Editorial: Washington deve pressionar governo iraquiano por mudanças

O presidente Barack Obama corretamente redirecionou a atenção americana para o Afeganistão e Paquistão, o fronte real do combate ao terrorismo. Mas o recente aumento nos bombardeios é um assustador lembrete de todo o trabalho não concluído pelo ex-presidente George W. Bush na desnecessária guerra no Iraque.

The New York Times |

Conforme as tropas americanas começam a entregar postos de combate ao exército iraquiano, os insurgentes sunitas estão tentando explorar qualquer fraqueza. Em abril, mais de 300 iraquianos morreram, um número um pouco maior do que os 200 que morreram em janeiro. Dezoito soldados americanos foram mortos, o maior número de casualidades em seis meses.

O problema não é a ordem de Obama para acabar com a longa guerra no Iraque. Mas, sim, o fracasso do governo xiita em adotar mudanças políticas que são a única chance de manter o país unido.

Nós esperávamos que uma agenda de retirada americana mais objetiva colocaria a atenção nos líderes iraquianos. Até então este não foi o caso (pelo menos não o suficiente). Washington precisa pressioná-los muito mais, usando todo seu poder, inclusive almejando o apetite de Bagdá por equipamentos militares e ajuda humanitária.

O primeiro-ministro Nouri Kamal Al-Maliki não deu andamento a um compromisso político de encontrar empregos no governo para milhares de membros dos Conselhos Sunitas, antigos insurgentes cuja decisão de mudar de lado ajudou a mudar o curso da guerra. Seu governo também fracassou em implementar uma lei de um ano que permitira que antigos membros do Partido Baathist (que foram banidos do governo depois da invasão de 2003) retornassem a seus postos ou recebessem pensões.

Antigas rivalidades são difíceis de se deixar de lado. O declínio nos lucros do petróleo dificulta ainda mais que o governo expanda a empregabilidade no momento. Mas o Iraque irá pagar um preço muito mais alto caso os sunitas incomodados com a situação se voltem contra o governo novamente.

As tensões étnicas também estão aumentando no norte onde os curdos pressionam para que Kirkuk seja anexada à região semi-autônoma. Moradores turcos e árabes insistem em ficar com o governo central. Mediadores da ONU propuseram acordos, como transformar Kirkuk em uma cidade autônoma coordenada pelos três grupos étnicos. Se um acordo não puder ser feito, Washington, Bagdá e os curdos podem ter que considerar uma gestão externa, possivelmente da ONU, por algum tempo.

Também será preciso encontrar formas de acabar com a fricção na província Nineveh, enclave da insurgência sunita. Os sunitas árabes se ausentaram das eleições de 2005, deixando a minoria curda disputar praticamente sem oposição. Os sunitas venceram com larga margem as eleições provincianas de janeiro e dominam o conselho provinciano, seu orçamento e empregos.

Um porta-voz do governo iraquiano disse no domingo que um acordo de segurança entre seu país e os Estados Unidos não seria modificado para permitir que soldados americanos ficassem em Mosul, a capital provinciana, depois da data limite de 30 de junho. Mas se a violência aumentar, isso pode ter que ser revisto.

Durante dois longos meses, Washington não teve embaixador no Iraque. Agora que Christopher Hill (o veterano diplomata que liderou as negociações com a Coreia do Norte durante a era Bush) está finalmente posicionado, ele precisa agir com rapidez para lidar com estes desafios.

O governo iraquiano precisa ser pressionado para finalmente adotar uma há muito atrasada lei que estabeleceria de forma igualitária o gerenciamento dos campos de petróleo do país. Além disso, ainda não há planos para o retorno dos cerca de 4 milhões de iraquianos que são refugiados.

Washington também precisa encontrar formas de trabalhar com o Irã e outros vizinhos do Iraque para tentar limitar o envolvimento externo conforme as tropas americanas se preparam para deixar o país. O Pentágono fez algum progresso na construção do exército iraquiano e sua polícia, mas há muito mais treinamento a ser feito antes que eles possam tomar o lugar das tropas americanas.

Mesmo então, não haverá chance de uma paz duradoura sem profundas reformas políticas e econômicas e a participação dos vizinhos do Iraque.

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