Egito e vizinhos sedentos entram em disputa pelas águas do Nilo

Países localizados ao norte do rio histórico defendem novo acordo e chamam tratado sobre utilização das águas de colonialista

The New York Times |

Um lugar para se começar a entender por que o Egito, um país assolado pela seca, rompeu as relações com seus vizinhos Nilo acima é a região lamacenta das plantações de algodão e milho de Mohamed Abdallah Sharkawi. O preço que ele paga pelo precioso recurso que inunda sua fazenda? Nada.

"Graças a Deus", disse Sharkawi sobre a água do rio Nilo. Ele ergueu as mãos para o céu, então fez um gesto na direção de um funcionário do Estado visitando sua fazenda."Tudo vem de Deus e do ministério".

AFP
Cristãos ortodoxos no Rio Nilo, na altura do norte da Etiópia
Mas talvez não por muito tempo. Países localizados rio acima, buscando corrigir o que acreditam ser erros históricos, se uniram na tentativa de acabar com o quase monopólio que Egito e Sudão têm sobre a água, ameaçando uma crise que especialistas egípcios dizem que poderia, na sua forma mais extrema, levar à guerra.

Desde que a primeira civilização surgiu na região, os egípcios têm se agrupado ao longo das margens ricas em lodo do Nilo. Quase todas as 80 milhões de pessoas do país vivem a poucos quilômetros do rio, e os agricultores mudaram pouco seus métodos de cultivo em quatro milênios. A população do Egito está crescendo rapidamente, porém, e até o ano de 2017 as taxas atuais de uso da água do Nilo vão apenas atender às necessidades básicas do país, de acordo com o Ministério da Irrigação.

E isso caso o fluxo do rio se mantenha intacto. Sob o domínio colonial britânico, um tratado de 1929 reservou 80% de todo o fluxo do Nilo para o Egito e o Sudão, na época governados como um único país. Esse tratado foi reafirmado em 1959.

Tratado

Os sete países acima do rio – Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda – dizem que o tratado é um resquício injusto do colonialismo, enquanto o Egito diz que esses países estão repletos de recursos hídricos, ao contrário do Egito árido, que depende apenas de um.

The New York Times
Homem faz orações próximo ao Rio Nilo, no Sudão
O confronto de hoje tem se desdobrado em câmera lenta. Em abril, as negociações entre os nove países do Nilo foram interrompidas depois que Egito e Sudão se recusaram a ceder terreno. Os países acima rapidamente se reuniram e em maio ofereceram uma proposta que iria libertá-los para construir seus próprios projetos de irrigação e barragens, reduzindo o fluxo para o Lago Nasser, o vasto reservatório artificial que atravessa o Egito e o Sudão.

Até agora, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia e Ruanda assinaram o acordo da nova bacia do Nilo, que exigiria uma maioria simples dos países membros para aprovar novos projetos. O Egito quer manter o poder de veto sobre projetos em qualquer país e com o Sudão alega que as principais disposições do tratado da era colonial devem ser preservadas.

Congo e Burundi ainda não tomaram lados. Egito e Sudão têm até maio de 2011 para retomar as negociações, ou então os demais países irão ativar o novo acordo.

*Por Thanassis Cambanis

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