Eleição em maior Estado indiano reflete sistema político do país

Analistas consideram a eleição em Uttar Pradesh como um termômetro das questões que formam a política da Índia

The New York Times |

Com mais de 200 milhões de habitantes, incluindo alguns dos mais pobres do planeta, Uttar Pradesh é tão grande que poderia ser considerado o quinto maior país do mundo. Mas, ele é apenas o maior Estado da Índia, politicamente, o mais valioso e, com as eleições esse mês é também o maior enigma político.

Leia também: Pressionados, deputados indianos aprovam lei anticorrupção

NYT
Partidários do partido Samajwadi sentam em árvore para ouvir Akhilesh Singh Yadav na cidade de Tulsipur, em Uttar Pradesh

"Essa eleição tem um aspecto totalmente diferente", disse Anil Verma, um cientista político da Faculdade Christ Church, em Kanpur, e analista político que atua em Uttar Pradesh. "Em 2007 tínhamos uma certa noção de como as coisas seriam. As coisas estão muito, muito diferentes agora, ao meu ver."

A política indiana muitas vezes parece um jogo de xadrez sem fim, disputado por vários conselhos, de vários jogadores, em eleições que transmitem diferentes mensagens. Em Uttar Pradesh, todas essas peças participam do mesmo jogo em um único Estado.

Embora a disputa em Uttar Pradesh dessa vez não tenha se mostrado como uma questão central, os analistas a consideram como um termômetro para as muitas questões fundamentais que irão moldar a política indiana: as mudanças nos papéis das castas e da religião, o impacto da aversão do público sobre a corrupção e o desejo crescente da população em querer desfrutar do crescimento econômico do país.

É tentador querer enquadrar a eleição como um confronto entre duas das mais poderosas figuras políticas da Índia: Rahul Gandhi, do Partido Nacional do Congresso Indiano, que lidera o governo de coalizão nacional, e Mayawati, a ministra-chefe do Estado e uma das políticas de casta inferior mais poderosas da Índia.

Há cinco anos, Uttar Pradesh fez com que Mayawati (que utiliza apenas um nome) tivesse destaque nacional ao conquistar uma vitória arrasadora que deu ao seu Partido Bahujan Samaj, ou BSP, o controle do governo Estadual. Sua vitória demonstrou a força política de seus principais apoiadores, os dalits, os hindus de uma casta mais inferior, que também são conhecidos como intocáveis, e despertou uma discussão sobre ela poder um dia se tornar primeira-ministra do país.

Gandhi, que também é considerado um possível candidato a primeiro-ministro, tem concentrado seus esforços em Uttar Pradesh nos últimos anos, tentando atrair os partidários dalits de Mayawati, e também os eleitores muçulmanos, a fim de resgatar o poder para o seu partido. Analistas concordam que apenas se conseguir recuperar sua popularidade em Uttar Pradesh, que perdeu há 22 anos e não conseguiu resgatar desde então, o Partido do Congresso poderá se tornar um verdadeiro partido da maioria.

No entanto, Uttar Pradesh, bem como a política indiana em geral, dificilmente poderia ser resumido em apenas dois candidatos e dois partidos. O Partido Samajwadi controlava o Estado antes de os eleitores terem perdido a confiança nele, em parte por causa de sua reputação de ilegitimidade. Agora ele está tentando se reformular e apelar para as aspirações dos eleitores jovens, propondo uma expansão na educação e na distribuição de laptops.

NYT
Partidários do partido de Bahujan Samaj participam de marcha eleitoral na cidade de Barabank em Uttar Pradesh, Índia
"As pessoas querem mudança", disse Akhilesh Singh Yadav, 39, que pode se tornar o primeiro-ministro do país caso o Partido Samajwadi consiga recuperar o poder de alguma maneira. "As pessoas querem que o governo mude.”

