Egito: Ajuda militar dos EUA se confunde com negócios do Exército

Cresce receio sobre militares que encontram maneiras de usar ajuda de US$ 1,3 bilhão por ano em projetos de interesse econômico

The New York Times |

No fim dos anos 90, o Pentágono anunciou que iria contribuir com milhões de dólares para a criação de um Centro Médico da Mulher de 650 leitos que o Exército egípcio estava construindo no deserto nos arredores do Cairo. O dinheiro para equipamentos médicos, treinamento e apoio logístico ajudaria a melhorar a assistência médica dos soldados egípcios.

Em poucos anos, porém, uma equipe de treinamento americana percebeu que os militares egípcios estava se beneficiando de uma maneira diferente. O centro médico era o que um oficial do Pentágono chamou de "um empreendimento comercial", e muitos de seus pacientes eram civis e não soldados egípcios. O hospital chegava a se aventurar no turismo médico, com o seu site promovendo uma "luxuosa suíte real" para doentes internacionais.

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Crianças posam para foto perto de tanque egípcio construído com partes de veículo militar americano, no Cairo
Wayne F. Yakes, um médico dos Estados Unidos que trabalhou no local, recorda o que seus anfitriões egípcios lhe contavam sobre o hospital: "Ele foi construído com o dinheiro dos contribuintes americanos sob o governo do presidente Bill Clinton". Simplificando, ele disse: "Nós o compramos para eles".

Eventualmente, os Estados Unidos agiram para cortar o financiamento e até mesmo recuperar parte do dinheiro investido, segundo vários ex-oficiais militares americanos. Afinal, o Pentágono só deve pagar por projetos com fins militares.

No entanto, com os Estados Unidos dando ao Cairo US$1,3 bilhão por ano em ajuda militar, o episódio do hospital gera dúvidas sobre os militares que visam ao lucro no Egito por vezes encontrarem maneiras de usar essa ajuda para continuar os seus projetos de interesse econômico.

Agora, conforme os generais orientam o Egito na direção de um novo governo civil após a queda do presidente Hosni Mubarak, essas questões sobre o programa de ajuda ecoam um mal-estar mais amplo, especialmente no movimento pró-democracia: será que uma força militar tão profundamente investida em um sistema que confere poder econômico e político estará disposta a entregar o poder?

Corrupção

Alguns especialistas e ex-oficiais militares dos Estados Unidos dizem que a ajuda de Washington tem servido para sustentar uma burocracia militar propensa ao abuso de informações privilegiadas e corrupção.

Edward W. Ross, um ex-oficial da Agência de Cooperação de Segurança e Defesa, que supervisiona a ajuda disse estar irritado com as acusações de que os egípcios poderiam ter embolsado o dinheiro. "Esse dinheiro vai para o Federal Reserve e só é liberado a empreiteiros americanos", disse.

Mesmo assim, os Estados Unidos têm muito menos controle sobre como os dólares são usados quando chegam ao Egito. Em entrevistas, muitos ex-oficiais militares dos Estados Unidos disseram que a manutenção da ajuda muitas vezes parece mais importante do que questões sobre ela ser realmente eficaz.

Alguns deles pediram anonimato porque não querem se indispor com os militares egípcios. O US$ 1,3 bilhão anual, segundo um coronel aposentado, são vistos como "um direito".

*Por Aram Roston e David Rohde

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