Eleições de 2012 colocam jovens repórteres na estrada nos EUA

Jornalistas na faixa dos 20 anos experimentam a cobertura da campanha americana pela primeira vez e ouvem conselhos de veteranos

The NewYork Times |

Em Washington, um grupo de cinco jovens repórteres do National Journal e da CBS News teclavam em seus MacBooks numa tarde, obedientemente tomando notas, enquanto jornalistas experientes na cobertura da campanha eleitoral compartilhavam suas regras da estrada.

Os repórteres estavam na sua maioria na faixa dos 20 anos, aprendendo o básico: nunca se aproxime demais de uma fonte, domine a arte de comer enquanto dirige, nunca confie no despertador do hotel.

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Lindsey Boerma, do National Journal, toma notas no treinamento de como cobrir uma campanha presidencial
Durante décadas, os ônibus de campanha foram ocupados por figurões, alguns dos quais cobriram política por décadas, de Walter Mears a David S. Broder e Jules Witcover. Era um clube glamouroso, descrito e alfinetado no best-seller de Timothy Crouse The Boys on The Bus, sobre a campanha de 1972.

Agora, cada vez mais, por causa de cortes no orçamento, estes trabalhados antes cobiçados estão sendo preenchidos por novos jornalistas a uma fração do salário. Já não é mais tão glamouroso assim.

Para estes repórteres, a Campanha de 2012 é tanto o trabalho de uma vida quanto o tipo de experiência que cria nós em seus estômagos. Três deles acabaram de sair da faculdade. Uma ficou noiva recentemente. E nenhum deles parece muito certo do que esperar de mais de um ano na estrada.

"Nós ouvimos todas essas coisas, todos estes conselhos", disse Rebecca Kaplan, 23, que saiu de seu apartamento em Chinatown, Washington, durante a campanha. "Mas eu não acho que nós só vamos entender mesmo o que está acontecendo até chegarmos lá."

Kaplan e seus novos colegas disseram que têm pensado muito sobre o fato de que o que dizem e fazem leva o peso da empresa para qual trabalham.

"Eu acho que terei que desenvolver uma personalidade", disse Lindsey Boerma, 23, cuja maior tarefa antes de escrever para o National Journal foi a de editora do jornal estudantil da Universidade Pepperdine. "Mas não estamos fazendo comentários, estamos fazendo cobertura. E você tem que encontrar essa linha. Eu ainda não sei muito bem como”.

Preparar jornalistas para cobrir a campanha presidencial nos dias de hoje é também um exercício de gestão de indiscrição. Na nova dinâmica de campanhas, os repórteres em si são alvos tanto de estrategistas políticos, como de outros jornalistas e blogueiros.

"As pessoas estão te olhando", afirmou Fernando Suarez, repórter da CBS News que cobriu a campanha presidencial de Hillary Clinton, ao advertir os jovens repórteres.

Ele contou que uma vez estava inocentemente checando o seu e-mail e sua página no Facebook durante um comício de Clinton em Oregon, quando um blogueiro local percebeu, tirou uma foto e depois escreveu um artigo criticando a mídia por não ser interessada.

"Basta ser inteligente", acrescentou Suarez. "Agora que todo mundo tem uma câmera, todos estão te olhando."

Durante as palestras, os jovens repórteres assentiam fervorosamente.

O embaraço agora vem com os toques rápidos de polegares sobre um BlackBerry ou um gracejo filmado e publicado no YouTube. Helen Thomas, correspondente na Casa Branca, viu sua carreira chegar ao fim no ano passado depois que ela fez comentários hostis sobre Israel para um rabino que filmou o encontro e o colocou em seu site pessoal. A CNN demitiu Octavia Nasr, editora sênior para assuntos do Oriente Médio, depois que ela escreveu 19 palavras no Twitter expressando tristeza após a morte de um líder do Hezbollah.

Nas mãos de um político partidário que busca desacreditar uma organização de notícias, esses tropeços podem tornar-se munição poderosa e fatal.

