Eleições dos EUA podem ressuscitar políticos antigos

Apesar de safra de novos conservadores, políticos ativos nos anos 70 e 80 voltam para a disputa legislativa

The New York Times |

A principal tendência que antecede as eleições desta terça-feira foi o surgimento de uma nova geração de líderes conservadores – os chamados candidatos do movimento Tea Party, que derrubou a velha ordem política em Estados como Kentucky e Nevada, e que promete enfrentar os estabelecimentos antigos dos partidos em Washington.

Mas uma corrente menos notada tem puxado a política para o sentido oposto. A última pesquisa sugere que poderemos ver a eleição de vários políticos antigos a posições que já ocuparam antes, incluindo alguns que não têm governado desde a época em que "Apple" e "Blackberry" eram apenas nomes de frutas. E isso sugere que apesar de falarmos sobre virar a página da política americana, pode ser que tenhamos alguma dificuldade em deixar isso acontecer.

O famoso septuagenário desta nova safra de candidatos ressuscitados é Jerry Brown, que foi o mais jovem governador do país quando os californianos o elegeram para o primeiro de dois mandatos em 1974. Brown ficou famoso depois que namorou a cantora americana Linda Ronstadt.

AP
O democrata Jerry Brown, em foto de agosto de 1980
O republicano Terry Branstad também foi o mais jovem governador do país quando assumiu o cargo em Iowa, ostentando um bigode da era Burt Reynolds, em 1983. Ele e seu bigode, agora branco, parecem prontos para retomar o cargo na próxima semana, o que daria a Branstad um quinto mandato como governador.

Dois outros governadores democratas que deixaram o cargo em 2003, John Kitzhaber, do Oregon, e Roy Barnes, da Geórgia, estão disputando um retorno. Também há Dan Coats, republicano de Indiana que renunciou à sua cadeira no Senado em 1999 e que agora parece provável a recuperá-la apesar de ter aparentemente se aposentado por um tempo na Carolina do Norte.

Nostalgia

Essas candidaturas parecem contradizer uma das obviedades mais sólidas da política de que as campanhas são sempre mais sobre o futuro do que sobre o passado. Pense em 2002, quando os democratas, de luto pela perda do senador Paul Wellstone em um acidente de avião, tentaram colocar Walter Mondale em seu lugar. Os eleitores de Minnesota se sentiram mal sobre a tragédia – mas não mal o suficiente para revisitar 1984.

Então, por que o sucesso repentino da nostalgia política? A explicação mais óbvia tem a ver com a crise econômica. Quando vivemos um momento tão ruim como este, há provavelmente uma tendência entre os eleitores para confundir os momentos passados na vida do país e os políticos que os personificaram. Se em comparação com hoje a década de 1980 parecia muito mais fácil e promissora para os eleitores de Iowa, por que não colocar no controle do Estado o homem responsável por ela? Certamente ele saberá o que fazer.

Mas talvez esta tendência aponte para algo mais profundo no cerne da preoupação nacional, tendo menos relação com as políticas do presidente do que com as mudanças sociais que ele representa.

Vanguarda

A eleição de Obama marcou a vanguarda de uma transição de gerações. Ao contrário de seus antecessores, Obama é jovem demais para ter sido forjado por um dos grandes conflitos do século passado (Guerras Mundiais, Coréia e Vietnã) ou por uma de suas grandes expansões liberais de governo (o New Deal ou a Great Society). O presidente representa uma América onde as distinções raciais e regionais são muitas vezes mais difíceis de discernir do que costumavam ser. Em sua propensão para o sarcasmo, ele personifica a América pós-Simpsons, onde sagacidade leva a melhor sobre a seriedade.

A julgar pelas pesquisas, tudo isso deixa muitos americanos, especialmente os mais velhos, profundamente desconfortáveis, e pode ser a principal razão – em vez de simples racismo, como afirmam alguns liberais – pela qual Obama se saiu pior entre os eleitores idosos do que democratas antes dele.

Nós tendemos a pensar nas mudanças geracionais como algo que acontece de uma vez, como uma porta que se abre de repente. Na realidade, porém, há provavelmente hesitações, breves momentos em que grande parte do país, tendo vislumbrado o futuro, parece inclinada a permanecer exatamente onde está.

E talvez este seja um momento assim, razão pela qual os eleitores e os partidos, em alguns casos, gravitam em torno de políticos de uma época passada, candidatos que parecem confortavelmente conhecidos e familiares.

*Por Matt Bai

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