia eles não vão voltar", disse. "Se eles saem de manhã, eu fico com medo. Se eles saem à noite, é pior. As forças de segurança os veem fuçando no lixo e acham que estão escondendo explosivos", contou. "Vivíamos com a injustiça durante Saddam, mas agora está pior", disse ele. "O governo não faz nada."

Para os catadores, a prática tem seus códigos. Esses acordos informais existem para impedir que as pessoas disputem os mesmos territórios. E tempo é tudo.

Turnos

"Há dois turnos", disse Kareem Karar, 16 anos, que mora num barraco na ponta de Sadr City, no enclave xiita de Bagdá. "As pessoas jogam lixo para fora no fim da tarde e da noite. Tudo depende de quão cedo você sai e quão rápido você é".

As latas são mais abundantes nos dias quentes de verão, quando as pessoas costumam beber mais. E feriados como o Id Al-Fitr, no fim do Ramadã, são bons períodos. "Eu tenho mais sorte durante o Id, quando as pessoas jogam mais coisas fora", disse Karar.

Por enquanto, o lixo é abundante porque as equipes de limpeza não conseguem dar conta do fluxo. Mas há sinais de mudança. Em uma manhã recente, Haider Saad, 23 anos, encontrou seu terreno de caça habitual sem nada. "O caminhão de lixo realiza a coleta à meia-noite, em vez de fazê-lo pela manhã", disse, olhando com desespero para uma rua limpa.

O prefeito de Bagdá, Saber Al-Essawy, disse que a cidade planeja acionar todas as equipes de limpeza durante a noite e está construindo dois centros de reciclagem. "No futuro, essas pessoas terão de encontrar emprego", ele disse. "Isso é o que queremos, porque eles representam a condição ruim da nossa sociedade".

Saad não aceitou o desafio com pouco caso. "Nós vemos o caminhão de lixo como nosso maior inimigo", disse.

Depois, seguiu em frente. Para os catadores, não há descanso.

*Por John Leland

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