Eleição em Mianmar coloca prestígio de Nobel da Paz em risco

Ativismo de Aung San Suu Kyi pode não significar jogo de cintura para lidar com temas como política fiscal

The New York Times |

Wah Thi Ka é uma vila no meio do nada, sem eletricidade ou água corrente, onde ninguém tem laptop, onde ninguém usa o Facebook ou emails e onde os moradores doentes muitas vezes morrem a caminho do hospital mais próximo.

Ela é também o marco zero para um capítulo novo e arriscado na vida de Aung San Suu Kyi, a líder do movimento pela democracia de Mianmar , que está se transformando de dissidente a política para concorrer a uma vaga no Parlamento.

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Defensora mundial da democracia que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1991, mas que passou quase duas décadas em prisão domiciliar, Suu Kyi está estabelecendo sua residência em Wah Thi Ka para as eleições de 1º de abril. Os moradores desta desconhecida região estão agindo como se tivessem ganhado na loteria.

"Você não imagina o quão feliz eu fiquei quando soube da notícia", disse U Kyaw Win Sein, um agricultor de arroz em Wah Thi Ka que está ajudando a organizar a campanha. “Algumas pessoas disseram que só de termos a oportunidade de ver a Mãe Suu pessoalmente já podemos morrer em paz."

NYT
Aung San Suu Kyi em campanha em Aungban, no Estado de Shan, Mianmar
A popularidade Suu Kyi em Mianmar é muito grande. Uma reunião de seus partidários na cidade de Mandalay no primeiro fim de semana de março parecia um Woodstock político, com milhares de pessoas ocupando as ruas para saudá-la e se aglomerando no local onde ela fez um discurso.

No entanto, ao entrar para o mundo da política local, Suu Kyi pode estar arriscando um prestígio que foi conquistado com muita dificuldade.

"Existe um certo elemento de risco para ela", disse U Thant Myint-U, autor de vários livros sobre Mianmar. "Uma vez que ela tenha ganho, e praticamente todo mundo acha que ela vai ganhar, as coisas serão muito diferentes", observou. "Ela terá de lidar com uma série de questões, desde políticas fiscais do governo até a reforma da saúde e também de responder às demandas de seu eleitorado em relação a eletricidade, a diminuição nos preços da telefonia e a geração de empregos."

Até hoje, a vida de Suu Kyi tem sido frequentemente definida por sua rebeldia contra a Junta Militar e por suas tragédias pessoais, começando com o assassinato de seu pai, o general Aung San, o fundador do Exército birmanês, em 1947, quando ela tinha apenas 2 anos de idade.

Saúde

Um fator que vai um pouco contra os esforços de Suu Kyi, é sua saúde. Com 66 anos de idade, a campanha eleitoral está tendo seus efeitos colaterais em seu corpo. Ela adoeceu durante a viagem para Mandalay, interrompeu um discurso e foi colocada em observação por seus médicos.

"Eu não acho que ela quer ser vista apenas como um ícone", disse Larry M. Dinger, chefe da missão dos Estados Unidos no país até agosto do ano passado. "Ela é uma democrata que se vê como uma política."

Durante a campanha, ela falou sobre a necessidade de mais empregos, melhores cuidados de saúde e educação. Ela enfatiza a importância de conseguir unir as minorias étnicas do país. Mas na maioria das questões, Suu Kyi raramente se aprofunda em detalhes. Ela brinca em seus discursos que não gosta de prometer coisas.

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Ainda assim, Sean Turnell, um dos principais analistas de economia de Mianmar, descreveu-a como sendo "fluente na linguagem da economia" e bem informada em questões como direitos de microfinanças e de propriedade.

As perspectivas econômicas para Mianmar são incertas. Para um país que está localizado entre as economias emergentes da China e da Índia, a pobreza é muito grande especialmente nas áreas rurais. Bois ainda são responsáveis pelo arado e as casas são feitas de palha e bambu.

Problemas

Devido a anos de má administração de uma liderança militar corrupta e inepta, Mianmar ainda vive sem um sistema bancário e financeiro que funcione.

Ao entrar para a política nesta época delicada do país, Suu Kyi tem de demonstrar legitimidade diante um governo dirigido pelos mesmos generais, agora aposentados, contra os quai lutou contra durante duas décadas. Se a reforma política de Mianmar não der certo, Suu Kyi pode ser culpada parcialmente por isso, afirmaram os analistas.

Mesmo que seu partido, a Liga Nacional para a Democracia, vá bem nas eleições do dia 1º de Abril, o seu poder no Parlamento – numericamente falando, pelo menos - será fraco.

O principal adversário do seu partido é o Partido para o Desenvolvimento e Solidariedade da União, um partido que faz parte da antiga junta militar. Mas existem também sinais de fraqueza e desunião dentro de uma maneira mais ampla dentro do seu próprio partido.

"Eu respeito ela, gosto. Mas ela não é uma líder de todas as outras forças democráticas", disse U Kaung Myint Htut, um candidato que está concorrendo contra o partido de Suu Kyi. "Às vezes achamos que ela é um pouco egoísta", acrescentou, acusando-a de agir como uma rainha que não consulta os outros ativistas da democracia.

Seja qual forem as disputas existentes, elas não parecem estar diminuindo a popularidade de Suu Kyi entre os eleitores. "Eu sou o chefe da aldeia, então é um pouco complicado eu dizer isto", disse U Tint Khin, uma autoridade local em seu distrito eleitoral. "Mas eu não vejo nenhuma concorrência forte contra ela."

*Por Thomas Fuller

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