Em afronta à Síria, Turquia abriga combatentes anti-Assad

Antes um aliado do presidente sírio, governo turco agora dá apoio a grupo armado de oposição que luta contra ele

The New York Times |

Antes um dos principais países aliados da Síria, a Turquia agora hospeda o Exército de Libertação da Síria, um grupo armado de oposição responsável por travar uma insurgência contra o governo do presidente Bashar Al-Assad. Além de fornecer abrigo para o comandante e dezenas de membros do grupo, a Turquia permite que eles orquestrem ataques através da fronteira de dentro de um acampamento guardado por militares turcos.

O apoio aos rebeldes ocorre em meio a uma campanha turca mais ampla para minar o governo de Assad. A Turquia deve impor sanções à Síria em breve e o país já aprofundou o seu apoio a um grupo de oposição conhecido como Conselho Nacional Sírio, que anunciou sua formação em Istambul. Mas o alojamento de líderes do Exército de Libertação da Síria, uma milícia composta por desertores das Forças Armadas, pode ser o desafio mais marcante até agora a Damasco.

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Combatentes da oposição síria se reúnem para encontrar autoridades turcas em Antakya, na Turquia (18/10)

Na semana passada, o grupo, que atualmente vive num acampamento de refugiados fortemente vigiado na Turquia, assumiu a responsabilidade pela morte de nove soldados sírios, incluindo um policial uniformizado, em um ataque rebelde realizado no centro da Síria.

Autoridades turcas descrevem sua relação com o comandante do grupo, o coronel Riad al-As'aad, e os cerca de 60 a 70 combatentes que vivem em um "acampamento oficial" como puramente humanitária. A principal preocupação da Turquia, segundo as autoridades, é dar segurança física aos desertores. Quando perguntado especificamente sobre a permissão dada ao grupo para organizar operações militares sob a proteção da Turquia, um oficial do Ministério das Relações Exteriores disse que sua única preocupação era a proteção humanitária e que eles não podiam impedi-los de expressar suas opiniões.

"Na época que todas essas pessoas escaparam da Síria, não sabíamos quem era quem, não estava escrito nas suas testas ‘Sou um soldado’ ou ‘Sou um membro da oposição’", disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, que falou sob condição de anonimato, de acordo com o protocolo diplomático. "Estamos fornecendo a estas pessoas uma residência temporária por razões humanitárias e isso vai continuar."

No momento, o grupo é muito pequeno para representar um real desafio para o governo de Assad. Mas o apoio turco ressalta o quão resistente o levante da Síria provou ser. O país fica na intersecção de influências na região –Irã, Hezbollah no Líbano, Arábia Saudita e Israel – e o envolvimento da Turquia será observado de perto por amigos e inimigos da Síria.

"Nós vamos lutar contra o regime até que ela caia, e construiremos um novo período de estabilidade e segurança na Síria", disse As'aad em uma entrevista organizada pelo Ministério das Relações Exteriores da Turquia e conduzida na presença de uma autoridade turca. "Nós somos os líderes do povo sírio, e estamos com o povo sírio".

A entrevista foi realizada no escritório de um oficial do governo local, e As'aad chegou protegido por um contingente de 10 soldados turcos fortemente armados, incluindo um atirador.

O coronel usava um terno que um oficial do Ministério das Relações Exteriores da Turquia disse ter comprado para ele naquela manhã. No final da reunião, citando preocupações de segurança, o coronel e um oficial do ministério informaram que todos os futuros contato com o grupo seriam intermediados pelo Ministério das Relações Exteriores.

A Turquia já viu seus laços com a Síria como a sua maior realização na política externa, mas as relações foram destruídas ao longo dos oito meses de protestos contra o governo do país e uma repressão brutal que as Nações Unidas diz ter matado mais de 3 mil pessoas.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, foi ofendido por repetidos fracassos de Assad em cumprir suas promessas de uma reforma radical. As autoridades turcas preveem que o governo Assad entre em colapso nos próximos dois anos.

