Em acampamentos, refugiados sírios sentem inesperado sabor de liberdade

Com repressão das forças sírias avançando, civis buscam porto seguro em cidades fronteiriças, como Guvecci, na Turquia

The New York Times |

De um telhado na empoeirada cidade fronteiriça de Guvecci, Bilal observou o vale acidentado ocupado por um campo de refugiados para onde ele havia fugido das forças sírias, temendo por sua vida, apenas para descobrir algo completamente inesperado: o sentimento de liberdade.

O presidente sírio, Bashar al-Assad, enviou as forças militares e a polícia síria ao norte para esmagar uma revolta, o que levou milhares de pessoas a deixar suas casas com até 11 mil buscando refúgio na Turquia. Mas havia muitos, como Bilal, que não queriam deixar a Síria e, em vez disso, armaram acampamentos ao longo da fronteira. Se o objetivo de Assad era usar o medo para calar a revolta popular, Bilal disse que a experiência de refugiado pode ter tido um efeito oposto.

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Refugiadis sírios dirigem ao campo de Guvecci, na Turquia, em meio a conflitos entre forças sírias e opositores (23/6)
"Estar em Khirbet al-Jouz nos fez descobrir muitas coisas que eram estranhas para nós", disse Bilal, 30 anos, que informou apenas um nome por medo de represálias do governo. "Nós somos capazes de andar em liberdade e falar uns com os outros sobre nossos direitos como seres humanos, sem medo." Ele acrescentou: "Foi uma experiência que nunca tivemos antes, não na minha vida e não na vida do meu pai."

Bilal e centenas de outros encontraram abrigo em um acampamento improvisado em Khirbet al-Jouz, uma aldeia em uma faixa de terra que parece ter caído fora do controle do Estado. No acampamento de barracas espalhadas em um pomar com arbustos e floresta densa, as condições eram difíceis, os alimentos e remédios eram insuficientes e a água estava suja. No entanto, Bilal e outros disseram ter sido inspirados pelo sentimento de libertação em solo sírio.

Na sexta-feira de 24 de junho, os refugiados realizaram um protesto contra o governo, com som alto, junto à fronteira de arame farpado, deleitando-se na ausência das forças de segurança que dispersaram violentamente os protestos em outros lugares na Síria. Jovens, alguns armados com pistolas, formaram comitês cidadãos mal organizados para "ficar atento a qualquer sinal do Exército”.

Um grupo de ativistas refugiados criou um centro de mídia para fazer o upload de vídeos para a internet. Mais tarde, eles e outros anunciaram a formação de um Conselho Nacional de Orientação para a Revolução da Síria, um grupo que não conseguiu decolar e parece ter desaparecido. "Não havia nenhum Exército, nem polícia, nada", disse Bilal, maravilhado com o impacto do que ele experimentou. "Nós vivemos toda nossa vida sob uma repressão muito, muito, muito forte. O Exército e as forças de segurança sempre dizem que sabem o que acontece entre um homem e sua esposa”. 

Mas tudo isso não durou muito. Na quinta-feira seguinte, tanques e soldados voltaram, reafirmando a capacidade do Estado de usar a força. No final, quase todos fugiram para a Turquia, quando as forças sírias chegaram, disseram os líderes dos refugiados e trabalhadores humanitários. 

Estimativas

A maioria dos refugiados de Khirbet al-Jouz foi para Reyhanli, onde o Crescente Vermelho administra um acampamento e onde a Turquia proíbe os refugiados de falar com os jornalistas. As autoridades turcas dizem que os acampamentos oficiais agora tem mais de 11 mil "convidados" sírios - eles evitam o termo "refugiados", enquanto o Crescente Vermelho estimou há duas semanas que 17 mil pessoas a mais estavam esperando para atravessar para o lado turco.

Após o trauma de fugir de suas casas, muitas pessoas disseram que estavam hesitantes em abandonar o seu país e cruzar para a Turquia, por medo de deixar para trás pertences valiosos, como animais ou carros. Outros se recusaram a atravessar, por desafio ou medo de que nunca possam ser capazes de voltar. 

Noufa al-Ali, 48 anos, não queria ir para a Turquia porque queria voltar à sua aldeia natal de Ashtouria, "mas somente depois de o regime cair”. Um homem idoso chamado Ahmed, fumando um cigarro ao lado do carro em que ele dormia, disse que iria ficar no acampamento "até a morte" em vez de ser expulso por "Bashar, o assassino".

Wissam Tarif, diretor executivo da Insan, um grupo de direitos humanos, disse que encontrou "uma surpreendete mentalidade de transição" em conversas telefônicas com pessoas na zona fronteiriça. "Elas pensam nas abordagens possíveis para uma transição política na Síria e como fazer isso acontecer", disse Tarif, um luxo disponível apenas a pessoas que vivem fora uma repressão militar.

*Por Liam Stack

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