Eleição e economia representam novos desafios para o Irã

Enquanto votação parlamentar se aproxima, crescem temores quanto a boicote de reformistas e efeitos econômicos de sanções

The New York Times |

A hierarquia islâmica conservadora do Irã tem se empenhado em retratar as próximas eleições parlamentares do país como um modelo invejável de democracia no Oriente Médio e uma inspiração para as revoltas da Primavera Árabe.

Mas um possível boicote por parte de reformistas duramente silenciados e o medo de novos episódios de violência, além de problemas econômicos decorrentes do isolamento por conta de suspeitas da existência de um programa nuclear no país, estão criando novos desafios para os líderes iranianos à medida que eles enfrentam o primeiro teste de legitimidade doméstica desde a contestada eleição presidencial de 2009.

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AP
Iranianos esperar na sede do Ministério do Interior em Teerã para se registrar como candidatos nas eleições parlamentares de março (27/12/11)

Apesar de afirmações dos líderes locais de que candidatos reformistas serão autorizados a participar nas eleições parlamentares, que serão realizadas em março, as duas principais figuras da oposição reformista no Irã, Mir Hussein Mousavi e Mehdi Karroubi, ambos ex-candidatos presidenciais, permaneceram sob prisão domiciliar ao longo de 2011, segundo partidários, e ambos pedem que seus eleitores fiquem longe das urnas.

Mesmo o ex-presidente ligeiramente reformista Mohammad Khatami, que não foi tratado tão duramente pelo governo, disse em dezembro que candidatos reformistas não iriam disputar as eleições de março. Isso criaria uma lacuna que prejudicaria a tentativa de fornecer a aparência de uma escolha entre diversos candidatos e minaria a busca por legitimidade.

"Era esperado que condições fossem concedidas aos reformistas para que pudessem participar das eleições, mas elas não foram cumpridas", disse Khatami, segundo a agência de notícias iraniana.

O resultado é importante porque o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e seus subordinados linha-dura têm procurado retratar o país como a verdadeira gênese dos levante políticos da Primavera Árabe que atingiu muitos de seus vizinhos. O fato de os reformistas iranianos rejeitarem publicamente o voto, mesmo antes que aconteça, traz riscos à credibilidade que a liderança conservadora não enfrentou em eleições anteriores, explicaram analistas.

"Os reformistas denunciaram categoricamente a legitimidade da eleição", disse Hamid Dabashi, professor de estudos iranianos e literatura comparada na Universidade de Columbia, em Nova York. "A questão que Khamenei enfrenta agora é a legitimidade do seu regime. Como ele poderá fabricar uma eleição parlamentar?"

As eleições foram ainda mais complicadas pela severa pressão econômica do Ocidente sobre o programa iraniano de energia nuclear, que as potências ocidentais suspeitam ser uma faxada para a fabricação de armas nucleares.

Embora a independência nuclear do Irã seja uma posição popular nacional que atravessa fronteiras políticas, os resultados dolorosos das sanções econômicas ocidentais estão prejudicando os iranianos - e arriscam o descontentamento dos eleitores - pelo aumento da escassez, o desemprego e a inflação. A moeda do Irã, o rial, caiu em relação ao dólar nos últimos meses e na quinta-feira atingiu uma baixa recorde.

"Este não é um bom momento para o governo iraniano enfrentar uma baixa popularidade", disse Alireza Nader, especialista em Irã no escritório de Washington do RAND Corporation, um grupo de pesquisa.

O governo respondeu às sanções com uma combinação de exercícios militares, diplomacia e desafio. Nos últimos dias, os iranianos realizaram jogos de guerra naval, ameaçaram fechar as rotas marítimas de petróleo do vital Golfo Pérsico, testaram dois novos mísseis e anunciaram a produção de combustível nuclear. Ao mesmo tempo, eles confrontaram uma nova medida punitiva assinada pelo presidente Barack Obama, que pode efetivamente sufocar as vendas de petróleo iraniano, dizendo que querem reabrir as negociações sobre a questão nuclear.

O principal comandante de polícia do país, levando em conta o caos que sacudiu o Irã depois da eleição presidencial de 2009, advertiu que as forças de segurança vão acabar com qualquer esforço do "inimigo e de seus defensores domésticos" que causem problemas.

O comandante, Ismail Ahmadi Moghadam, um confidente de Khamenei, também expressou sua expectativa de que os únicos vencedores, por definição, serão "aqueles que acreditam no regime e têm a confiança do público”.

Khamenei perdeu credibilidade considerável na eleição presidencial de 2009, quando declarou ser crime contestar os resultados suspeitos da eleição que favoreceu seu protegido, o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Para o aiatolá, as eleições de março devem mostrar - ou vão mostrar - que ele ainda é a autoridade reverenciada e incontestável, segundo analistas políticos e historiadores iranianos.

"O regime está muito preocupado em que a eleição pareça legítima", disse Nader. "Há uma boa chance de a próxima eleição parlamentar se tornar outra oportunidade para uma manifestação em massa ou que muitos iranianos simplesmente optem por não participar."

Para muitos iranianos insatisfeitos, o sistema eleitoral já foi criado com uma escolha significativamente pequena de candidatos para as 275 cadeiras do Majlis, ou Parlamento. Aqueles que desejam concorrer a um cargo devem se registrar com a autoridade religiosa conhecida como Conselho de Guardiães, que decide quem é elegível. A fase de registro, que teve início em 24 de dezembro, terminou na sexta-feira, e o Conselho de Guardiães deve liberar a lista final dos candidatos aprovados no final de janeiro ou início de fevereiro. Segundo o governo, mais de três mil candidatos pediram para ser considerados.

"O regime quer fingir que tudo continua normal e todos estão participando", disse Mehrzad Boroujerdi, professor associado de ciência política na Universidade de Syracuse. "O plano é atrair alguns dos elementos mais conservadores dentre os reformistas para que participem e eles possam dizer: 'Vocês viram?"'

Boroujerdi também disse que a votação poderia servir como um ensaio geral para a próxima eleição presidencial, prevista para ser realizada em 2013, e que vai oferecer vislumbres sobre como os iranianos se sentem pelo simples fato de eles ainda se preocuparem em votar. "Isso vai dizer muito sobre as várias forças em jogo", disse ele. "Por isso ela é tão importante."

Outros disseram que o processo seletivo de candidatos e a eleição de março irão revelar se partidários de Ahmadinejad, que teve alguns desentendimentos com Khamenei desde a eleição de 2009, serão proibidos de concorrer, uma medida que daria o controle inquestionável do Parlamento ao aiatolá.

Houve especulação de que Khamenei irá sugerir ao próximo Parlamento que o gabinete do presidente seja abolido, para ser substituído por um sistema no qual os legisladores selecionam um primeiro-ministro - uma sugestão que o aiatolá já fez no ano passado.

"Eles estão brincando com a ideia de acabar com o jogo de uma eleição presidencial", disse Dabashi. "Khamenei pode se aproveitar desta ocasião para implementar essa possibilidade."

Por Rick Gladstone

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