"Isso leva a política turca ao sentido de uma intervenção ativa na Síria", disse Hugh Pope, analista do International Crisis Group. Ele chamou a aparente nova relação da Turquia com o Exército da Libertação da Síria de um "território completamente novo".

"Está claro que a Turquia se sente ameaçada com o que está acontecendo no Oriente Médio, particularmente na Síria", disse Pope, que observou que Erdogan "tem falado sobre o que acontece na Síria como um assunto interno da Turquia."

As'aad não especificou o número de combatentes de seu grupo, dizendo apenas que ultrapassa 10 mil. Ele não estava disposto a revelar o número de batalhões, alegando que o grupo tinha 18 batalhões "anunciados" e um número indeterminado de ramificações secretas. Nenhuma das afirmações pôde ser verificada de forma independente. As autoridades turcas dizem que seu governo não forneceu armas e apoio militar ao grupo insurgente, nem o grupo solicitou esse tipo de apoio.

Ainda assim, As'aad, que agradeceu a Turquia por sua proteção, deixou claro que ele estava buscando armas melhores, dizendo que seu grupo poderia infligir danos a uma liderança síria que tem se mostrado notavelmente coesa.

"Pedimos à comunidade internacional que nos forneça armas para que nós, como um exército, o Exército da Libertação da Síria, possamos proteger o povo do nosso país", disse ele na entrevista. "Somos um exército, estamos na oposição e estamos preparados para operações militares. Se a comunidade internacional fornecer armas, podemos derrubar o regime em um tempo muito, muito curto."

Suas palavras pareciam mais arrogância do que uma ameaça, e com a manifestações em massa pró-governo e uma repressão que tem, por agora, estancado a dinâmica das manifestações da oposição, o governo sírio parece manter uma posição mais forte do que alguns meses atrás. Embora profundamente isolado, o governo da Síria se sentiu encorajado pelos vetos da Rússia e da China de uma resolução relativamente dura do Conselho de Segurança. Apesar das previsões contrárias, os militares e os serviços de segurança, em particular, ainda não caíram apesar de oito meses de uma repressão sangrenta.

As'aad disse que ele desertou do serviço militar e fugiu para a Turquia depois que protestos eclodiram em sua aldeia natal, Ebdeeta, na província norte de Idlib, atraindo uma repressão do governo que matou vários parentes e destruiu a casa de sua irmã. Mas ele também fugiu, segundo explicou, porque "sabia que havia maior potencial para liderar as operações em um lugar em que estivesse livre."

Ele disse que todos os moradores do acampamento onde vive na Turquia são membros do Exército da Libertação da Síria. O acampamento inclui um assistente pessoal e um "escritório de mídia" composto por cerca de meia dúzia de pessoas. Ele disse que os combatentes do grupo são altamente organizados, embora tenham apenas armas que roubaram quando desertaram ou tomaram de membros mortos das forças de segurança sírias.

"Nossa estratégia para o futuro é enfrentar o regime em seus pontos fracos e no próximo período esperamos adquirir armas para que possamos ser capazes de enfrentar o regime com mais força", disse As'aad.

Embora muitos analistas afirmem que os ataques dos desertores da Síria pareçam descoordenados e locais, As'aad alegou estar no controle operacional pleno. Ele disse que está encarregado do planejamento "completo das operações militares", deixando os confrontos menores e do dia-a-dia para os comandantes em campo. No entanto, ele está em contato diário com os comandantes de cada batalhão, passando horas por dia verificando emails em um laptop conectado a um dos quatro telefones – incluindo um telefone via satélite – fornecidos a ele por expatriados sírios que vivem nos Estados Unidos, Europa e no Golfo Pérsico.

Andrew Tabler, pesquisador do Instituto Washington para Política do Oriente disse que o surgimento do grupo jovem foi crucial para a questão maior de saber se a oposição iria manter apenas protestos pacíficos, por maiores que sejam, ou se iria "optar por contra-atacar”.

"Eles são organizados e estão falando com pessoas de fora", disse Tabler. "Mas a questão é até que ponto eles estão recebendo apoio financeiro de pessoas de fora, como de indivíduos na Turquia e na Arábia Saudita."

Por Liam Stack

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