Eleição de Fernando Lugo dá esperança a centenas de sem-terras no Paraguai

SAN PEDRO, Paraguai - Na margem de uma fazenda local, o organizador rural Rogelio Silva observava meia dúzia de tendas onde seus compatriotas paraguaios cozinhavam sopa sobre uma fogueira. Perto da estrada, duas bandeiras amarradas a árvores expressavam sentimentos comuns no coração agrícola do país.

The New York Times |

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"Saiam, brasileiros", dizia um deles.

"Terra ou morte", dizia outro.

Trabalhadores rurais pobres, encorajados pela eleição de Fernando Lugo à presidência em abril, invadiram dezenas de fazendas ao longo da fronteira com o Brasil. Eles disseram que a terra paraguaia está sendo ocupada por fazendeiros brasileiros e que autoridades corruptas têm permitido que estes estrangeiros comprem terras há décadas.

Alguns dias depois que Lugo, ex-bispo católico com inclinações de esquerda, tomou posse em agosto, a polícia local expulsou mais de 500 trabalhadores rurais que ocupavam uma fazenda local. Em poucos dias, os sem-terra voltaram com mais tendas.

"Os proprietários brasileiros tentaram nos expulsar, mas nós não iremos embora", disse Silva. "Precisamos lutar pelo que é nosso, pelo que foi roubado de nós".

O movimento dos trabalhadores sem-terra no Paraguai se tornou uma luta armada violenta que continua a seguir em frente de forma perigosa. Um confronto este mês entre sem-terra e a polícia, um trabalhador morreu e três policiais ficaram feridos depois que as autoridades acabaram com a ocupação de uma fazenda.

Diante deste confronto, o governo de Lugo disse na semana passada que irá garantir uma antiga lei que proíbe que estrangeiros comprem terras agrícolas de cidadãos paraguaios.

Os trabalhadores sem-terra veem Ludo, que viveu e trabalhou como padre aqui em San Pedro por 11 anos, como sua melhor chance em décadas de conseguir recuperar terras para o cultivo familiar. Sua eleição como candidato da Aliança Patriótica pela Mudança interrompeu 61 anos de governo do Partido Colorado e ele prometeu uma ampla reforma agrária num país que mal consegue manter um registro confiável da propriedade de terras.

Os conflitos de terras não são apenas explosivos no Paraguai, mas também criam tensão entre o novo governo do país e o Brasil, cujas autoridades dizem que estão monitorando de perto os confrontos.

"O sentimento antibrasileiro não é algo que a maioria dos paraguaios compartilha", disse Antonio Francisco Da Costa e Silva, assistente na embaixada do Brasil em Assunção. "Mas é uma preocupação".

Os fazendeiros brasileiros imigrantes praticam agricultura de larga escala mecanizada, geralmente cultivando soja, que oferece pouco trabalho aos sem-terra e diminui as comunidades locais. Os trabalhadores dizem que o cultivo da soja também tem contaminado suas comunidades com toxinas que que atingem o suprimento de água, uma acusação que os fazendeiros negam. Os trabalhadores exigem que o governo, no mínimo, cumpra uma lei que exige que os fazendeiros preservem 25% das áreas de florestas tradicionais.

Apesar de ser um veterano da luta pelos pobres, Lugo pediu que os trabalhadores sem-terra parem de ocupar fazendas e lhe deem mais tempo para agir e por em prática uma ampla reforma agrária. O ministro do interior, Rafael Filizzola, prometeu que o governo continuará a realizar desocupações, alertando os fazendeiros a não fazer justiça com as próprias mãos.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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