A eleição, realizada em sete fases, começou na quarta-feira, com as votações percorrendo diferentes regiões do Estado até que as cédulas finais sejam utilizadas depositadas nas urnas no dia 3 de março. Os resultados serão anunciados no dia 06 de março, junto com contagens de outros quatro Estados menores, Punjab, Goa, Uttarakhand e Manipur. Para o Partido do Congresso, uma forte presença na disputa nesses Estados poderia fortalecer o governo de coalizão nacional e ajudar a reverter um ano de 2011 marcado por escândalos políticos e ineficácia.

Em Uttar Pradesh, estão em disputa 403 cadeiras na Assembleia Legislativa. Mayawati conseguiu uma vitória decisiva no poder há cinco anos, obtendo 205 cadeiras para um só partido, algo raro de acontecer. Dessa vez, espera-se que o número de seus apoiadores deva diminuir. A questão é, em quanto?

Seu mandato de cinco anos tem sido marcado por escândalos e denúncias de corrupção, mas também por programas que fornecem moradia gratuita para seus eleitores dalits. Ela tem sido criticada por gastar grandes quantias de dinheiro em parques e estátuas (incluindo várias de si mesma) e pelo subfinanciamento de programas sociais.

Em um comício realizado na semana passada em Barabanki, Mayawati esteve diante de uma multidão de cerca de 8 mil que balançavam bandeiras da campanha. Ela reconheceu que certos "maus elementos" haviam entrado em seu partido durante a última eleição, mas atribuiu os problemas do Estado ao fracasso do governo nacional em proporcionar fundos adequados para programas estaduais e planos de previdência.

"Nós estamos tentando ajudar os pobres de todos os segmentos da sociedade", disse. "Por isso, os pobres se beneficiaram em nosso Estado."

No entanto, a pobreza continua presente em Uttar Pradesh. Um estudo recente concluiu que 8% das pessoas mais pobres do mundo residem no Estado. Os níveis de alfabetização estão entre os mais baixos da Índia; os níveis de mortalidade infantil e materna estão entre os maiores. O progresso geral da Índia nas questões da pobreza e da saúde dependem muito de um progresso mais rápido em Uttar Pradesh – um ponto muito válido para políticos que tentam ir contra Mayawati.

"Não subestime o impacto de Uttar Pradesh na Índia", disse Gandhi em uma coletiva de imprensa na segunda-feira. "Uttar Pradesh está impedindo o progresso da Índia, e não é culpa de Uttar Pradesh. A culpa é dos líderes que governaram Uttar Pradesh nos últimos 22 anos."

Gandhi e o Partido do Congresso culparam a política de casta pelo o atraso de Uttar Pradesh, prometendo se concentrar no desenvolvimento, embora o sistema de casta e religião continue a moldar a política. Gandhi está tentando conquistar o grupo de dalits que presenciaram o pouco progresso do Estado sob o regime de Mayawati. O Partido do Congresso também está tentando atrair de volta os eleitores muçulmanos, muitos dos quais fugiram para o Partido Samajwadi, com promessas de programas de ação afirmativa.

Verma afirmou que os eleitores de Uttar Pradesh pareciam estar se afastando das tendências das últimas duas décadas, quando pensavam que a melhor maneira de obter os benefícios do desenvolvimento seria eleger alguém de sua própria casta como intermediário.

"Parece ter acontecido uma mudança no foco", disse. "No início, o foco era a casta e o desenvolvimento através das castas. Mas agora a mudança está concentrada no desenvolvimento e não nas castas."

NYT
Akhilesh Singh Yadav acena para partidáris do partido Samajwadi durante marcha eleitoral em Tulsipur, no Estado de Uttar Pradesh, Índia

Dada a probabilidade de que nenhum partido conquiste a maioria das cadeiras da assembleia, os analistas esperam que algum tipo de governo de coalizão deva ser formado. Pesquisas recentes têm sugerido que o Partido Samajwadi pode conquistar a maioria dos lugares, junto com o Partido do Congresso. Outro partido político indiano, o Partido Bharatiya Janata, ou BJP, também não pode descartar completamente a capacidade Mayawati de despertar seus partidários centrais novamente. "Compreender a qualidade obscura da política desta região é muito complicado", disse Verma.

Por Jim Yardley

    Leia tudo sobre: índiaeleiçãoestadopartido políticopolítica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG