Eleitores muçulmanos sentem afastamento de Obama

Quando o senador Barack Obama cortejou eleitores em Iowa em dezembro, o congressista Keith Ellison, primeiro muçulmano no cargo nos Estados Unidos, se prontificou a ajudar.

The New York Times |

Ellison acreditava que a mensagem de união de Obama falaria a muitos dos muçulmanos americanos. Ele se voluntariou para falar em nome de Obama na mesquita de Cedar Rapids, um dos centros muçulmanos mais antigos do país. Mas antes do comício, assistentes do candidato pediram que Ellison cancelasse sua viagem para evitar controvérsias. Outro assistente apareceu em seu gabinete em Washington para explicar o acontecido.

"Eu nunca me esquecerei do que ele disse", afirmou Ellison. "Ele disse, 'Nós temos uma mensagem muito bem preparada'".

Quando Obama deu início a sua campanha presidencial, os muçulmanos americanos da Califórnia à Virgínia responderam com entusiasmo, vendo nele um líder de direitos civis, tolerância religiosa e diplomacia em assuntos externos. Mas um ano depois muitos afirmam que ele não respondeu à altura.

Ainda que o senador tenha visitado igrejas e sinagogas, ele não esteve em nenhuma mesquita. Organizações muçulmanas e árabe-americanas tentaram repetidamente conseguir encontros com Obama, mas representantes desses grupos dizem que seus convites - ao contrário daqueles de judeus e cristãos - foram ignorados. Na semana passada, duas muçulmanas que vestiam lenços na cabeça foram proibidas por voluntários da campanha de aparecer atrás de Obama durante um comício em Detroit.

Muçulmanos frustrados

Em entrevistas, líderes políticos e civis muçulmanos disseram que entendiam que seu apoio a Obama pode ser um problema para ele em um momento em que muitos americanos suspeitam das pessoas de seu credo. Ainda assim, mostraram decepção e mesmo raiva pelo afastamento do candidato.

"Essa é a campanha da 'esperança', essa é a campanha da 'mudança'", disse Ellison, democrata de Minnesota. Os muçulmanos estão frustrados, "eles não foram incluídos", disse.

Assistentes de Obama negam que ele tenha mantido seus partidários muçulmanos a uma certa distância. Eles citaram declarações em que ele mencionou o Islã americano e uma propaganda de rádio em que apóia André Carson, que nessa primavera pode se tornar o segundo muçulmano eleito ao Congresso.

Em maio, Obama realizou um breve encontro privado com o líder de uma mesquita em Dearborn, casa da maior concentração de árabe-americanos. Nesse mês, um dos principais assistentes da campanha se encontrou com líderes árabe-americanos em Dearborn, a maioria deles muçulmanos. (Obama não fez campanha no Michigan antes da primária de janeiro por causa de uma disputa do partido em relação ao calendário.)

"Nossa campanha toma todas as providências possíveis para unir americanos de todas as raças, religiões e origens e enfrentar nossos desafios comuns", disse Ben LaBolt, porta-voz da campanha.

LaBolt acrescentou que em relação a grupos religiosos, a campanha tenta adotar "uma postura inter-religiosa que pode não atingir a todos que querem participar mas que fala a muitos muçulmanos americanos".

A difícil relação de Obama com os muçulmanos reflete um dos principais desafios do senador: como manter um apelo eleitoral amplo sem alienar uma parte do eleitorado que precisará em novembro.

Obama pede desculpa

Depois do episódio em Detroit na semana passada, Obama ligou para as duas muçulmanas para se desculpar. "Eu me ofendo pessoalmente com a discriminação contra pessoas de qualquer grupo religioso e origem", ele afirmou em uma declaração.

Tal gesto não foi o suficiente aos olhos de muitos muçulmanos, que dizem que o incidente em Detroit e outros demonstram um vão entre a mensagem de união promovida por Obama e a estratégia de sua campanha.

"A comunidade se sente traída", disse Safiya Ghori, diretora de relações do gabinete de Washington do Conselho Muçulmano de Relações Públicas.

Mesmo alguns dos principais partidários muçulmanos de Obama se dizem desconfortáveis com as negativas forçadas que ele vociferou a respeito dos rumores dele ser secretamente muçulmano. (Dez por cento do eleitorado acredita nos rumores, de acordo com uma pesquisa da Pew Research Center).

Em uma entrevista ao programa "60 Minutes", Obama afirmou que os rumores são ofensivos aos muçulmanos americanos porque fazem uso do "fator medo". Mas uma nova seção de seu website mostra que ele classifica o rumor como uma "fofoca".

"Muitos de nós esperamos que ele diga que não há nada de errado em ser muçulmano", disse Ellison.

Ellison, congressista em seu primeiro mandato, permanece o partidário muçulmano mais importante do senador. Ele esteve em comícios de Obama em Minnesota e aparece em vídeos de campanha em seu website. Mas Ellison afirmou que também foi forçado a cancelar planos de campanha pelo senador na Carolina do Norte depois que um emissário lhe disse que o Estado era "conservador demais". Ellison disse que culpa os assistentes de Obama - não o candidato - pela situação difícil da campanha.

Apesar das complicações de buscar apoio dos eleitores muçulmanos, Obama e seu rival republicano, o senador John McCain, podem achar problemático ignorar esses votos. Há uma grande população de muçulmana em Estados muito disputados como Flórida, Michigan, Ohio e Virgínia. 

Por ANDREA ELLIOTT

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