"Tudo o que você disser pode e será usado contra você", disse Ron Fournier, editor-chefe do National Journal.

Alguns repórteres viram ate mesmo seus e-mails pessoais vazarem e serem usados contra eles. David Weigel, agora colunista do site Slate, foi pressionado a deixar o seu trabalho no The Washington Post no ano passado após atacar os conservadores em mensagens privadas que chegaram até o site The Caller Daily.

A disposição de algumas campanhas e grupos ativistas não apenas de pressionar a mídia, como também de desacreditá-la e depreciá-la é algo relativamente novo, nascido de uma época em que a reputação antes toda poderosa da imprensa sofreu uma erosão, e que a nova tecnologia permitiu que qualquer um com conexão a internet fosse capaz de ser um mensageiro.
"A imprensa era a única lei a atuar em si mesma e realmente não havia maneira de agir contra ela, especialmente o grupo muito coeso de repórteres políticos", disse Richard Ben Cramer, que escreveu o livro "What It Takes: The Road to the White House", um relato da eleição de 1988.

"Mesmo se você tivesse os meios para constranger um repórter, não havia nenhum mecanismo para fazer isso", acrescentou Cramer. "E, na maioria dos casos, não adiantava nada, porque o repórter não tinha vergonha de qualquer maneira."

À luz de um clima novo e mais perigoso, as organizações de notícias estão aconselhando o controle dos impulsos. No National Journal e na CBS News, que estão realizando uma cobertura conjunta com seis pessoas na estrada para a eleição de 2012, os repórteres devem anexar o sufixo "CBSNJ" a suas contas no Twitter e têm sido direcionados a falar com seus editores antes de publicar uma bomba.

"Se Jon Huntsman abandonar a corrida, queremos saber isso na redação", disse Caroline Horn, produtora sênior da CBS Evening News. "Nós não queremos descobrir sobre isso no Twitter."

Como parte do treinamento da NBC, os repórteres de campanha foram lembrados do ano passado, quando dois assessores da Casa Branca, Tommy Vietor, porta-voz, na época, e Jon Favreau, o redator de discursos, foram fotografados bebendo em um bar em Georgetown, vestindo camisas para fora da calça, em um momento de descuido, que se tornou viral.

"Aquilo foi injusto e ilegítimo", lembrou Chuck Todd, chefe de correspondentes da Casa Branca da NBC News. "Mas este é o mundo em que vivemos".

Repórteres têm muito com o quê se preocupar atualmente, além dos erros de sua própria criação. Uma nova geração de ativistas políticos como James O'Keefe, artista de sabotagem por trás das gravações secretas que ajudaram a inflamar a indignação contra a grupos como Planned Parenthood, ACORN e a Rádio Pública Nacional, estão preparando armadilhas com o objetivo de desacreditar os meios de comunicação.

O'Keefe tentou no ano passado atrair um correspondente da CNN a bordo de um barco, onde planejava fazer avanços românticos, enquanto uma câmera escondida gravava o encontro. Felizmente para a CNN, a correspondente teve bom senso e evitou o que provavelmente teria sido um momento embaraçoso.

Jake Tapper, correspondente sênior da Casa Branca para a ABC News, recentemente redigiu o que chamou de "13 Conselhos de Campanha para Jovens Repórteres". Número 11 na lista: alguém em algum lugar pensa que as coisas você diz e faz são interessantes e devem ser publicadas.

"Este é um mundo da mídia cada vez mais sofisticado e perigoso", disse Tapper, estrela da imprensa que, recentemente, viu a sua carreira e até mesmo sua vida pessoal virarem assunto de interesse de blogs e críticos da imprensa. "Neutralizar um repórter de 27 anos de idade – se for do interesse de uma campanha ou de um partido desacreditar uma organização de notícias – no meu ver, é impossível acreditar que isso não vai acontecer."

*Por Jeremy W. Peters

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