Efeito de reformas é tímido para agricultores de Mianmar

Para fazendeiros que vivem nos arredores de Yangon, mudanças pró-democracia não resolvem problemas

The New York Times |

Os agricultores do vilarejo de Htan Pin, nos arredores de Yangon, a capital de Mianmar, nunca ouviram falar de Hillary Rodham Clinton, e tampouco conhecem o significado da palavra democracia.

A chegada de Hillary a Mianmar na quarta-feira chamou a atenção dos moradores e ressaltou o plano do atual governo de melhorar a reputação dos militares e também dos erros econômicos cometidos por eles.

Porém, no campo, os agricultores descrevem um sentimento de estagnação. "As coisas não estão tão diferentes", disse U Win Tin Hlaing, 41, que planta arroz. "Houve apenas um pouco de mudança."

Leia também: Hillary e Suu Kyi promovem aproximação entre EUA e Mianmar

NYT
Mulher seca peixe em fazenda nos arredores de Yangon, Mianmar (30/11)

Sentados em uma casa de telhado de palha cercada por plantações de arroz, U Win Tin Hlaing e seus vizinhos disseram que quando as plantações de arroz estão em baixa não existe esperança para sua subsistência, suas dívidas e para as crises de fome recorrentes.

A maioria das mudanças feitas pelo presidente Thein Sein - a libertação de alguns presos políticos, a flexibilização das restrições à compra de carros, a modernização do sistema bancário, entre outros - ganharam a confiança de céticos da classe urbana do país.

Essas mudanças parecem distantes a apenas uma hora de Yangon. "Não temos tempo para pensar sobre política", disse U Toe Naing, 44, um agricultor que, como muitos de seus vizinhos, lida com uma montanha de dívidas acumuladas durante as más colheitas dos últimos anos, incluindo a devastação feita pelo ciclone Nargis, em 2008, que praticamente acabou com o equivalente a anos de cultivo.

Cerca de 70% dos 55 milhões de habitantes de Mianmar trabalham com agricultura, um setor que tem sido severamente atrofiado nas últimas décadas por falta de máquinas, pouco crédito e acesso confiável aos mercados internacionais.

Os agricultores precisam pedir empréstimos no mercado negro com taxas de mais de 200% ao ano. "Temos que pedir e pagar, pedir mais e pagar de volta", disse Tin Win Hlaing.

Por morarem perto de Yangon, os moradores desta aldeia estão em melhor situação do que muitos agricultores do interior do país. Mesmo assim, U Win Tin Hlaing e seus vizinhos não têm acesso à eletricidade ou ao esgoto encanado.

A estrada mais próxima fica a 20 minutos e ninguém possui sequer um celular. Os bebês nascem em casa - por ser a maneira mais viável. "Às vezes, as mães morrem no caminho para o hospital", disse Naing Toe.

Nos campos, os agricultores utilizam equipamentos para colheita que foram importados da China e que tendem a não ser muito confiáveis e duradouros. Outros usam bois.

O governo disse que ajudar o setor agrícola é uma prioridade, mas a tarefa é monumental. Mianmar está emergindo lentamente de décadas durante as quais os militares tentaram gerir diretamente a economia.

Os agricultores são proibidos de ser donos da terra que cultivam, o que complica esforços de utilizar a propriedade como garantia para empréstimos.

Uma diferença importante entre o atual governo e os dos militares que precederam Thein Sein é aparentemente a sua preocupação com a pobreza, especialmente em áreas rurais.

A junta militar, que permaneceu no poder por mais de duas décadas, rejeitava a noção de que havia pobreza no país e chegou a expulsar um oficial da ONU que iniciou uma campanha sobre o assunto.

Na quarta-feira o governo procurou destacar seu foco na agricultura. Saíram na primeira página do jornal "The New Light Of Myanmar" (A Luz de Mianmar, em tradução livre), os esforços para aumentar o bem-estar dos agricultores, através do desenvolvimento de maior rendimento das linhagens de arroz.

O artigo sobre a agricultura falava sobre uma mudança das técnicas tradicionalmente utilizadas no cultivo - uma aparente referência aos bois que puxam arados - para um "sistema de agricultura mecanizada." Ele também mencionou uma melhora no sistema de educação para os agricultores, dizendo que 80% deles eram "'simples' em termos de educação". O artigo não define o que quer dizer por 'simples'.

Os agricultores dizem que sentiram as mudanças em Mianmar de duas importantes maneiras. Primeiro, eles têm menos medo de se aproximar de oficiais do governo, incluindo aqueles que fizeram um pedido recentemente para a construção de uma vala para drenagem a fim de manter os campos livres de possíveis inundações.

Sob o comando do antigo governo militar, segundo Tin Win Hlaing, não era possível “pedir nada ou reclamar, tínhamos medo de que iriam tomar as nossas terras".

Em segundo lugar, o governo aumentou o tamanho dos empréstimos com juros baixos à disposição dos agricultores, embora isso não alivie os agricultores de sua
dívida. Tin Win Hlaing, por exemplo, deve o equivalente a US$ 5 mil (cerca de R$ 9 mil).

Quase todas as manhãs, ele se levanta às 4h30. Perguntado sobre o que ele pensa quando acorda, Tin Win Hlaing não hesitou: "Minhas dívidas.”

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